O problema da consciência em Nietzsche e na psicanálise. Uma escala das doenças psicológicas

Uma questão que Nietzsche colocou continua sem resposta pra mim: pra quê, afinal, consciência, se tudo o que fazemos poderia ser feito de forma inconsciente? (Gaia Ciência, § 354)

De fato, a biologia vem confirmando a intuição nietzschiana. Apesar do preconceito de nossa própria percepção, tudo o que fazemos (em termos mentais) poderia ser feito de forma inconsciente. “Pensar” é um ato inconsciente; a “memória” não precisa de consciência, há inclusive uma “auto-percepção” do corpo sobre si mesmo que é inconsciente (Damásio). Estudos indicam ainda que existe um espelhamento, uma identificação, entre um indivíduo e outro, que não depende da consciência (neurônios-espelho). Finalmente, há indicações de que até a moral teria precursores biológicos, totalmente independentes do desenvolvimento consciente (Damásio).

Voltamos, então, à questão inicial: para quê, consciência? Ou ainda, do ponto de vista evolutivo: o quê a consciência nos acrescenta? Qual a vantagem adaptativa que a consciência nos dá, frente a quem não a possui?

***

A resposta de Nietzsche: só desenvolvemos a consciência na medida em que ela nos ajuda a comunicar melhor (idem). A consciência seria uma ferramenta de auxílio mútuo, em suma. Se preciso de alguma ajuda, é importante que eu saiba do que preciso para pedir a ajuda mais adequada. E, para isso, é preciso consciência, essa projeção de meu conhecimento sobre mim num fundo linguístico. É preciso também linguagem. Por fim, é preciso que consciência e linguagem funcionem juntas, quase como se fossem a mesma coisa.

Como bem nota Nietzsche, o “Eu social” que se forma a partir dessa consciência atrelada à linguagem é apenas uma parte pequena, e talvez a pior parte, de nossa subjetividade. Afinal, esta é necessariamente a parte que se deixa traduzir em termos sociais. O que quer dizer: em termos de todo mundo.

Aquilo que é propriamente nosso, particular, não aparece na consciência, pois mal temos linguagem para isso.

Entretanto, por muito tempo, se pensou na consciência como nosso “melhor”, e também como nosso “único”, aquilo que nos diferenciava dos outros. Pra variar, o homem sempre se enganou sobre si mesmo, justamente por acreditar em “consciência” & linguagem.

***

Exatamente neste ponto surge a psicanálise. Ela parte da mesma interrogação nietzschiana, desconfiando da consciência como “totalidade” da subjetividade. Ela também desconfia da nossa percepção do “Eu” consciente. Ela cria, em consequência, um novo campo para o mental, chamado de “inconsciente”.

Nesse campo, como vimos, também podemos localizar um “Eu” inconsciente. Acima dele, talvez em sobreposição, localizaríamos o “Eu consciente”, em contato com a linguagem social. Essa condição intermediária do “Eu consciente” é o que lhe permite traduzir os acontecimentos do corpo, vindos do “Eu inconsciente”, em termos de linguagem social, em palavras comuns (quando existem essas palavras, claro).

O gráfico a seguir esquematiza essa estrutura:

Neste gráfico, todos os círculos inferiores seriam competências inconscientes; a sobreposição deles com a linguagem indicaria uma possibilidade de aprendizado, nomeação e influência; o Ego consciente ou social seria este que percebemos, e chamamos de “Eu”. No fundo, ele apenas expressaria aquilo que, enraizado no Ego inconsciente, teria sido “traduzido” em termos sociais.

O que sabemos com certeza é que há vários mecanismos biológicos, que funcionam à nível corporal. Inseri apenas alguns no gráfico (memória, percepção, etc), mas poderia haver outros.

A psicanálise nos sugere que há algum grau de influência do social mesmo sobre esse nível biológico. Aqui já não temos certeza, mas, assumindo esse ponto de vista, disfunções no amadurecimento emocional precoce poderiam acarretar a não integração de alguns mecanismos no “Ego corporal” (ou inconsciente). Estou seguindo Damásio na suposição de que o Ego corporal integra os resultados dos vários mecanismos biológicos, e que essa integração serve de base para a consciência de “si mesmo” que vai ser montada no Ego social (consciente). Nesse nível de desintegração, teríamos as doenças mentais mais graves (esquizofrenias, psicose, autismo, etc).

A psicanálise também nos indica que o Ego social se encarrega da tradução dos acontecimentos individuais em termos sociais, o que implica necessariamente num trabalho e, talvez, numa perda (frustração). Aqui situaria as doenças mentais intermediárias, como a neurose, a histeria, e talvez também a depressão (embora essa última tenha traços de não-integração da agressividade inconsciente).

No gráfico acima, isso quer dizer que teríamos, ao lado de uma “memória inconsciente”, uma memória “social”, consciente, formada a partir daquilo que o EU social consegue traduzir para a linguagem. Da mesma forma, teríamos percepções inconscientes e conscientes, impulsos à moralidade traduzidos para a consciência e outros não, processos de pensamento ocorrendo nas sombras, ao lado de outros iluminados pela tradução consciente, etc.

isso tudo ainda teria que ser integrado no Ego consciente, o que seria outro passo do amadurecimento da subjetividade. Aqui poderíamos situar as doenças mentais mais leves. Nem seriam “doenças”, efetivamente. Coisas como “conflitos”, “estar dividido” sobre alguma coisa, não saber o que quer, etc. Pequenas disfunções que indicam, no fundo, um diálogo empobrecido entre as várias “camadas” de si mesmo.

***

Tomado em seu conjunto, esse quadro nos diz que a natureza linguistica da consciência instaura uma antinomia no funcionamento do ser humano: ou ele expressa sua singularidade em uma linguagem própria, inacessível aos demais; ou ele se expressa em termos compreensíveis, mas perde na mesma medida sua singularidade. É impossível ser singular e compreensível ao mesmo tempo.

A arte ocuparia uma posição intermediária, sendo análoga à uma linguagem própria para o artista que domina sua arte, e abrindo pontes de comunicação com o público, o social. A indefinição, a abertura de sentidos que a obra de arte carrega, seria o preço a se pagar para ter algo das duas coisas (singularidade e comunicação).

Mas nem a arte resolve a aporia, e muitas vezes só o silêncio responde à altura as indagações e abismos que encontramos na singularidade de nosso ser.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s