Compensação & Jung

Uma coisa que aprendemos na vida é que não precisamos ser perfeitos. Às vezes, um rascunho rapidamente posto em prática é melhor do que o desenho acabado, mas que demanda muito tempo. Pense só naquele rapaz que quer chegar na moça que o atrai, mas fica pensando, ruminando, buscando a melhor forma de falar-lhe. Então, quando finalmente a encontra, ela já está namorando outro. A vida não perdoa.

Penso que isso vale para muitos conceitos de Jung. Eles não são exatos, talvez nem pretendam ser. Muitos passam ao largo da cientificidade ‘padrão’. De qualquer forma, o que me interessa neles é que eles funcionam. Mesmo que não saibamos bem “porque”.

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O conceito de “compensação” parece estar ligado à uma ideia muito antiga nas sociedades humanas, que fundamenta, inclusive, a noção de “justiça divina”. É a ideia de que tudo o que acontece está ligado, de alguma forma. Assim, se eu cometo uma injustiça, é provável que isso recaia sobre mim, mesmo quando ninguém sabe que eu a cometi.

Jung parece recolher esse dado de um estudo comparado das sociedades humanas, e transpô-lo para a psicologia, como uma “lei”. Assim, o inconsciente teria um funcionamento “compensatório” em relação ao consciente. Se eu sou muito racional (muito consciente), isso implicaria num afastamento de meu lado emocional, que então iria para o inconsciente. Passando a atuar de lá, minhas emoções apareceriam dissociadas, desconectadas, do meu ego (que envolve a consciência), “compensando”, dessa forma, o excesso de racionalidade por um excesso de emoção (já que o afastamento do ego as deixa ‘descontroladas’).

Retomando o que disse no início, essa ideia, tomada em si mesmo, parece um tanto arbitrária. Mas quando a colocamos em prática no trabalho clínico, ela surpreendentemente parece funcionar, parece ser útil. É então que começamos a buscas motivos para justificar seu uso, ao invés de criticá-lo por sua aparente falta de fundamento.

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No aspecto individual, parece que podemos falar, sim, numa “compensação”, na medida em que o homem nunca é algo “simples“, nunca se resume a apenas um lado das coisas – seja o lado bom, seja o lado mau. Todos somos em parte pensamento, em parte sentimento, em parte conhecimento, em outras ignorância… todos temos aspectos bons e maus, partes adultas e infantis convivendo… Pretender ser 100% apenas uma coisa, implica necessariamente em “recalcar” todas as outras. E elas voltam projetadas, como aprendemos desde Freud. Não temos o poder de “desligar” aquilo que somos.

No plano coletivo, a ideia se fundamenta mais ou menos da mesma forma. Basta pensar em como hoje existe uma superestimulação do aspecto mágico, solar, lúdico, da nossa vida, o que implica num abandono dos aspectos sombrios, reais, tristes, que também existem. Penso, por exemplo, em como o circo, o teatro, eram espaços – restritos – de imaginação e magia, até a bem pouco tempo atrás, e como hoje esse espaço se expandiu pra quase tudo. Não apenas filmes e jogos, mas no uso do celular, nas redes sociais, espécie de “sociabilidade domada”, controlada. Em tudo isso, o sujeito “domina”, daí o aspecto “mágico”. A consequência, segundo a “lei da compensação”, é que os aspectos “reais” de nossa existência voltarão projetados e inconscientes – fora de nosso controle. O que seria isso? Podemos pensar no problema ambiental, ou em guerras, fome, discórdia… coisas que já nos acenam no horizonte.

Mais uma vez, o conceito parece forçado, até começarmos a utilizá-lo. Então nos damos conta de que se a “magia” está sendo majorada, isso necessariamente nos afastará dos aspectos reais da existência. Perdemos o tato, a experiência de lidar com as coisas ruins, à medida que nos deixamos levar pela sedução de que “o mundo pode ser apenas bom; é só nós tentarmos”, etc.

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No fundo, se tudo está ligado, sofreremos amanhã as culpas que não expiarmos hoje. Não há escapatória. Cada passo adiante em termos de autoengano gera uma dívida em termos de realidade. Essa dívida pode surgir como doença, seja no corpo individual, seja no corpo social. É o próprio Jung que sugere [1], reencontrando nisso a psicanálise.

Jung propõe que a doença representa, em si mesmo, uma tentativa de cura da psique. Daí que as “compensações” que nos abatem, seja a partir do inconsciente, seja a partir do corpo social, podem ser vistas como tentativas de cura, como convites, talvez inescapáveis, para que integremos a totalidade de nossa psique – o que é a própria definição de “cura”.

Haveria aí um certo romantismo junguiano, a crença de que a realidade e o organismo, no fundo, são orientados para “o bem”, para o crescimento? Sim e não. Sim, porque isso é parte dos resultados. Não, porque esses resultados só acontecem quando justamente integramos, reconhecendo-os em nós, os aspectos ruins da existência (no que se inclui a falha e o desperdício humanos de seu próprio potencial).

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Notas

[1] “Comentário Sobre o Segredo da Flor de Ouro”, em: Obra Completa, vol. XIII. Petrópolis: Vozes,
2003, par. 54.

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