A sombra sempre compõe o quadro

A consciência humana é como uma câmera fotográfica. Ela pode focar muito bem um objeto, mesmo um objeto imaginário; mas ela não pode ver toda a cena. Ela tem uma certa “amplitude de visão”, que necessariamente recorta a experiência. Como num filme, ela continuamente nos conta a história de seus cortes, de suas perspectivas.

Muita coisa fica de fora desses cortes. Via de regra, a sombra, aquilo que não gostamos, não queremos, ou não entendemos… também compõe o quadro.

***

Assim, chegando aos 40, 50 anos, quem não pensou como era bom quando tínhamos 20? Aquela energia, aquela inocência… mas geralmente pensamos nos 20 anos dispondo da experiência dos 50. Esquecemos, deixamos fora do quadro, as inseguranças, os medos, os erros, o tanto de vezes que batemos cabeça simplesmente porque… tínhamos 20 anos!

Ou então um casal de muito tempo sente saudades dos primeiros dias, quando ainda não se conheciam tão bem, e talvez justamente por isso se queriam mais…

Sem esquecer do militante que luta e trabalha para erradicar da sociedade todo o mal, e, quando o consegue, decepciona-se com o mau uso que essa sociedade agora liberta faz de sua recém-conquistada liberdade.

***

Em todos esses casos, há uma parte central da cena que é deixada de fora.

Nossa consciência vê apenas uma certa área, que geralmente lhe interessa, e é incapaz de integrar a cena inteira ao seu ângulo de visão.

Fica de fora a sombra. O trabalho positivo que um mau governo faz, ao incentivar a busca da liberdade, justamente por seu mau; o sabor que o desconhecido e um pouco de distância dão às relações; a percepção de que toda fase da vida tem seus poderes e suas fraquezas.

***

Mas levar em conta essa cena, essas sombras, costuma ser deprimente. Quem iria querer mudar a sociedade, se pensasse que é ela mesma quem se enreda, entra nas cadeias da política e se tranca ali, jogando fora a chave? Quem iria querer amar, sabendo que do amor vem a intimidade, e da intimidade vem a distância? Quem iria suportar a sua idade, o seu presente, sem poder fantasiar que em outra época, lá atrás, lá adiante, as coisas eram ou serão melhores?

A sombra nos obriga a estar no tempo presente, vivendo a vida que temos agora. A sombra atrapalha nossa idealização.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s