Tamanho da população determina a forma de governo

Conheci o autor Jared Diamond por indicação do amigo @leonardo.r.palma, e me apaixonei. Ele faz exatamente o tipo de pergunta que me interessa: qual a importância do ambiente na determinação dos comportamentos individuais, e mesmo do grupo? A reposta, que vem sendo reconfirmada desde Darwin, é que o ambiente é, talvez, o principal fator na determinação dos comportamentos grupais.

A ponto de podermos relacionar o tamanho da população (entendida aqui como uma das expressões do “ambiente”) com as formas de governo, seguindo uma sugestão de Diamond no livro “O mundo até ontem: o que podemos aprender com as sociedades tradicionais” (Ed Record, 2014).

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No livro, o autor argumenta que sociedades muito simples, como agrupamentos de caçadores-coletores, simplesmente não costumam coletar um excedente de alimentos suficiente para sustentar uma máquina burocrática. Tampouco costuma fazer sentido a existência de uma administração, pois não há o que administrar.

Cada membro do grupo é autônomo em sua suficiência, e enquanto permanecem nômades, os grupos não tendem a despender muito trabalho em um só local (construído uma fazenda irrigada, por exemplo), porque isso os fixaria na terra. Predominam portanto as relações de aliança e parentesco, e isso basta para o grupo.

Já sociedades um pouco maiores tendem a se instalar em algum lugar, porque fica impossível manter alianças com grupos muito grandes e ser nômade ao mesmo tempo. O nomadismo impõe uma restrição no tamanho do grupo, e o tamanho dos grupos fixos também importa na hora de estabelecer o tipo de administração que terão.

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A questão aqui é que as relações de parentesco e aliança simplesmente são onipresentes em agrupamentos pequenos, mesmo fixos. A ofensa que um membro qualquer de uma tribo faz à outra (caçando em seu território, por exemplo) é considerada uma ofensa do grupo inteiro. Não existe individualidade nem da pena, nem do crime, como é usual entre nós.

Assim, fica impossível tratar o dano como algo “impessoal” – objetificando o dano, por exemplo – dado que está implícito nesse funcionamento por alianças que cada parte é um ser humano dotado de sentimentos, e a raiva, a vontade de se vingar, a agressividade existem, e não há “estado”, não há “polícia”, para quem recorrer. Tudo deve ser resolvido levando em conta os sentimentos do outro, sabendo que ele deve ficar tão satisfeito como eu, para que ambos possamos seguir vivendo nossa vizinhança sem atritos.

O livro trás um exemplo muito belo de como duas tribos diferentes “resolveram” um incidente jurídico – o membro de uma tribo havia matado acidentalmente uma criança da outra tribo – recorrendo basicamente à processos de negociação e de demonstração de arrependimento / sofrimento pelo dano causado – tudo isso num processo que durou, ao todo, 05 dias corridos. O livro compara esse “curativo emocional” aplicado pelo grupo ao processo legal, nos moldes ocidentais, que também correu em paralelo, e que ao final de 2 anos e meio, apenas conseguiu fazer o agressor perder o emprego, e não chegou à nenhum esclarecimento / reparação com a família da vítima. Compare-se ainda com duas famílias da nossa cultura, resolvendo problema análogo.

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Enfim, se a linha que seguimos faz sentido, nossa cultura coloca a questão de até onde uma sociedade pode crescer, sem erodir seus laços? Isso é, se há uma relação entre o tamanho do grupo e as formas de governo, parece haver também uma relação entre isso e a importância das relações de aliança / parentesco.

Vale dizer, em sociedades maiores, as alianças / parentescos perdem relevância, e o indivíduo ascende. Mas o indivíduo, por definição, tem uma relação muito mais fraca com a sociedade. O que permite pensar que haveria, no próprio mecanismo social, uma espécie de auto-regulação: quanto maior o peso do “individual” num grupo, mais o grupo perde consistência, até o ponto em que se esfarela.

O individualismo sinalizaria, então, uma espécie de refluxo, o ponto extremo de crescimento do grupo, onde se iniciaria um movimento de rarefação da sociedade em direção ao seu ponto inicial mais uma vez. Todas as formas possíveis de equilíbrio e tensão conviveriam justamente no ponto de passagem – o ponto onde estamos? – aquele momento onde o avançar e o recuar se confundem no ponto “zero”, o ponto mais alto da curva.

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