Jung e a cultura

Swiss psychiatrist Carl Gustav Jung (1875 ? 1961), the founder of analytical psychology, 1960. (Photo by Douglas Glass/Paul Popper/Popperfoto/Getty Images)

Jung é um autor complexo, difícil de resumir. Sua complexidade é diferente daquela que sinto em Freud ou em Nietzsche. Esses autores escreviam com clareza, mas tratavam os assuntos com profundidade, daí derivando sua complexidade. Em Jung parecemos ouvir um autor formado de muitos “autores”. É como se ele desse voz a cada um de seus “arquétipos”, estabelecendo assim um texto multi-tonal, de unidade precária.

Então, por cima dessa complexidade derivada de suas muitas vozes, vem ainda a complexidade da profundidade, da erudição, da mistura de temas e perspectivas… Jung era realmente uma multiplicidade, e é possível imaginar que tornar-se “integrado” fosse, pra ele, um demérito.

Já eu, preciso de integração, preciso buscar a unidade. Mesmo que isso implique numa perda, num afastamento da multiplicidade inicial. Neste post faço uma tentativa de juntar alguns pontos, para contar uma história mais integrada. Obviamente, isso pode deformar as ideias originais, o que assumo desde já como minha responsabilidade.

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No livro “O eu e o inconsciente” (Ed Vozes, 2008 – vol VII/2 das Obras Completas de C. G. Jung), Jung se propõe a descrever como entende as relações entre o “Eu” e o “inconsciente”. Fala pouco do “Eu”, no entanto, e mais da “consciência”. Sobretudo, fala de como o inconsciente atua sobre a consciência, tendo sobre essa uma função complementar.

Basicamente, o inconsciente, para Jung, é a nascente de toda energia psíquica, e também o receptáculo de todos os nossos arquétipos. O arquétipo é algo semelhante às categorias a priori kantianas; ele mesmo faz a aproximação em algum lugar.

No entanto, os arquétipos tem muito mais a ver com a experiência humana em geral, do que com as condições do conhecimento, como queria Kant. Assim, teremos um arquétipo da mulher, chamado “ânima”. Teremos um arquétipo para “homem” também (o “animus”), para velhos e velhas sábios(as), para nossa relação com o grupo (a persona), etc. Na minha leitura, o arquétipo é que “energiza” a experiência concreta que temos com cada representante do arquétipo. Assim, minha mãe torna-se importante pra mim por ser a primeira representante do arquétipo da mulher, etc.

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Isso inverte a posição de Freud, para quem é a soma das experiências concretas com cada mãe que poderia criar comportamentos gerais, do tipo arquetípico. Mas essa comparação fica pra outro momento. No ponto que nos interessa aqui, Jung concebe os arquétipos como autônomos, isto é, como totalmente independentes da consciência. Eles se imporiam ao sujeito mais ou menos como Freud fala do inconsciente em geral, mas em Jung não estamos falando de nada reprimido.

Essa imposição do arquétipo, via de regra, buscaria “compensar” algum comportamento excessivo por parte da consciência. Pois, para Jung, o inconsciente busca equilibrar o todo da psique, mantendo o “self” íntegro. E esse excesso da consciência derivaria, basicamente, do desconhecimento de cada um em relação ao seu mundo interno, e também, dos descaminhos possíveis de cada cultura.

[Embora falar em “arquétipo” parece ainda hoje algo muito místico (leitura que me parece sustentada, em parte, pela multiplicidade do próprio Jung), é bem simples transformar a ideia de arquétipo em algo mais objetivo: basta pensarmos em pré-disposições genéticas estruturando nosso pensamento, nossa apreensão da experiência. E, até onde entendo, é bem por aí que Jung vai.]

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As doenças mentais seriam, então, expressão de desencontros entre os componentes do mundo interno de cada um. Ora a consciência (o EU) vai pra um lado, e o resto do Self para outro; hora é um arquétipo que precisa de mais espaço, mas a consciência se recusa, etc. Idealmente, se todos tivéssemos como nos relacionar abertamente com nossos conteúdos internos, não haveria doença mental (excluído o que for genético).

É por isso que as sociedades tradicionais, os mitos e formas religiosas antigas, aparecem com muita frequência nos textos de Jung. Ele parece enxergar nessas formas da cultura a expressão de um bom relacionamento entre todos os elementos de nosso mundo interno.

Por outro lado, nesse contexto, nossa própria cultura atual parece um problema.

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Jung não diz isso com essas palavras (ao menos que eu saiba), mas suas ideias convergem com minha leitura na percepção de que estamos construindo uma cultura que parece buscar esvaziar de sentido o mundo interno de cada um. Que o torna dispensável, ruim, desnecessário, substituível. Nessa medida, nossa cultura estaria fomentando uma série de “contra-atitudes” do inconsciente, compensações arquetípicas. E a incapacidade de acolher essas compensações, de integrá-las à consciência, estaria na base das doenças mentais atuais.

Não sei dizer ao certo quais seriam essas compensações; mas fico imaginando se todo o ruído que acompanhamos nas redes sociais não pode estar expressando parte disso. Afinal, o que vemos são pessoas avidas por expressar a sua opinião, isto é, aquilo que compõe o seu mundo interno… Isso se dá de maneira excessiva, não integrada, acarretando na falta de integração também do indivíduo com o grupo.

Arriscando uma leitura junguiana, é como se nos faltasse o arquétipo da “persona”, que é justamente a máscara social que permite ao indivíduo ter alguma individualidade frente ao grupo. No livro citado acima, Jung relaciona a “persona” às máscaras que o xamã da tribo usa para poder justamente ser algo diferente, algo individual, num meio de individualidade muito restrita. A máscara daria legitimidade para que o xamã utilizasse suas experiências subjetivas idiossincráticas como remédios para toda a tribo.

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E é isso que parece estar nos faltando. Uma individualidade que se exerça no contexto do grupo – não uma individualidade sozinha ou independente, mas na relação, reconhecida na relação. Mas paro por aqui. É difícil costurar continuidades nos textos de Jung. Suas ideias são muito amplas, e carregadas de sentidos. Como se ele escrevesse “teorias poéticas”, ou trouxesse para o ocidente aquela riqueza e multiplicidade das ideias do oriente. Fico sempre com a impressão de que quanto mais “claro” o texto se torna, mais coisas ele precisou deixar de fora. Mas quem sabe outro dia avançaremos mais?

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