Um freudiano lendo Jung

Não me considero um “freudiano” no sentido estrito, mas foi Freud quem me apresentou uma psicologia do inconsciente possível. Na época eu pretendia escrever a monografia de conclusão de curso contra Freud, baseado em Nietzsche. Pra minha total surpresa, fui descobrindo cada vez mais semelhanças entre os dois. Por fim me vi obrigado a alterar a rota – o pensamento! Coisas da vida.

De lá pra cá, muita coisa aconteceu. Acabei descobrindo em Winnicott uma boa amálgama dos dois “opostos” de que partia. Principalmente, acabei percebendo que, em termos de psicologia, a clínica é soberana. Não faz sentido gastar tempo e energia escolhendo a teoria; todas ainda estão incompletas.

Mesmo assim, certas simpatias se consolidam. E a psicanálise acabou sendo o meu campo de trabalho, a minha referência maior, mesmo que eu mantenha – espero! – algumas janelas abertas, e um tanto de senso crítico.

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Desse lugar, ensaiei a leitura de Jung mais de uma vez. Mas não avançava. Demorei pra conseguir aproveitá-lo. Ele parecia a-sistemático demais, místico demais. Parecia dar importância para coisas banais, e não falava daquilo que eu considerava importante. Seu texto dava voltas e mais voltas, e não chegava a lugar nenhum.

Que diferença com Freud! Sua escrita é linear, bem montada. Seus textos não enrolam; ele vai direto ao ponto, às vezes já na primeira frase. Freud é lógico, concatenado. Consegue nos levar às conclusões mais incríveis, mas sempre um passo de cada vez. Sempre (ou quase!) com os pés no chão.

Usando uma imagem, Freud é o cientista que se coloca à beira do abismo, no limite entre o conhecido e o desconhecido. De lá, solidamente assentado no que conhece, ele estica o braço para o outro lado, e nos trás alguma coisa desconcertante.

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Jung seria o cientista que se atira inteiramente para o outro lado, e de lá estica o braço, nos alcançando algo de inefável. Ele mergulha inteiro no desconhecido, e procura fórmulas para traduzi-lo, para nos comunicar o que vê. O resultado é, às vezes, impressionante. Às vezes, decepciona. Mas ele continua em seu trabalho, imperturbável, porque sabe onde está; sabe o que viveu.

Freud, em comparação, parece muito mais restrito. O que também tem suas vantagens. Isso dá à psicanálise um aspecto mais talhado para o científico. Talvez, sem as limitações freudianas, nunca se tivesse dado tanta importância ao “outro lado”, ao inconsciente.

Mas essas limitações também cansam.

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Principalmente pra mim, que tinha lido filosofia. Porque a invenção de Freud conjuga uma teoria e uma prática que cura, baseada em sonhos e interpretações. Mas Freud apresenta isso como uma inovação dele, de nosso tempo. Pouco fala das raízes que essa prática tem, seja na religião, na filosofia, no xamanismo ou no mito.

Freud é o cientista mais uma vez. Ele delimita o foco. Recorta a realidade num ponto específico, e trata apenas daquilo. Jung, em contraste, é o representante da história. Ele abre os braços aos séculos e aos milênios; faz ressoar aquilo que já existiu, reencontrando a prática freudiana, mas com outros nomes.

Conecta nosso fazer, assim, com o religioso, o xamânico, o mitológico. Reencontra na filosofia ou na alquimia uma sugestão que serve também para o nosso tempo. Uma sugestão para o homem como um todo.

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Freud e Jung, assim, são complementares. É pouco apenas compará-los. Como expressão do cientista, um recorta o todo, foca o presente, desliga-se do passado; outro, expressão complementar, percebe o todo, conecta-se com o passado, foca no futuro.

Um busca o foco, o início, a descrição exaustiva do detalhe. Outro, busca o fim: a descrição aproximativa do que vem-a-ser. Um, faz análise redutiva, causal, determinista; outro faz ampliações imaginativas, detém-se nas significâncias a-causais, confia na finalidade do sintoma.

Jung não poderia nos dar o que Freud deu; nem Freud, o que aprendemos com Jung. Talvez seja ingenuidade de nossa parte querer que “apenas um” deles tenha razão. Acaso não somos complicados o suficiente para ‘caber’ na soma das duas teorias?

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