O discurso capitalista e a falência do real

Em posts anteriores apresentei a ideia de que nossa relação com o real (objetivo) é mediada por nossas experiências com o ambiente inicial (subjetivo).

Em consequência, podemos ler a maneira como nos relacionamos com as coisas como um indício da qualidade das relações iniciais que experimentamos.

Agora, isso não esgota a questão. Há um claro direcionamento cultural favorecendo ou dificultando nossa postura diante do real.

O capitalismo é um exemplo disso. Especialmente todo esse discurso sobre “eficiência” e “produtividade”. O que isso nos diz sobre nossa relação subjetiva com nossa própria história?

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Estou entendendo o capitalismo aqui como uma cultura. Uma forma específica de entender e dar significado à vida humana. Uma visão de mundo, que comporta essencialmente um esvaziamento da subjetividade e das relações de suporte, que são trocadas por ideais de consumo e de autonomia supostamente mais “eficientes” – justamente para o grupo – no gerenciamento de nossas vidas.

Vou repetir, porque isso é fundamental: o esvaziamento da importância da subjetividade é essencial ao capitalismo. Não se trata de algo acessório, mas de um tipo de entendimento do humano sem o qual o modo capitalista de viver não se sustenta.

Dizendo de outra forma, o capitalismo precisa intensificar a percepção dos outros como competidores em relação à minha subsistência, e qualquer forma de cooperação ou de competição mais branda estanca essa forma de cultura que estou chamando de “capitalista”.

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Pois bem. Isso só se sustenta deformando nossas relações de sustentação. De forma genérica, podemos encontrar competição e sustentação em todos os grupamentos humanos na história, mas a especificidade do capitalismo estaria em pretender substituir um pelo outro.

Isso acontece a partir de discursos e de valores idealizados. Por exemplo, a ideia de que “você é o único responsável pelo seu sucesso” desconsidera a importância de toda a nossa estruturação subjetiva – que acontece de forma inconsciente na infância, ou seja, fora de nosso controle, ao menos para a psicanálise. Desconsidera também a importância dos “outros significativos” na nossa vida adulta, como suportes e remansos onde nosso trabalho de elaboração do real pode descansar e se refazer.

Numa palavra, o discurso capitalista perverte a noção de suporte do grupo, atuando como uma forma de suporte que permanentemente joga o sujeito contra ele mesmo, como “único suporte” de si. Vale dizer, o capitalismo exacerba um individualismo (idealizado) pretensamente capaz de ocupar o lugar do suporte do “outro”, do laço social.

Como psicólogo, posso dizer que muita coisa sugere que isso não funciona.

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Para além do discurso capitalista em si, queria analisar aqui o que ele nos sugere acerca das relações entre o sujeito capitalista e o real.

Porque se o real pode ser entendido como sucessor de nossa relação com o ambiente inicial (geralmente, a mãe), essa idealização do “do it yourself” – faça você mesmo; no limite “você se faz a si mesmo” – significaria uma espécie de sedução para o abandono da mãe, isto é, do abandono do ambiente inicial como referência subjetiva para o sujeito.

Quem tem experiência clínica reconhecerá claramente muitos dos nossos pacientes, aqui. Mas não é preciso ir tão longe: basta olhar a exuberância de “tutoriais” internet afora que se propõe justamente a nos oferecer uma referência de sentido para a vida. O que faz sentido, agora que nossas referências “naturais” foram paulatinamente deslegitimadas.

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É a história do “ter um propósito”, só que, mais uma vez, colocado de forma dissociada da história de cada um, dissociada do grupo. Como se o “propósito” valesse por si mesmo, objetivamente, e não em função da história de vida, dos valores, das experiências, que nós vivemos, e que preencheriam esse propósito com as coordenadas de nossa vida concreta.

(aliás, interessante ver que, onde essa busca de propósito encontra o “outro”, automaticamente as coisas ficam menos capitalistas. Como quando isso esbarra em alguma religiosidade, ou na ajuda dos mais pobres, etc)

O resultado disso tudo seria um progressivo assentamento do sujeito sobre ele mesmo, conjugado com um esfriamento das relações sociais – porque o grupo, a sociedade, também é herdeiro das relações iniciais com o ambiente, e também é recusado, nessa vulgata capitalista do “do it yourself”.

O problema, insisto, é que esse assentamento do sujeito sobre ele mesmo – no fundo, sobre essa crença de que ele “pode fazer tudo sozinho” – não se sustenta, ao menos para a psicanálise. Mas os sujeitos submetidos a esse discurso não tem outro recurso senão culparem a si mesmos, por não serem “eficientes” o bastante. O que instaura um círculo vicioso centrado na culpa e na dissociação com o grupo.

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Com tudo isso, não estou dizendo que não há nada de positivo nesse discurso. Endereçar o sucesso pessoal ao esforço de cada um foi um dos pilares que ajudou a transformar a sociedade medieval. Da mesma forma, também é possível sofrer de ambiente “demais”, isto é, da dificuldade de se desligar do ambiente, e esse viés cultural acaba dando um “empurrão” nessas pessoas, em direção à própria responsabilidade.

Entretanto, é preciso que exista uma medida, um limite onde esse esforço individual ceda espaço também para a importância do grupo, mesmo que ás custas do “sucesso”.

Esse “outro olhar” era mais ou menos mantido pela religiosidade. Ainda hoje ele existe, porque, felizmente, não estamos 100% absorvidos pela visão capitalista. Mas isso acontece mais apesar do capitalismo, do que por sua vontade. A sociedade como suporte já não encontra lugar cultural para existir.

As tentativas de subsumir o “outro” enquanto suporte de relação ao “outro” enquanto “consumidor satisfeito” não tem o mesmo efeito de suporte e subjetivação. Ao contrário, são exemplos claros de como o “outro” muda de estatuto numa relação mais intensamente capitalista, e já não importa enquanto subjetividade, mas apenas enquanto cliente.

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Fica claro, nesse contexto, como a psicanálise pode ser revolucionária, uma leitura da vida abertamente contra-cultural, na medida em que ela salienta a importância da dependência, do “outro”, para nossa própria constituição individual. Vale dizer, como só podemos construir uma autonomia e eficácia saudáveis quando apoiados numa boa relação com o “outro”.

Espero que fique claro também como o socialismo não é uma alternativa real ao capitalismo, na medida em que nele também não se dá espaço para o subjetivo.

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