A relação com a realidade

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A relação com a ‘realidade’ das coisas nos parece, à nós adultos e sãos, algo “dado”, algo natural; simples efeito de um desenvolvimento físico, biológico, cerebral. Simples efeito da percepção, poderíamos dizer.

É bem isso que vem sendo dito por muitos estudiosos da mente há muito tempo, mas a psicanálise, sempre ela, insiste em dar pra tudo uma conotação desenvolvimentista, evolutiva, emocional. E isso aconteceria também em nossa relação com a realidade.

Vamos olhar isso mais de perto.

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Em contraposição a esse cenário muito concreto onde a percepção da realidade é o simples efeito da aplicação de nossos sentidos sobre o mundo objetivo, para a psicanálise a percepção é sempre e apenas uma parte do processo, e nem sempre a parte principal. Há que levar em conta ainda o mundo subjetivo, o trabalho emocional que fazemos sobre cada uma de nossas percepções.

Dito de outra forma, toda e qualquer percepção será sempre “banhada” por um aspecto emocional, que às vezes pode ser tão intenso que inclusive impossibilite o uso da percepção.

Isso é visto em alguns casos de psicose, onde o fato de algo ter sido percebido, fisiologicamente, não implica em que passe a fazer parte dos dados da consciência. Ou seja, a percepção (objetiva) não é suficiente para que o percebido se inclua no mundo interno (subjetivo) do sujeito.

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Em Winnicott, essa “subjetivação” do dado alcança um nível ainda mais complexo, já que para esse autor, a realidade como tal adquire um contorno específico, que não depende apenas de sua objetividade – o real enquanto real -, mas antes do lugar subjetivo que o real vem a ocupar para o sujeito.

Que lugar é esse?

Em poucas palavras, é o lugar do ambiente, o lugar da mãe.

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Retrocedamos um pouco. Para Winnicott, o bebê humano precisa ser cuidado, nos primeiros meses de vida, de tal forma que a soma total dos cuidados replique, aproximadamente, a experiência de vida do bebê no útero. Vale dizer, do ponto de vista do bebê, o nascimento seria uma espécie de enriquecimento da vida intra-uterina.

O essencial, contudo, é que esse início da vida deve ser tão protegido e confortável quanto antes. “Viver”, para o bebê, deve ser algo bom, algo natural, algo que simplesmente acompanha o desenvolvimento de seus instintos, suas capacidades.

Numa palavra, o ambiente como um todo – e, poderíamos dizer: o real – devem se adaptar à criança, e não o contrário.

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Ora, é claramente impossível sustentar isso por muito tempo, então será natural, e parte do desenvolvimento, que existam falhas na adaptação. Essas falhas darão oportunidade ao bebê de experimentar uma frustração, isto é, de ter a experiência de SE adaptar ao real, ao invés de simplesmente aproveitar-se da adaptação constante, até então experimentada, DO real. (Estou usando “real” e “ambiente” como sinônimos, aqui).

Essa adaptação da criança ao real se dá no sentido de resgatar aquela continuidade que existia antes, quando o ambiente estava bem adaptado às necessidades da criança.

Assim, por exemplo, pode acontecer de a mãe se atrasar, ao dar comida ao bebê, que assim experimenta uma frustração . No entanto, na medida em que com isso o bebê aprende a esperar, a confiar que a comida virá, logo mais adiante, temos novamente um encontro, uma continuidade, entre o ser do bebê e os cuidados do ambiente. A distância, a frouxidão, entre esses cuidados e as necessidades da criança vão sendo preenchidos por uma capacidade de tolerar a frustração. E essa capacidade é uma das motivações para o que mais tarde surgirá como… pensamento.

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Do ponto de vista psicanalítico, portanto, especialmente em Winnicott, a realidade ocupará, paulatinamente, o mesmo lugar que o ambiente cuidador.

Isso implica numa série de consequências, as quais resumiremos dizendo que a “realidade” do real e nossa “intimidade” com ele – nossa capacidade de estar à vontade com as coisas como elas são – dependem diretamente de nossas primeiras experiências com o ambiente.

Poderíamos dizer, tentando conciliar a visão mais fisicalista das coisas, que a questão não se dá tanto ao nível da percepção, mas do uso que é feito dela, internamente, emocionalmente. Diríamos então que a realidade é vivida como se fosse uma continuação do ambiente inicial.

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A “realidade” da qual se trata aqui é a realidade emocional. Ou seja, não se está propondo que alguém “pense” que a realidade ocupa o lugar da mãe dele, mas sim que, emocionalmente, há uma ligação entre essas duas experiências.

Alguns fatos da clínica nos ajudam a sustentar essa leitura. A começar pela simetria estrutural entre nossa relação com o “real” e nossa relação com o “outro”: nas crises psicóticas, por exemplo, é comum que ambas as coisas sejam perdidas ao mesmo tempo. O doente tanto perde sua capacidade de se relacionar com a realidade, como perde sua relação com as pessoas.

Mas há exemplos menos extremos, como momentos depressivos onde, novamente, o desejo de estar com as coisas diminui, junto com o desejo de estar com as pessoas.

Para quem não tem contato com essas vivências, o cansaço normal, do fim do dia, poderia ser um exemplo: há momentos em que não queremos mais a “realidade”; queremos outras coisas, seja uma ‘novela’, um jogo de videogame, um romance… Isso porque, no fundo, não queremos pensar; não queremos sustentar essa ligação entre nós e o mundo… porque isso cansa. Dá trabalho. Dá Trabalho emocional.

E não deveria cansar, se ‘perceber o real’ fosse algo “natural”, apenas cerebral.

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