Para além da autonomia

No livro “A Hermenêutica do sujeito”, Michel Foucault trabalha a noção de autonomia na cultura clássica grega, mostrando como o “bom governo de si” envolvia necessariamente uma relação com o outro – ou, nas minhas palavras, envolvia a experiência de ser bem governado pelo outro.

De lá pra cá, à parte as idas e vindas históricas, o conceito continuou central, mas sofreu uma alteração fundamental: pelo menos desde Descartes, a autonomia moderna seria buscada numa relação entre o sujeito e o conhecimento – uma relação verdadeira, diríamos – e não mais numa relação com o outro.

Como Foucault mostrou muito bem, o que se perdeu aí foi a experiência de transformação subjetiva que, nos gregos, era condição do acesso ao conhecimento – e que, para nós, foi apagada, quando não recusada, na relação com o conhecer.

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A ciência moderna é um exemplo prático do que seria essa “exclusão” do sujeito e sua condição como premissa para o conhecer. Na ciência atual, o sujeito, a subjetividade, são evitadas, retiradas de cena, e isso é visto como condição de conhecer verdadeiramente.

Na Grécia estudada por Foucault, ao contrário, cada conhecimento dependia de uma transformação subjetiva específica, na sua base. Não a exclusão do sujeito, mas o seu posturamento – colocar o sujeito em uma posição específica de vida e experiência, para que, então, o conhecimento verdadeiro seja possível.

A leitura foucaultiana nos permite pensar a modernidade a partir de muitos vértices diferentes, como por exemplo: um conhecimento sem sujeito, mesmo sendo verdadeiro, servirá ao sujeito? Será útil aos sujeitos? Que tipo de sujeito é necessário para “compôr” com esse conhecimento “a-subjetivo”? Mas, principalmente, a ideia de que talvez estejamos avançando na direção errada, rumo a um conhecimento no qual não temos lugar.

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Essa discussão toda é importante quando se trata de pensar em “autonomia”. Porque, como a própria palavra diz, trata-se de “nomear as coisas por si mesmo”, estabelecer seus próprios valores. Mas, como vimos, isso funcionava no interior de uma relação muito especial entre os gregos, e nós apenas importamos a “casca”, o “externo”, da ideia deles, sem ter muito o que fazer com o ‘recheio’.

Quê seria esse recheio? A relação como condição de autonomia. Ou ainda: a dependência de um outro, autônomo, como condição para a autonomia.

Isso vai contra muitos dos nossos valores ‘modernos’, baseados, na maioria, num ideal de autonomia “autônoma”, que aconteceria sem a ajuda de ninguém, apenas pela “força de vontade” do sujeito ‘autônomo’.

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Dito dessa forma, fica evidente que não há nada de novo nessa valorização idealizada da “autonomia”. Ela é apenas uma outra forma de pressão social, uma idealização que pode ser assumida pelos sujeitos como uma obrigação, uma submissão a um ideal social ou pessoal.

Ou seja, paradoxalmente, um exercício de autonomia solitário tende a ser muito próximo de uma submissão a um valor ou ideia não questionado, ao passo que a autonomia gestada na dependência de um outro sujeito (que nos “ensina” a autonomia através da nossa submissão inicial) terminaria com uma autonomia efetivamente “autônoma”, ao menos na medida em que houvesse suporte no outro para questionar a própria relação.

Com o quê, a própria valorização ingênua da “autonomia” como valor entra em questão. Será que não estamos apenas reproduzindo formas de submissão cultural, quando aspiramos a esse tipo de autonomia na solidão? Em todo caso, o efeito prático dessa autonomia hoje é, muitas vezes, a solidão – e isso por si só já dá o que pensar.

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