Sempre, a educação (Ou: pudor na generosidade)

Um garotinho com quem convivo me aprontava uma de vez em quando: nós jogávamos o mesmo jogo no videogame, e ele volta e meia me vinha com um ‘spoiler’. Ele era vidrado no jogo, e passava as tardes olhando tutoriais no youtube; depois vinha me contar. “Não quero spoiler!!”, eu dizia pra ele, que parecia não entender PORQUE eu não aceitava as suas ‘dicas’.

É que eu queria ‘jogar o jogo’, descobrir as coisas por mim mesmo. Não simplesmente ‘seguir um roteiro’. Ele, talvez pela idade (+- 10 anos), talvez pela influência das redes, ficava satisfeito de replicar o que já sabia. Eu, para achar graça, precisava sentir a dificuldade – e só então então superá-la. O que fazia a vitória ser sentida como um crescimento meu.

(Claro que, ás vezes, eu também recorria aos tutoriais; mas era só alí onde eu não conseguia sozinho. Era quase como uma tristeza, um reconhecimento da minha incapacidade ou desistência. Mas ajudava a prosseguir).

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Lembro disso agora, quando um amigo me encaminha uma música, relacionada a um tema que discutimos. Ele acha que a música pode ser interessante pra mim, já que trata do tema na mesma perspectiva que eu adoto. Agradeço a sugestão, mas, de novo, sinto que preciso chegar na música pelos meus próprios caminhos.

O que me leva a pensar como perdemos, na educação em geral, a noção de que ajudar o outro pode ser invasivo. É claro que nos exemplos que eu trouxe havia muita boa vontade; eles apenas queriam contribuir. Mas me chama a atenção como sumiu do nosso horizonte cultural aquele pudor antigo que fazia os generosos mais contidos – justamente em função do outro.

Nas ciências humanas – que, como todo mundo sabe, não são as ciências exatas… – “a ordem dos fatores ALTERA o produto“. Faz toda diferença se eu PEÇO uma ajuda, e ENTÃO a recebo, ou se eu simplesmente recebo coisas que não pedi. É o meu estatuto como sujeito, como dono da minha ação, que entra em questão.

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Isso casa bem com a teoria de Winnicott, para quem o importante, no fundo, é viver as nossas coisas como nossas. Sentir que tanto nossas vitórias quanto nossas derrotas partiram de nós; que foram eventos que nós causamos, riscos que nós assumimos. Mesmo na tristeza: há atitudes que são inerentemente tristes. Mas se fomos nós que realmente agimos, realmente desejamos aquele ato, então “ok”. Faz parte da vida.

Não é a felicidade, em suma, mas a “propriedade”, de nossos atos, que conta.

Fica claro então que, se saúde é poder se responsabilizar (sem sentir isso também como obrigação, mas como efeito da vontade: eu quero fazer as minhas coisas, etc), a doença terá sempre algo a ver com a incapacidade / impossibilidade de se colocar nas coisas, de se perceber como agente na relação com o mundo. Isso implica, obviamente, alguma maturidade, mas também poderia receber uma ajudinha da cultura.

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E aí volto ao meu ponto. Parece que nossa cultura nos despotencializa a todos, como se fôssemos todos, sempre, carentes, mendigos, privados, de tudo. Nossa cultura se tornou aquele chato que sempre explica a piada: ela não nos deixa fazer as coisas do nosso jeito, no nosso tempo. Nem rir o nosso riso…

E então essa chuva de tutoriais na internet faz todo o sentido. Eles tem sempre essa conotação de preenchimento, de promessa de completude. Começam com: “Saiba…!”; ou “O que não te contaram!…” ou então: “Não faça tal coisa sem ouvir esse vídeo”. O que está implícito aí, creio, é que meu gesto, meu saber espontâneo, não conta. É preciso antes passar pelas redes.

Fico pensando se isso não seria um efeito do capitalismo. Isto é, a transformação de nosso desamparo, que seria constitucional (vide psicanálise) num produto. E, como tal, algo que precisa ser continuamente incentivado, produzido, inflamado… e então “resolvido”, com os “remédios” que o próprio capitalismo vende.

(Importante lembrar que esse desamparo sempre foi resolvido com… qualidade e cuidado nas relações. Ou, nos meus termos, maturidade, educação. O que parece estar em falta nas prateleiras do presente…)

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