Falar é sempre “falar-o-ser”

Nossa fala não tem uma relação necessária com aquilo que pretensamente refere. Se eu reclamo do meu chefe, posso estar falando ao mesmo tempo de uma briga com a esposa, de um amigo que me incomoda ou de um sentimento de inferioridade meu. Por outro lado, há sempre uma referência necessária ao “ser”.

Falando, algo do meu ser vem à tona. E tanto mais quando menos eu controlo esse falar. A parte de nosso discurso que controlamos é apenas uma pequena parte, ligada ao ego. Se nos permitimos falar abertamente; se o controle diminui, há todo um SELF que emerge, muitas vezes apesar do ego – que não gostaria de ‘falar’ assim.

Mas nós somos essa fala também. A psicanálise sempre encontrou resistência justamente por insistir que nós também somos isso que falamos “sem querer” – um preconceito que insiste em sair, um jeito mais duro de lidar com alguém… Essas coisas estão em nós, quer queiramos, quer não. E a saída para lidar com elas não é fingir que elas não existem. É escutá-las. Entendê-las. Ver de onde saíram, e o que significam, afinal, para nós.

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Daí porque a psicanálise privilegia o discurso. Não precisamos ver nele toda uma realidade para além do sujeito – penso que essa foi uma leitura de Lacan tentou fazer -, mas apenas entender que o sujeito fala muito mais do que sabe sobre si, simplesmente porque ele não é uma unidade. Ele é um amontoado de experiências, de partes, e cada uma toma a palavra para falar de “si”.

Mas esse “si” é tão diferente do ego, às vezes tão oposto ao ego…

A linguagem se presta a esse discurso polissêmico. Uma mesma frase, aparentemente tão ‘egóica’, pode estar falando de outras coisas nossas, até coisas desconhecidas. Falamos sobre nós mais do que conhecemos sobre nós.

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O ego é aquela parte do nosso discurso que conseguiu se legitimar frente ao discurso dos outros. Uma parte que sentimos “permitida”, acolhida, consensual. Há muitas outras partes pedindo passagem, em nós e no outros. Mas quem vai falar disso? Sobre certas coisas, o que é consensual é o silêncio.

Há muita ingenuidade em pensar que nós nos resumimos apenas aquilo que “queremos falar”; que nós somos o nosso ego. E o psicanalista, que se acostumou a ouvir uma multiplicidade de vozes ali mesmo onde o ego faz questão de calar – o psicanalista, às vezes, se cala ele mesmo, por entender que, assim, está fazendo jus ao “ser” calado do sujeito.

Calar-se, para um psicanalista, pode ser um convite ao “ser” do outro.

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