Elementos para uma Economia Afetiva

Na pré-história[1], os grupos coletavam ou caçavam os alimentos. Ainda não havia agricultura. Como éramos nômades, não tínhamos como estocar os eventuais excedentes. Isso implicava numa limitação ao tamanho dos grupos. Comida limitada = população limitada.

A dependência ao grupo era muito grande. Seja em termos de defesa, seja em termos de sobrevivência alimentar, fazia muito mais sentido para o indivíduo estar integrado ao grupo do que sair dele. Pertencer ao grupo implicava tanto receber dele quanto se doar a ele (algo que podemos aproximar do que hoje pensamos como socialismo).

Ai já vemos dois níveis muito imbricados: o propriamente econômico e o afetivo, ou aquilo tudo que diz respeito à dependência ao outro.

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O propriamente econômico tem a ver com os modos de produção: como a comida era produzida, como os objetos eram manufaturados, etc. O afetivo tem a ver com o papel que o “outro” tem na própria cadeia de produção e distribuição do produzido/coletado.

Seja porque alguém me ensina a caçar, seja porque alguém divide sua caça comigo, seja porque nós construímos juntos as casas da tribo, ou mesmo passamos fome juntos. A afetividade é um mediador necessário da economia, na medida em que tanto a coleta quanto a circulação dos bens se dá de maneira grupal.

Economia e afetividade são, no fundo, maneiras de lidar com a necessidade. Embora isso seja óbvio para o primeiro, nem sempre se percebe a importância do segundo, nesse aspecto.

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Com a invenção da agricultura (cerca de 10.000 anos atrás) começaram a existir excedentes de produção. Esses excedentes permitiram que a sociedade crescesse. E esse crescimento, por sua vez, demandou / permitiu novas formas de organização da sociedade.

Assim, o tamanho do grupo altera o aspecto relacional / afetivo, pois os membros da sociedade já não são mais tão próximos (em sociedades maiores). Novas formas de equilíbrio entre os sujeitos vão surgindo. o Estado, a Lei, ou mesmo a religião podem ser pensados como interferindo ou mediando esse aspecto emocional. Vale notar que em sociedades de médio porte ainda sem um estado forte, a afetividade mantém sua importância como mediadora.

Haveria, assim, uma ligação estrutural entre as formas de produção, o tamanho das sociedades e o tipo ou importância da afetividade existente entre os membros do grupo. De maneira geral, quanto maior a sociedade, mais distantes serão os membros dela. Isso altera a maneira como a afetividade é exercida, ao menos em seu aspecto ligado à necessidade / economia.

Uma consequência disso é que a individualidade só se torna possível em sociedades onde há grandes excedentes de bens, o que libera alguns indivíduos (reis, chefes) da necessidade de manterem uma dependência em relação ao grupo. Assim, excedentes de produção = aumento do tamanho do grupo = formas mais livres de afetividade = crescimento do individualismo.

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A grande inovação – ou a grande crise – que vivemos a partir do séc XVIII com a revolução industrial tem tudo a ver com isso. Há, por um lado, uma disrupção produtiva, levando a excedentes sem precedentes. Isso levou ao crescimento das sociedades, o que demandou / permitiu novas formas de afetividade.

A individualidade pode ser erigida como modelo de existência do grupo, por paradoxal que isso seja.

No entanto, isso deslocou totalmente o papel da afetividade como mediadora da economia.

Vale dizer: a riqueza generalizada (se comparada à nossa média histórica) permitiu que cada vez mais indivíduos se comportassem em relação ao grupo sem a mediação da afetividade enquanto expressão da dependência.

Poderíamos dizer também, inversamente, que foi o abandono das formas de afetividade tradicional do indivíduo em relação ao grupo que permitiu a existência de um “excedente de indivíduos”. Mas o ponto central aqui é a ligação entre o excedente de produção e a afetividade entre os membros do grupo.

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Isso porque, se compararmos nossa época com as anteriores, o que salta aos olhos é a falta de mediação afetiva de nossa economia. Nossa cultura parece dominada pelo produtivismo absoluto, onde a afetividade (a nível social) simplesmente não conta. A única afetividade que ainda existe se restringiu às relações individuais / familiares, e mesmo essas parecem se esvaziar cada vez mais.

Quero ressaltar que isso é inédito, até onde sei. Todas as formas de organização social até agora sempre mediaram a produção / distribuição dos bens (a economia) com a afetividade, isto é, com a valorização do “outro”, do semelhante, daquele que constitui, comigo, a sociedade. Hoje não. Nossa sociedade se constitui sobre uma premissa de produção competitiva, onde o outro é OU consumidor, OU competidor. Não há uma figura realmente identificada comigo, no tecido social.

O que equivale a dizer que nosso tecido social está ligado apenas por relações de consumo. O afeto deixou de ocupar esse papel, que a história mostra ter sido sempre fundamental.

A pergunta que fica é: será isso, nossa forma atual de vida, sustentável? Desejável? Ou mesmo, possível? Será que não sucumbiremos, socialmente, à falta de estruturas relacionais sustentando nosso grupo? Autores importantes defendem ideias parecidas (por ex, Bruno Latour).

O mais espantoso, pra mim, é ver como praticamente não existe nada, no discurso atual, seja de esquerda, seja de direita, que reconheça a importância desse aspecto afetivo, isto é, moral, para o próprio funcionamento sustentável da economia. A discussão, em geral, se perde nos meios de estimulo econômico, como se a economia fosse o único critério – repito, para todo o espectro político. Mesmo os ambientalistas parecem mais atentos à questão da sustentabilidade ecológica, e menos à questão da sustentabilidade emocional, tal qual tentei caracterizar aqui.

Nosso futuro me assombra.

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Notas:

[1] Para toda essa discussão, estou me baseando em Jared Diamond. “O mundo até ontem: o que podemos aprender com as sociedades tradicionais”, Rio de Janeiro: Record, 2014

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