Ambiente, território, memória. “Reflexões da casa nova”

Mudei de endereço esses dias, e entre mil e uma coisas que a gente só repara quando tudo está ‘fora do lugar’, reparei no modo como meu cachorro estabeleceu, aos poucos, uma relação com o novo ‘território’.

Um dia, por exemplo, ele acabou urinando no meio da sala, coisa que nunca tinha feito na morada anterior.

Como ele é muito esperto, eu já imaginava ele chegando todo arrependido, “culpado” pelo que fez, mas não foi o que aconteceu. De qualquer maneira, o episódio me fez perceber uma coisa.

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Na natureza, grande parte da comunicação acontece de forma concreta, física. Vale dizer: ao urinar em uma árvore, um cão “marca”, concretamente, um território. O que quer dizer que o cheiro da urina, o local físico, servem ao cão como memória. Ele não precisa lembrar de onde é seu território. Basta “cheirar”.

Como na casa nova não havia meu cheiro, ele se sentiu tranquilo para ‘tomar posse’ do terreno. Nada naquele ambiente dizia pra ele que aquele lugar ‘tinha dono’. Seguindo esse rastro, podemos dizer então que o ambiente é, concretamente, a memória, em um nível de comunicação mais básico.

Isso deixa claro, penso eu, como as coisas se complicam no ser humano, justamente por termos que lidar com uma “outra” memória, ligada ao subjetivo.

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Nossa nova memória bagunça as coisas. Sabemos como é comum haver disputas por território, dado que nosso funcionamento já não se baseia no concreto, no visível. Como estabelecer, então, de quem é tal região? Não temos mais a segurança dos antigos meios – embora tenhamos mais flexibilidade (e higiene).

Penso que Freud acertou a mira quando colocou a memória no centro de seu novo campo de estudos (“os histéricos sofrem de reminiscências”). Ele ajudou a evidenciar como dependemos do outro na demarcação de nossos próprios territórios internos.

Por mais “nossa”, subjetiva ou pessoal que pareça a memória do indivíduo, ela ainda funciona nos moldes caninos: está atrelada à comunicação; serve para demarcar o que é “meu” e o que é “do outro”. É social, portanto, e não faz sentido sem essa referência.

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Daí a importância da cultura: ela seria o nosso “território”. Daí também as brigas quando culturas diferentes se encontram, ou quando, como no nosso caso, a cultura não é consistente, ficando impossível delimitar certas coisas.

Não sei ao certo o que seria análogo à urina em nossa comparação, mas penso que o “Eu”, o EGO, tem algo a ver com isso. Basta ver duas pessoas discutindo, para lembrar de como os cachorros se intercalam, urinando a mesma árvore para torná-la “sua”.

No fundo, buscamos, nós e os cachorros, uma orientação. Uma delimitação clara do território aonde nos movemos.

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