Palavras são objetos

O funcionamento animista do ser humano continua firme e forte, apesar – ou NÃO apesar! – de toda nossa racionalidade (pois ela também é, em boa parte, animismo). Isso é visível na forma como usamos as palavras dos outros, pretendendo que, por serem de alguém sábio, nós também nos tornamos sábios.

Não é tão simples assim.

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Se vemos alguém andando com roupas finas e caras, é razoável pensar que essa pessoa quer transparecer a mesma “finesse” que suas roupas. Se vemos alguém andando num carro grande e agressivo, podemos pensar que esses são atributos que a pessoa gostaria de ver associados consigo.

Acho que muita gente concordaria com esse tipo de associação entre os objetos que escolhemos usar e algo nosso, algo pessoal, que queremos exaltar, ou, às vezes, engrandecer, compensar. Mas porque isso não é pensado também para as palavras, as ideias?

Afinal, trata-se da mesma coisa. Num caso como no outro, agimos como se as características das coisas pudessem passar pra nós, pudessem nos ‘contaminar’.

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Isso é visível na adolescência, quando começamos a conhecer e a experimentar as grandes ideias disponíveis na ‘boutique’ do mundo. Jovens que mal saíram do quarto – me incluo nessa! – andam por aí defendendo posições e ideias como se já tivessem vivido muito. Todos conhecem alguém que defende ‘tal’ ideia só porque é ‘cult’, ou diferente, ou rígido ou conservador.

Claro que as ideias – como as roupas e os carros – podem simplesmente estar expressando os valores próprios da pessoa. Mas como não ver que o inverso também acontece? Que muita gente usa ideias e palavras como máscaras, como adereços que gostaria que fossem seus, embora as vezes sem nem compreender direito o que eles implicam?

Não é o fingimento o que me interessa aqui. Ele é parte da vida, e, as vezes, um mal necessário. Meu ponto é a ingenuidade com que acreditamos nas palavras, como se elas não fossem objetos como qualquer outro.

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Palavras são objetos. E embora os objetos pareçam ter um sentido intrínseco – uma faca, por exemplo, para que mais serviria, além de cortar? – no fundo, somos nós que lhe completamos o sentido.

Deixe uma faca no meio de animais e, muito provavelmente, ela continuará lá, parada. Nenhum (ou poucos) deles a utilizarão como nós – apesar do seu ‘sentido intrínseco’. (A pesquisa discorda de mim, mas o sentido da minha afirmação permanece – https://pt.wikipedia.org/wiki/Uso_de_ferramentas_por_animais).

Diria que a sentido “dos” objetos não está nunca nos objetos, mas é algo que nós lhe inserimos (ou os animais que os usam). O objeto pode no máximo evocar, sugerir, um uso; mas é preciso um aparato mental, uma inteligência, para entender esse uso e realizá-lo.

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Retomando o assunto, não, não viramos “sábios” só porque usamos as mesmas palavras que os sábios, mas é claro que elas podem nos sugerir algo, algo que então fará sentido para nós, que será pessoal, e que então diremos talvez com as nossas palavras.

Tanto é assim que não é raro ver pessoas lendo os mesmos autores – por exemplo, Lacan ou Freud – e tirando conclusões diferentes. Cada um traduziu e relacionou aquelas palavras do texto com suas próprias ideias e experiências, modificando o sentido sugerido pelo texto.

A rigor, acho que é sempre assim; as palavras sugerem sentidos em aberto; mesmo a ciência, que procura exorcizar a “abertura de sentido” das palavras, muitas vezes não o consegue. Para dizer tudo, toda palavra é um pouco poesia.

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