Relações de poder 2: dependência sadia e construção da autonomia

Na primeira parte desta série, abordei a questão das relações entre transferência e poder; neste post, vou aprofundar isso, focando um pouco mais nas contribuições de Winnicott.

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A transferência praticamente resume a psicanálise. Não conheço nenhuma outra prática que valorize tanto a questão dos relacionamentos. De fato, a psicanálise bem poderia ser entendida como um desenvolvimento das diversas transferências que cada um carrega consigo.

Mas o que é, afinal, transferência?

Freud menciona o conceito, inicialmente[1], como um problema, um impeditivo à análise, que se daria quando o paciente estabelece uma falsa ligação entre a figura do terapeuta e alguma figura importante de sua história. Assim, por exemplo, se o paciente era apaixonado pelo pai, poderá transferir essa paixão para o terapeuta, isto é, reproduzi-la, repeti-la, no presente, tal qual ela foi vivida passado.

Na percepção de Freud, essa ‘transferência’ era uma das formas de o paciente resistir à mudança que a terapia motivava. A representação recalcada se deslocava para o presente como ato, como experiência. No nosso exemplo, o amor ao pai seria essa representação inconsciente que, para se manter “escondida” (da consciência), aparecia, como experiência atual, deslocada para a pessoa do médico.

Alguns anos mais tarde, porém, Freud percebe que a transferência é um fenômeno muito mais geral, que aparece em todas as relações humanas, e que, na análise, acaba posicionando o analista justamente no lugar mais propício para ajudar o paciente a mudar.

Afinal, a transferência era uma espécie de repetição, e, como tal, algo que recolocava os problemas do paciente numa relação atual com o terapeuta, permitindo que eles pudessem ser vividos de outra forma.

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Winnicott foi um dos continuadores dessa ideia tão central de Freud. Para o autor inglês, toda nossa subjetividade se estrutura a partir de relacionamentos antes mesmo de existir um mundo interno. Todos teríamos um funcionamento psicológico incompleto, que só amadureceria no contato com outra mente funcionante.

Mas, como vimos, isso implica numa dependência absoluta da criança em relação à mãe (ou quem exerça esse papel). E dependência implica submissão.

Como entender que passamos da submissão absoluta à uma independência relativa, se nossa autonomia seria justamente uma função da estrutura de nossas relações internas, a qual se constitui numa relação inicial de dependência?

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Basicamente, a partir dos “paradoxos” de Winnicott. Assim como, para ele, só chegamos à realidade passando por boas experiências de ilusão (link), só chegaremos na independência após um período de dependência “saudável” e necessário.

É aí que o conceito de “mãe suficientemente boa” nos ajuda. Porque, ao contrário do que apontam seus críticos, Winnicott está enfatizando os dois lados dessa proposição. Sim, a mãe precisa ser “boa”, mas também “suficientemente” boa. Vale dizer: ela não deve ser absolutamente boa, 100% identificada com seu bebê. Deve se identificar apenas o “suficiente”.

Com isso, Winnicott aponta a importância da precariedade da identificação materna. Afinal, a mãe tem uma vida própria, e é compreensível – e até salutar – que ela possa se desligar da criança em alguns momentos, e viver suas próprias questões.

Isso vai criar uma distância, um espaço, entre as demanda infantis e a resposta materna. Esse espaço de frustração é justamente o que vai permitir que a criança estabeleça, em relação aos seus próprios conteúdos internos, alguma distância.

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Ou seja, é pela frustração que a criança aprenderia a se distanciar de suas próprias demandas, deixando de ser submissa em relação à elas. O modelo disso é a própria distância da mãe em relação à criança, num contexto onde a frustração gerada pela distância é recolhida e elaborada pela mãe, numa outra situação de presença.

Vale dizer, aqui também há paradoxos: a frustração que amadurece é aquela “suficiente”, relacionada com a capacidade da criança de elaborar essa frustração, com a ajuda da mãe enquanto não-frustrante. Há um progresso em duas etapas, então, onde “frustrar” e “elaborar a frustração” vão estabelecendo modos cada vez mais maduros da criança viver as suas próprias demandas.

(“Maduro” quer dizer aqui, basicamente, que há uma distância entre a necessidade e sua satisfação, aonde podem ser inseridos elementos mediadores, como o pensamento, a consideração das consequências, a identificação, a elaboração afetiva, etc. Essas mediações são basicamente introjeções das respostas da mãe à demanda infantil, incluindo a frustração.)

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E o que acontece quando a criança consegue inserir, entre suas demandas e as respostas do meio que ela aprendeu, uma série de mediações? A criança agora domina suas demandas. Dito de outra forma: ela não é mais refém de suas demandas. Ela pode mediar, negociar, transformar, recusar. Com isso, é a autonomia da criança que se estabelece. Uma autonomia nascida da dependência.

É bem mais ou menos o que Nietzsche propunha, na Genealogia da Moral; apenas que, em Winnicott, é a precariedade da criança que a obriga à dependência, ao invés da imposição / força bruta. Winnicott também ressalta a importância dessa dependência não extrapolar os limites de frustração da criança – caso em que teríamos submissão, e não autonomia.

Na última parte desta série, retomo essa diferenciação entre submissão e autonomia com mais detalhes.

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Notas:

[1] Freud, S. “As neuropsicoses de defesa”, 1884.

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