Winnicott e o feminino

Ontem ouvi uma fala da psicanalista Denise Souza sobre o conceito de “elemento feminino puro” em Winnicott. Conceito complexo, pouco palpável, com o qual Winnicott tentou, penso eu, trazer para a psicanálise uma ideia próxima àquilo que Jung designava por anima.

A anima é o arquétipo da mulher, em Jung. Como tal, ele pertence à espécie humana. Penso nele como uma “estrutura estruturante” do feminino. Uma comparação seria com aquela “barra” ( / ) que usamos para fazer uma divisão entre dois números.

Perceba que eu não preciso saber “quais” números preenchem a barra. A barra, por sí só, instaura uma estrutura, uma relação, entre dois números quaisquer. Da mesma forma, o arquétipo instaura uma “estrutura” do feminino, e as experiências de cada cultura vão dar a “forma” atual do arquétipo. A estrutura do arquétipo é determinada; as formas específicas que vão preencher essa estrutura, não.

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Em Winnicott, o “elemento feminino puro” evoca a experiência de “ser”, de estar existindo. Para a psicanálise, “existir” é algo que só acontece numa relação. Ninguém “existe” sozinho. A existência é uma experiência de grupo, relacional (mesmo que só nos relacionemos com nossos objetos interiores).

Logo, o elemento feminino puro especifica aquilo que, na mãe, é capaz de sustentar a experiência de “ser” do recém-nascido. O bebê tem uma experiência de “ser” alguém, quando entra em contato com o elemento feminino puro da mãe (ou do pai ou outra pessoa).

Esse conceito não tem a ver com gênero. Acho que essa foi outra motivação para Winnicott propôr essa ideia. Em psicanálise, masculino e feminino tendem a ser entendidos apenas em relação ao gênero. Winnicott contrapõe o “ser” do elemento feminino ao “fazer” que, para ele, especificaria o elemento masculino puro (para além do gênero).

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Winnicott utilizou esses conceitos na clínica, onde as vezes encontramos pessoas que sofrem por uma questão aparentemente ligada ao gênero, mas que ele entendia ligada à esses “elementos masculino e feminino”. Ou seja, questões ligadas ao “ser”, à identidade, e não à escolha de objeto sexual.

Na fala de Denise Souza, o elemento feminino foi articulado com a posição da mulher na sociedade. Apoiada em Winnicott[1], a autora aponta que a mulher faz um trabalho insubstituível no acolhimento da criança recém-nascida. Todos que crescem relativamente saudáveis tem uma dívida com uma mulher. Para a psicanálise, essa dívida fica agindo no inconsciente, mesmo que, em nossa cultura (diferentemente de outras) ela não apareça em lugar nenhum.

Para Denise, isso pode estar ligado justamente à falta de lugar para o feminino em nossa cultura. Ou seja, será que não estamos tapando os olhos para esse sentimento de dívida para com o feminino, justamente pelo tamanho da dívida, pela intensidade do sentimento relacionado à isso?

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Devemos todos, e tanto, para a mulher, que fazemos força pra esquecer essa dívida. E até a menosprezamos. Rebaixar a mulher por ser mulher poderia ser (entre outras coisas) uma forma de tentar negar a dívida.

O ‘ódio à mulher’, em nossa cultura, seria então fruto da má elaboração da dependência ao feminino, que todo ser humano atravessaria. Dito de outra forma: a maneira como cada cultura trata a mulher seria um índice da maturidade (ou imaturidade) com que ela consegue resolver suas dívidas geracionais.

O ódio à mulher seria, então, aparentado à doença ou à imaturidade.

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Notas:

[1] Winnicott fala sobre esse tema no livro “Tudo começa em casa”, texto “Este Feminismo”, pg 183 e ss, especialmente pg 194. Ed. WMF Martins Fontes, 5ª edição. São Paulo, 2011.

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