Transferência e amor. O caso da religião

O bom da escrita é que ela porta uma exterioridade em relação à nós mesmos. Começamos escrevendo um texto e, quando vemos, é o texto que “nos escreve”. Achamos que sabemos do que falamos, mas, escrevendo, percebemos que não sabemos.

Algo assim aconteceu comigo quando tentei escrever sobre o “inconsciente“. Foram necessários seis ( ! ) posts para dar conta dos incômodos que surgiram a partir desse saber / não saber – e muita coisa precisou ficar de fora, pois é preciso terminar.

E algo assim está acontecendo quando tento falar de “transferência“.

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Isso porque, escrevendo, me dou conta de que a transferência é, afinal, uma forma de amor. Tanto que, na prática, os termos são intercambiáveis: podemos dizer que tal paciente está “transferido”, como diríamos: “está apaixonado”. Vemos também os seguidores das várias correntes psicanalíticas, sempre muito transferidos por seus ‘mestres’, incapazes de crítica – apaixonados, novamente.

Correndo o risco de dizer o óbvio, acho possível entender toda a psicanálise como um tratamento pelo amor – um tratamento que usa o amor (a transferência) à favor da mudança dos pacientes. Não precisamos entender o amor, aqui, como o apaixonamento em sentido restrito. Faz mais sentido entendê-lo em sentido amplo, como Eros, sugestão do próprio Freud (talvez seguindo Jung, mas sem nomeá-lo? Questão pra um outro momento).

Se as coisas são assim, então é necessário situar a psicanálise em continuidade com uma série de práticas amorosas, que vão desde os gregos, na filosofia antiga, como Foucault demonstrou belamente na “Hermenêutica do Sujeito”, até a religiosidade cristã.

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Aqui percebo outro nível dessa ‘exterioridade’ da linguagem, porque, às vezes, já temos as palavras que designam algo novo, algo inaudito, justamente para nós mesmos, mas … não as vemos; não as ouvimos. Não tiramos as consequências daquilo mesmo que dizemos. Somos ‘surdos’ ao nosso próprio conhecimento.

Ora; se a psicanálise é um tratamento pelo amor; se ‘transferir’ é ‘amar’; então podemos entender a religião como uma transferência – à uma ideia, à um ideal, à uma esperança, etc – assim como podemos entender a psicanálise como aparentada à religião. O objeto de amor pode variar entre os sujeitos (mesmo que eles se agrupem na mesma religião ou teoria), mas essa proximidade de fundamento entre psicanálise e religião precisa ser endereçada. Ora, o que fez Freud?

Entendeu a religião como uma ilusão – no mau sentido. Ou seja, desqualificou aquela que era, por assim dizer, a fonte e o modelo mais próximo, na cultura, daquilo que ele mesmo propunha.

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A posição de Freud parece consequente: assim como a transferência, na análise, é uma ilusão que precisa ser “resolvida” ou “dissolvida”, a transferência religiosa também o seria. Ocorre que as duas coisas não são idênticas.

Por um lado, o amor de transferência é um uso específico de nossa capacidade geral de amar, que é utilizado pelo analista como ferramenta na transformação do paciente. Vale dizer, o amor, numa análise, não é mesmo algo que deva prosperar. (Detalhe: podemos tranquilamente substituir as palavras “amor” e “transferência” por “identificação”, aqui. Para mais detalhes, ver este e este posts).

Já o amor religioso é um amor “livre”: vale dizer, é parte da vida do sujeito, e não está no “lugar errado”, via de regra. É tão legítimo quanto amar uma pessoa. O fato de toda transferência envolver uma ilusão sobre o objeto (ver os 2 posts acima) não é motivo suficiente para criticá-lo, pois o próprio Freud foi capaz de entender a ilusão como um constituinte necessário de nossa vida subjetiva (por exemplo, em “Análise Terminável e Interminável”).

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Por outro lado, se é possível rastrear os condicionantes pessoais dessa relação de amor que estamos chamando de “religião” – por exemplo, tal pessoa se relaciona com a ideia de “Deus” da mesma forma que se relacionava apaixonadamente em relação ao seu pai, na infância – isso não esgota o sentido da fonte de onde brota esse amor.

Vale dizer, Freud faz uma das mais ousadas tentativas de nosso tempo de entender o amor de forma científica, decompondo-o em processos e em elementos tais como “identificação”, “investimento no objeto”, “fonte somática”, etc. Mas isso só nos fala do “lado de cá” do funcionamento religioso, e pouco nos diz sobre sua origem.

Um religioso poderia argumentar que o divino se expressa na própria forma de organização do nosso corpo [1]. Seríamos, então, biologicamente condicionados à crer, à amar – e essa seria a fonte da religião. Uma fonte “religiosa”, para o religioso, que apenas se estruturaria no sujeito de acordo com sua história pessoal. Mas essa última não resume, não define, a experiência religiosa como um todo.

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Porque, então, essa crítica à religiosidade? O próprio Freud não critica o amor em geral. Ao contrário, ele o erige à objetivo e sentido maior da vida. Sem contar que, na própria psicanálise, mesmo um amor “falso” pelo terapeuta produz efeitos, e ajuda a transformar o paciente. Parece contraditório, então, criticar a religião e defender a clínica, entendendo que ambas se fundamentam no amor.

Por hora, vejo duas alternativas: ou tratava-se de uma questão pessoal para Freud – lembremos de seu afastamento com Jung, muito mais sintonizado com esse aspecto positivo da religião – ou Freud queria diferenciar a psicanálise da religião.

Conseguiu? É discutível. Embora Freud tenha avançado na descrição dos mecanismos internos envolvidos na identificação, no amor / transferência grupal, na sugestão, etc [2], isso não esgota, como vimos, a experiência religiosa. Pelo contrário: chama a atenção justamente o inverso, ou seja, que um autor tão atento quanto Freud tenha caído num erro fácil desses.

Sobra então a hipótese de que algo da intimidade do próprio Freud estava em jogo. Jung, em sua biografia [3], sugere algo nesse sentido, quando diz que Freud entendia a sexualidade num sentido religioso, quase fanático. Talvez, por isso, tenha sentido necessidade de recusar a religião ‘normal’? [4]

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Notas:

[1] Leonardo Boff seria um representante atual dessa linha, que poderíamos vincular à R.W. Emerson, ou a W. James, nos tempos de Freud

[2] E ele é genial nisso, como em “Psicologia das massas e análise do Eu”. No entanto, isso mesmo vira questão porque, psicologicamente, é muito pouco o que os textos posteriores direcionados à religiosidade acrescentam à essa obra.

[3] Aniela Jaffé, “Memórias, sonhos, reflexões”

[4] Freud, “O Futuro de uma ilusão”, vol XXI das obras completas. Ed Imago

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