Relações de poder, parte 1. Transferência & dependência

Quando se entra de cabeça na clínica e se percebe o PODER que as relações tem, fica difícil não pensar que qualquer relação é, sempre, também uma relação de poder.

Há relação de poder entre um pai e um filho; entre um filho e uma mãe também, assim como entre os pais. O professor ocupa uma posição de poder frente aos alunos, e entre o namorados, há diversos níveis de poder e negociação acontecendo a todo instante.

Creio que exista também uma relação de poder entre terapeuta e paciente, embora se espere que o terapeuta saiba manter sua autoridade em xeque – ou, ao menos, contida.

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A psicanálise reconhece isso, mas não trabalha isso diretamente, até onde eu sei. Freud acreditava que era importante manter uma certa “autoridade” – termo que volta e meia aparece nos seus textos – muito ligada ao crédito que o psicanalista encontra em seu paciente, no inicio dos trabalhos.

Lacan recupera um pouco essa ideia, propondo – se entendi bem – que ela é parte da transferência necessária do paciente em relação ao tratamento. O paciente sempre supõe um saber no terapeuta, e essa ‘suposição’ é parte importante do movimento em direção à saúde.

Escrevendo isso percebo como o conceito de “transferência” é o organizador, em psicanálise, das questões de autoridade / poder. Como se não existisse autoridade sem uma transferência do sujeito dominado em relação ao dominador.

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Esse é um tema super antigo, que aparece já entre os gregos e retorna na idade média, por exemplo, quando Etienne de La Boétie se pergunta pelas razões da ‘servidão voluntária’ dos povos.

Talvez Winnicott tenha acrescentado algo a esse tema tão antigo ao ressaltar a importância da dependência na estruturação da subjetividade humana. Pois se não podemos nos tornar independentes a não ser passando por uma certa dependência – na infância, no aprendizado, no amor -, caberia estudar melhor, valorizar melhor, entender melhor, que tipo de dependência nos favorece.

Pois é claro que, onde há dependência, há relação de poder. Mas o que diferencia aquelas dependências que nos ajudam a amadurecer, daquelas que nos prendem num mesmo lugar, nos impedindo qualquer crescimento?

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Nietzsche buscou trabalhar essa diferenciação. Na “Genealogia da Moral”, por exemplo, ele propõe que a submissão de um povo à escravização, por longo tempo, poderia estar relacionada com o surgimento da auto-nomia, através da interiorização, no povo escravizado, da voz de comando dos dominadores.

Numa palavra, a submissão teria ensinado o povo escravo a obedecer; bastou, depois, que eles aprendessem a obedecer a algo em si mesmos, e não nos dominadores, para que essa obediência-submissão se transformasse numa obediência-liberdade.

Ou seja, a questão, da ótica nietzschiana, teria a ver menos com a obediência, puramente, e mais com a identificação. Isto é, a quem, afinal, eu obedeço, quando estou obedecendo? Retomando nossa discussão inicial, que tipo de transferência estou realizando, quando obedeço?

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É o mesmo que dizer que, em toda relação, haverá algo de obediência, algo de submissão ou poder. O que faz diferença, aí, é a quem nos submetemos, internamente? Que tipo de relação mantemos entre nossos próprios impulsos, entre os componentes de nosso mundo interno? Pois é isso que se exteriorizará numa relação ou noutra.

O que transforma a questão das relações de poder numa questão psicológica – como o conceito de ‘transferência’ nos sugeria, aliás. Toda a questão passa a ser, então, que tipo de relação eu mantenho comigo mesmo? Será que eu aprendi a acolher os meus próprios impulsos com liberdade? Será que eu preciso de uma certa escravidão de alguma parte de mim? Como se regula, como se desenvolve essa tolerância para com as próprias partes da alma?

Questões que ficam para a continuação do texto, onde pretendo abordar como Winnicott contribuiu para a questão da autonomia, a partir de sua psicologia do ser humano.

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