Um erro de Winnicott sobre Jung

Em 1964, Winnicott escreve uma resenha [1] sobre a autobiografia de Jung, “Memórias, sonhos e reflexões”, a qual contém muita coisa importante – e ainda por se realizar -, mas, também, um erro de apreciação sobre Jung.

Os pontos positivos ainda não realizados dizem respeito às inovações da teoria psicanalítica em relação aos quadros psicóticos, inovações para as quais o próprio Winnicott contribuiu de maneira decisiva.

Winnicott reconhece em Jung muitas dessas inovações teóricas, mas, e esse seria o seu erro, não parece reconhecer até que ponto Jung soube curar-se a si próprio, utilizando sua doença como uma contribuição positiva para sua teoria. Mas vejamos.

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O gesto de Winnicott é interessante por si mesmo: como presidente da British Psychoanalytic Society (BPS) à época, faz um movimento de aproximação com Jung, argumentando que a integração desse ao corpo teórico da psicanálise redundaria em ganhos importantes para essa última.

Nada a objetar quanto a esse ponto. É importante notar que Jung não é bem vindo na psicanálise em geral até hoje (como Winnicott, diga-se de passagem). Por outro lado, há uma notável proximidade entre as teorias de Jung e as teorias de Winnicott. Mas isso é assunto para outro post.

Meu ponto aqui é a caracterização do “caso” Jung que Winnicott tenta fazer, baseado no relato autobiográfico do próprio Jung.

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Aqui ocorre um deslize, penso eu, na medida em que o homem Jung é reduzido à sua problemática infantil. A leitura de Winnicott imputando à Jung uma esquizofrenia infantil pode até ser correta, mas ela não me parece abarcar o todo das realizações de Jung.

Um exemplo seria a agressividade criativa de Jung, a qual, segundo a teoria winnicottiana, nunca teria sido integrada a contento, dada a depressão da mãe de Jung numa fase de dependência essencial desse àquela.

A teoria de Winnicott me parece correta , mas sua aplicação à Jung não. Cito abaixo alguns exemplos que dão suporte à minha percepção.

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Primeiro, Jung foi um homem criativo – e criar implica em destruir (agredir). Por mais que seu desentendimento com Freud o tenha levado às portas da loucura (como ele mesmo reconhece, na autobiografia), Jung “pagou o preço” e fez o corte, assumindo a posição subjetiva que Winnicott designa por “EU SOU”. Essa posição não é alcançada sem alguma integração da agressividade (sempre conforme Winnicott).

Segundo, como clínico, Jung deu mostras de poder assumir um papel destrutivo em favor do paciente, o que seria impossível numa personalidade cuja agressividade não foi integrada. Um exemplo da biografia é o de um paciente que se encontra deprimido por sua dependência à mãe, ainda na vida adulta sua “chefe” na empresa da família. Ao perceber a incapacidade do paciente de se retirar dessa relação, Jung passa à mãe um atestado dizendo que o filho é “incurável”, o que leva à demissão desse. O paciente fica muito bravo com Jung pela situação, mas, a partir desse corte, pôde finalmente se desenvolver como pessoa.

Em outro exemplo clínico Jung relata sua postura frente à uma doente que costumava esbofetear seus médicos sempre que se sentia contrariada. Ao ver a paciente esboçar o mesmo gesto com ele, Jung teria dito algo como: “muito bem, vá em frente, primeiro as damas! Mas aviso que não vou ter pena!”. Jung, com seus 1,85m, relata que a paciente desistiu na hora, comentando, resignada, que “nunca ninguém tinha falado assim com ela”.

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Esses exemplos, por caricatos que sejam, levam-me a pensar que Jung conseguiu alguma medida de integração agressiva (talvez a partir dos aspectos maternos de seu pai, como sugerido na biografia).

Mas o ponto principal, a meu ver, é a redução ou desconsideração da obra junguiana a partir de sua dissociação de personalidade. Pois, por mais dissociado ou doente que um homem possa ser, é discutível se a relação disso com a obra é de puro determinismo. Um homem doente apenas pode produzir uma obra doente? Ou há margem de manobra, pontos onde a doença domina, e outros onde a doença se retira, permitindo criatividade?

Se foi isso que Winnicott quis dizer com seu texto, a mensagem ficou truncada, pois o que sobressai, ao menos na minha leitura, é a caracterização da doença de Jung, e o quanto isso poderia afastar o autor e seus continuadores daquilo que seria cientificamente desejável.

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Loparic, no lúcido comentário que faz sobre o texto winnicottiano, enfatiza justamente o abandono da cientificidade ‘normal’ em Jung, o que estaria ligado à sua dissociação. Penso que esse ponto também pode ser relativizado, na medida em que a cientificidade não é o único tipo de relação com a realidade que temos. Como aponta Jung, aliás, a racionalidade científica pode ser uma doença tanto quanto a ausência completa de racionalidade.

Por mais que essa posição de Jung seja alimentada, no fundo, pela sua dissociação – isto é, deixo de considerar a realidade para não precisar mais dissociar -, como parece sugerir Loparic, cabe questionar se nossa relação com a realidade é em algum momento diferente disso, baseado no próprio Winnicott. Não é ele quem nos diz, afinal, que a realidade é uma ofensa?

Ou seja, não podemos opôr real e fantasia de maneira absoluta. E isso tanto para Winnicott quanto para Jung. Essa consideração aparece inclusive no texto do próprio Loparic, mostrando como não se trata de uma oposição simples entre aqueles que mantém o ideal científico e aqueles que não o fazem.

Vale dizer: a cientificidade absoluta é, em si mesmo, um problema, tanto em Jung, quanto em Winnicott. Como pretender usar o afastamento da ciência “pura” como critério? Há aí uma questão radical, presente já em Nietzsche, que não comporta resposta simples.

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De qualquer forma, a questão colocada por Winnicott e revista por Loparic me parece central. Há um manancial de ideias promissoras na obra junguiana, muitas das quais ressoam conceitos do próprio Winnicott. Por outro lado, esse se situa na herança freudiana. Logo, é necessário que exista um ponto de encontro entre os dois grandes fundadores. E Winnicott, justamente por sua valorização da loucura, pode ser essa ponte –

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Notas:

[1] D.W. Winnicott, “Explorações Psicanalíticas”. Porto Alegre: Artmed, 1994 (reimpressão 2007), pg 365 e ss.

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