Freud e a religião (crítica a “O futuro de uma ilusão”)

Há uma técnica de argumentação conhecida por “falácia do espantalho”. É muito usada internet afora, e consiste no seguinte: você constrói uma imagem caricata de seu adversário, e ataca essa imagem – e não o adversário real.

Falando assim, parece algo estúpido. Mas isso acontece a toda hora, mesmo em discussões sérias. Obviamente, atacar um espantalho é mais fácil do que argumentar contra um oponente real, que terá sempre seus pontos fortes.

E Freud parece ter utilizado, talvez involuntariamente, a tal “técnica do espantalho” contra a religião. O que é muito curioso, nele.

***

De fato, é difícil de entender porque Freud, que se notabilizou pela perspicácia, pela capacidade de “ver além” do óbvio, ficou tão aquém, nesse seu estudo sobre a religião. Vamos dar uma olhada, então, nesse texto. Tudo o que vou dizer na sequência se baseia no “O Futuro de uma ilusão” [1]

Freud começa desenhando um quadro por si só questionável: o da necessária oposição entre indivíduo e sociedade. Já escrevi sobre esse ponto em outros posts, então aqui direi apenas que isso está longe de ser um consenso. Há bons autores defendendo, por exemplo, que a vida em sociedade é parte dos instintos do próprio indivíduo. Ou seja, não há oposição necessária, aí. Esse é o entendimento de A. Damásio, pra citar apenas um autor importante.

Mas a partir desse quadro, Freud argumenta que também se faz necessária uma pressão, uma obrigação, em geral relacionada ao uso da máquina do estado por parte de uma elite. Ou seja, dado que o indivíduo comum “não quer” a sociedade, ele é obrigado a tanto por uma elite dominante.

***

Essa vivência em sociedade por obrigação implica numa carga pesada de frustração entre os dominados. Eles não apenas têm seus instintos barrados pela vida em sociedade – pois sociedade, nos termos de Freud, se funda basicamente no controle dos instintos -, como ainda precisam trabalhar para manter o aparelho que os constrange.

E frustração é um barril de pólvora. Se levada para além de um certo limite… explode em guerras, revoltas revoluções. Vale dizer, haveria sempre um equilíbrio instável numa sociedade. E nem sempre os ganhos da vida em grupo são suficientes para contrabalançar os custos envolvidos.

E aí entraria a religião.

***

A religião seria uma resposta à essa situação natural de desamparo do homem em sociedade. Ela nos daria uma compensação ilusória, pelas frustrações que experimentamos na vida social. Ao compensar, num horizonte expandido, as falhas e frustrações dessa vida, ela nos daria a força suficiente para continuar vivendo entre as pressões instintuais e as sociais.

O que chama a atenção em todo esse argumento freudiano é que, mesmo tendo percebido a importância do desamparo como motivador para a busca religiosa, ele é incapaz de perceber o quanto a religião tem a ver com o amparo – real, aqui, nesta vida. Ou seja, o quanto faz diferença que existam pessoas nos amparando, do nosso lado, com boa vontade, ajudando concretamente na superação dos problemas reais, ou ao menos nos sustentando, quando uma solução não é possível.

E isso se torna tanto mais escandaloso quanto a própria psicanálise é uma dessas formas de amparo! (não estou dizendo que ela seja apenas isso, ok?)

***

Freud encaminha então sua argumentação para uma comparação entre a religião e a ciência: ele acredita que a educação e a razão científica são guias melhores para essa população “necessariamente” antagonista da civilização. O que ele mesmo percebe como ingênuo, ilusório. Mas, conforme sua argumentação: ao menos essa tentativa científica poderia ser corrigida, exatamente como uma hipótese funcional, o que não ocorreria na religião.

O que parece escapar à Freud – e, insisto: de uma maneira escandalosa, porque ele geralmente não é tão naïve assim – é que a religião real também muda. Enquanto instituição humana, ela esteve sobre diversos regimes ao longo do tempo, buscando se adequar às demandas concretas de sua época (nem sempre da melhor forma, é verdade).

É como se Freud estivesse pensando nos textos bíblicos quando fala em “a religião”. Ou seja, focasse na parte mais dura do dogma, nas ideias, na estrutura institucional, e não na prática em seu aspecto mais adaptativo e caridoso, de doação e auxílio.

***

Mas a coisa toda é ruim porque, no fundo, o que Freud acaba fazendo é legitimando a dominação de uns sobre outros – que supostamente “não querem” o social -, assim como subsumindo o religioso ao seu aspecto de informação, isto é, como se ele fosse uma teoria, uma visão de mundo, e, nesse aspecto, comparável à ciência ou à razão.

Ora, me parece claro que a religião não é apenas isso. Se é verdade que alguns a vivem a partir desse panorama restrito (mesmo na igreja; aqui, um exemplo), não é tão simples reduzir os milênios de experiência religiosa e esse tipo de fundamentalismo.

Até porque nem todo mundo vê na religião um conhecimento. Esse é um aspecto ressaltado por Jung: a religião, como tal, é uma experiência em grande parte inconsciente. Algo mais próximo de um sentimento, de um amparo, de uma vivência, do que de uma ideia.

***

Mas o argumento freudiano passa longe desse aspecto. Essa, aliás, é uma falha da teorização freudiana como um todo. Apesar da centralidade que o afeto ocupa ali, não há um desenvolvimento sobre o afetivo ele mesmo. Quase sintomaticamente, Freud separa o afeto da ideia a ele vinculada, e se ocupa apenas da ideia.

Mas esse não é o nosso ponto. Aqui, chama a atenção a fragilidade de seu argumento. Pra piorar tudo, ele não se deu ao trabalho de buscar um – um! – artigo comparativo; sequer parece ter pensado que a experiência religiosa pode ser diferente em outros povos.

Como explicaria, por exemplo, que há uma religiosidade importante entre tribos indígenas onde, em contradição total com o seu argumento, não há máquina estatal “obrigando” os sujeitos a conterem suas pulsões? [2]. Não por acaso, os textos ‘sociais’ de Freud estão entre os mais criticados, seguidos daqueles relativos à arte (ou seja, ao campo do afetivo).

***

Tudo isso chama muito a atenção, por vir de Freud. Alguém que, como disse, se notabilizou pela perspicácia. Difícil não pensar que, nesse ponto específico, Freud estivesse expressando apenas algo de suas próprias angústias pessoais. Talvez a maneira de viver do próprio autor se desenhasse assim?

De fato, para Winnicott, Freud se refugiou da doença mental na normalidade[3]. Ou seja, Freud não conseguiu integrar uma parte da própria personalidade, que precisou ficar recusada, recalcada. Teria essa parte a ver com o afeto, com o sentimento?

Podemos especular que sim. O que nos daria alguma legitimidade para entender que “a religião” que Freud recusa tem mais a ver com a sua experiência de religião – ligada, talvez, ao sentimento? Ou seja, a algo que ele precisava recusar?

Puras especulações, claro. Mas um Freud tão “naïve” realmente me parece algo que exige interpretação.

*********************

Notas:

[1] Freud, S. “O Futuro de uma ilusão”, vol XXI das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edicão standart Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

[2] Remeto os interessados ao belíssimo livro “A queda do céu”, escrito em parceria por um xamã Yanomami (Davi Kopenawa) e um antropólogo francês (Bruce Albert)

[3] D.W. Winnicott, “Explorações Psicanalíticas”. Porto Alegre: Artmed, 1994 (reimpressão 2007), pg 365 e ss.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s