Psicanálise e ciência – Simanke e as contradições modernas

(ideias soltas a partir do livro “Metapsicologia lacaniana”, de Richard Simanke)

A formulação do Simanke é interessante. Baseado em Foucault (“Os anormais”, “O nascimento da clínica”) e em Canguilhem (“O normal e o patológico”) ele argumenta que há uma contradição no projeto da medicina moderna, qual seja: OU a doença é entificada como ‘coisa’ externa ao doente, OU é identificada como parte do processo vivo.

No primeiro caso, perde-se o contato com o sujeito total (cria-se uma medicina como ciência das doenças, não das pessoas); no segundo, perde-se a especificidade do objeto (se a doença é igual – ou parte – (d)a saúde, no limite, a doença não existe como tal.

Isso é exacerbado no caso da psiquiatria, que trata das doenças MENTAIS, ou seja, mais difíceis ainda de entificar (sem correlato material) ou de des-objetivar.

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Complicando ainda mais o quadro, há o problema específico da CIÊNCIA, que seria a tentativa moderna de DES-SUBJETIVAR o discurso – ou seja, buscar uma adequação de conceito e objeto absoluta, no limite. Isso intensifica a tendência da medicina (e da psiquiatria) de oscilar entre entificação e ‘normalização’ da doença.


Uma inovação de Lacan seria propôr uma reversão nisso tudo: uma ciência que fosse SUBJETIVA (ou metafórica; onde a posição do sujeito seja essencial à ‘verdade’, mais ou menos como Foucault tbém fala, na “Hermenêutica do sujeito”).

Daí a figura (de Simanke) de uma TEORIA COMO METÁFORA (e eu diria: de uma ciência como metáfora, tbém). Poderíamos simplificar dizendo: uma teoria poética; que não exorcizasse a duplicidade de sentidos, mas até a buscasse, a incentivasse.

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Resta o caso de Winnicott (e de Freud), que concebiam a doença como parte do processo vivo (um vitalismo), o que me parece ser uma solução mais simples pra contradição entre o necessário subjetivismo de uma psicanálise e a objetividade necessária à ciência.

Freud via na associação um processo objetivo, a presidir o subjetivo; Winnicott, opera no paradoxo, ou na diferença de temporalidade, como diz Loparic: o humano em geral (fora do tempo) tem regras objetivas, enquanto o humano no particular (no tempo) está sujeito às contingências de sua história (sua subjetividade), onde as regras gerais já não funcionam.

O que é o mesmo que dizer que só haveria ciência do homem geral, e à clínica caberia literalmente refazer essa ciência em cada humano particular com que se defronta.

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