“Jung e a construção da psicologia moderna”, de Sonu Shamdasani. Parte 1

Shamdasani é um autor reconhecido nos meios junguianos por seus trabalhos relacionados à história da psicologia e da psiquiatria. No livro que resumo a seguir, ele procura traçar um panorama amplo das ideias de Jung, em estreita vinculação com o contexto e os debates aonde Jung estava inserido. O livro não é linear, mas “cubista”, de acordo com o próprio autor, para evitar simplificar ou dar uma unidade à uma teoria complexa e cheia de arestas. Eu mesmo senti necessidade e agrupei os parágrafos a seguir.

Estou resumindo a edição publicada pela Ideias & Letras, de 2005, na 1ª reimpressão, de 2015.

Ideias de Jung e seu contexto

O autor busca estabelecer o contexto no qual surgiram os conceitos de Jung, por entender que eles informam esses conceitos, e ajudam no entendimento dos mesmos (pg 32).

  • Começa então com um panorama da fragmentação das teorias psicológicas (pgs 17-25), desde o final do séc. XIX, apontando que Jung buscava, nesse contexto, estabelecer uma psicologia geral, isto é, as bases consensuais de uma psicologia (algo que ainda não temos, diga-se de passagem). Jung também teria buscado se opor à fragmentação científica das especializações (pg 36)
  • Comenta que a “autobiografia” intitulada “Memórias, Sonhos, Reflexões” é mais um livro de Jaffé (a secretária) do que de Jung (37-40)
  • Aponta que uma resposta de Jung à necessidade de se construir as bases da psicologia é o estudo sobre os “tipos” (43)

Influências de Jung

  • Wundt (testes experimentais fisiológicos) e James (definição / observação mais ampla dos estados interiores) como os dois pilares opostos da psicologia, em seu nascimento. Eles serviram de base pra Jung (45-51). Também Dilthey (a psicologia pertenceria a um novo tipo de ciência, as ‘humanas’, ligadas à compreensão, e não à explicação. O ser vivo possui uma “deliberação interior” (vontade) que não se explica apenas pelas partes isoladas internas nem externas) (52-53). Também Galton e Binet, com o estudo das diferenças de imaginação de imagens e de associação de palavras entre sujeitos, foram importantes (eles tenderam a criar tipologias). Pgs 54-56

Trabalho com associações de Palavras

  • O trabalho com as diferenças de associações de palavras de Jung (1903) foi já uma resposta à esse quadro desconexo. Ele foi atraído pelas perturbações nas respostas, e as entendeu como indício de um conflito interno – o que explicava as diferenças individuais. Assim, o teste, objetivo, era capaz de “medir” as diferenças individuais em função das experiências da vida, o que misturava Wundt, James e Janet. Também já sugeria tipologias de reação (59-61). Entretanto, Binet e Janet criticaram o trabalho, por não controlar a variável da sugestão, e mesmo Jung parece ter percebido que a “equação pessoal” (a singularidade do médico que conduzia a pesquisa) influía muito (pg 62-64)

As brigas com Freud

  • As brigas com Freud evidenciaram que a singularidade do sujeito interfere em sua capacidade tanto de propôr teorias científicas quanto de avaliá-las. Daí que um pesquisador analisado é melhor do que um não-analisado. Jung teria sido o primeiro a propôr a análise didática como regra (64-70), o que reflete suas preocupações epistemológicas tbém. Ao ser analisado, o sujeito estaria em condições de lidar melhor – de pôr ‘de lado’ -, suas singularidades.
  • Adler teria proposto, ao lado da sexualidade, uma “necessidade pessoal de significado”, como fator determinante da estruturação subjetiva. Também teria chamado atenção para o “contexto social das neuroses” (72).
  • Jung foi muito influenciado por James (72-3). Por ex, o “pragmatismo” desse (73-76), segundo o qual “a verdade não é uma característica que ‘pertence’ à uma ideia, mas algo que acontece à ela, quando ela ajuda a ter relações satisfatórias com outros setores da experiência dos sujeitos (pg 75).
  • Em 1914, Jung contrastou o método da psicanálise, que chamou de analítico-redutivo, e baseado na causalidade (tal experiência causou o trauma, o sintoma, etc), com o de sua escola, que ligou ao construtivismo e à síntese. Se entendo, nessa última, a questão é ver o sintoma ou o trauma também em seu aspecto de tentativa de cura / construção de uma nova saúde. (79). Para ser justo, isso foi incorporado por Freud, ao menos a partir de “Análise terminável e interminável”, mas talvez bem antes disso. Jung tbém reconheceu o pluralismo (de tipos) como algo importante para se constituir as bases da psicologia. Daí a importância de sua tipologia (81)
  • Com a separação de Freud, logo reuniu-se um grupo grande em Zurique, de forma que Jung não estava sozinho. Seu trabalho sobre os tipos foi resultado da soma de pesquisas coletivas (82-3)

O trabalho sobre os “Tipos psicológicos”

  • Com a teoria dos tipos, Jung reescreve aquela ideia de que o melhor psicólogo é aquele que é analisado. Agora, a unilateralidade de um tipo (apenas pensamento, apenas sentimento, etc) era proporcional à falta de desenvolvimento da personalidade. (88-9)
  • O “tipo” NÃO dependia (principalmente) das experiências biográficas, mas da disposição inata (91)
  • Jung termina por se afastar do ‘pragmatismo’, entendendo-o muito “comercial”. É a ideia de “não racional” (Bergson), e de criação assimilando os opostos (Nietzsche), que o teria ajudado nisso (92-3) (o que vai desembocar na ideia de individuação, entendo eu)
  • a questão dos “tipos” reconhecia atributos universais (como o inconsciente coletivo) mas, à nível da consciência, diferentes tendências, que Jung resumiu em 8 posturas. Isso ajudaria a explicar as diferentes teorias psicológicas (cada uma sendo verdadeira para seu tipo). (92-4)
  • O trabalho sobre os ‘tipos’ serviu de base para o “indicador de tipos Myers-Briggs”, o teste de personalidade mais utilizado nos EUA (100). Jung, no entanto, dava ao texto uma finalidade prática: os tipos eram tendências de comportamento que permitiam organizar o vasto material de uma análise. Era menos uma descrição dos “tipos reais” existentes do que um esquema, uma classificação, destinada a fins práticos, na clínica. (101-3)

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