Escravidão espiritual

Olhando à distância, a nossa história pode ser vinculada aos nossos mitos. Eles atuam como o organizador fundamental da existência. Não são epifenômenos acompanhando a evolução material, mais ou menos como entende o marxismo. Via de regra, o mito precede a evolução material, a organiza e gerencia. Pode até barrar evoluções materiais. Mas espiritualmente, as coisas funcionam. [1]

O fato é que o mito organiza o mundo. O ser humano encontra seu lugar no mito, descobre seu valor. Sente-se em casa no âmbito do “meaning”, do propósito – algo que hoje, não por acaso, volta a ser valorizado.

Mas como encontramos um sentido para a vida hoje, quando parece não haver mais mitos?

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Esse esvaziamento do mito é o que caracteriza nosso tempo. Até onde sei, somos os únicos a fazê-lo, na história – ao menos os únicos que sobreviveram. Sempre que os mitos morrem, o povo morre também[2].

Em parte isso se dá, creio eu, porque alguns mitos ainda persistem. O cristianismo, embora cambaleando desde o séc XIII / XIV [3], ainda está de pé. O budismo mantém um número relevante de adeptos, e novas religiões ocupam o vácuo deixado por outras.

Mas nosso “zeitgeist”, o espírito do nosso tempo, parece claramente deslocado em relação à essas experiências religiosas tradicionais, em favor de uma posição laica – a qual seria, supostamente, não mítica. E aí está o erro, também propriamente nosso.

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A imagem de ser humano que se construiu a partir da reforma protestante, da revolução industrial, é uma imagem mitológica. Vale dizer, nós acreditamos no homem; no seu poder, nas suas capacidades “intrínsecas”. Nós cultuamos o mito do indivíduo. Essa é nossa ideia central, nosso mito organizador.

Nisso se adere uma série de predicados que vieram junto com a modernidade: o homem moderno é um homem da razão, da ciência, da liberdade. Tende a ser materialista. Em sua crença na razão, ele se distancia do passado. Mas crê, ingenuamente, no futuro. O futuro o redime.

Há coisas boas nesse conjunto. Mas há também contradições importantes.

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Nada do que se descobriu em psicologia, por exemplo, fundamenta esse “indivíduo” supostamente livre do “outro”. Pelo contrário, nos vemos cada vez mais enredados na sociedade, dependentes de uma relação que é nada menos que fundamental. A ciência também nos mostrou a importância do lúdico, da brincadeira, da arte, da imaginação – ou seja, do “não racional” em sentido estrito. Não seria o valor da ciência também um mito? O que nos garante que seremos felizes, ao descobrir toda a maquinaria do universo? Finalmente, temos no problema ecológico uma prova contundente de que nossa vida não pode se basear apenas no sucesso material, desconsiderando tudo o mais.

Ou seja, nossa realidade, nossa ciência, estão argumentando contra nosso mito. É certo que ele ainda está firme, e como muita coisa depende dele – o liberalismo econômico, por exemplo; talvez boa parte de nosso crescimento capitalista só tenha sido possível porque acreditamos nesse ideal[4] -, há também muitos interessados em sua permanência. Mas vemos sinais de que uma mudança se avizinha.

Entre esses sinas conto a clareza sobre as fragilidades de nosso mito: o tanto que ele deixa a desejar, o quão pouco ele nos permite entrever dos problemas do mundo, quão pouco sentido ele entrega.

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Tudo somado, é bem possível que tenhamos sido escravos de um mito pobre. Um mito criado, como sugere Nietzsche [5], a partir da busca racional de um Deus não racional; um Deus que precisou ser apequenado, rebaixado ao tamanho do homem, para então “morrer”. Mas, junto com Deus, morreu no homem a experiência daquilo que não é racional.

Ora, não podemos dizer – e essa é uma das grandes questões nietzschianas – que todo sentido ultrapassa a razão? Como pretender dar sentido para a vida, sem tê-la vivido por todos os ângulos, todos os contextos? Como dar sentido à vida sendo parte interessada, e ainda uma parte tão limitada, tão determinada justamente pela própria vida?

O sentido da vida ultrapassa a experiência do vivente; ela não pode vir dele. Ela não é um problema racional.

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Talvez estejamos vivendo o tempo onde o mito do homem “indivíduo” vai ruir. Com ele, cairão uma série de valores e promessas, as quais só faziam sentido enquanto acreditávamos neles. Fomos escravizados espiritualmente, fomos esvaziados de qualquer perspectiva mais ampla da vida. Nos desprendemos do “sentido”, ao adorar a razão. Isso nos possibilitou ser encaixados nos bretes da “produção”, da felicidade material, do poder individual. Isso nos possibilitou algumas coisas.

Mas nos empobreceu muito, espiritualmente. Agora, chegam indícios de que esse mundo vai ruir; e é bem possível que com ele caiam os grilhões de ouro que nos mantinham presos.

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Notas:

[1] Ver Mircea Eliade, “Ferreiros e Alquimistas”, ou ainda Marie-Louise Von Franz, “Alquimia – Introdução ao Simbolismo e à Psicologia”

[2] Sidarta Ribeiro “O Oráculo da Noite”.

[3] https://www.youtube.com/watch?v=q1Hoy_k8soQ – Este video toca no assunto, situando em Tomás de Aquino (sec XIII) uma virada decisiva do ocidente em direção à razão e à ciência, e também ao declínio da experiência religiosa como tal.

[4] Interessante pensar o capitalismo como efeito de uma crença, e não como algo explicável apenas pelos ‘meios de produção’.

[5] Ver Nietzsche, F,. “Crepúsculo dos ìdolos”, e “O Anticristo”.

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