Onde estão os indivíduos?

No belíssimo quadro acima, Van Gogh nos apresenta uma criança, apoiada na mãe, que ensaia um gesto tímido em direção ao pai, situado logo adiante. Essa imagem evoca, para mim, nosso processo de desenvolvimento. Todos começamos apoiados em nossos pais. Nossos primeiros passos sempre são tímidos. Mas, na medida em que encontramos apoio suficiente, ensaiamos passeios cada vez mais longos. E assim, com o tempo, saímos de casa, em direção ao mundo.

Na verdade, como diz Winnicott, não é que não precisemos mais de apoios. Ao longo da vida, várias situações vão exigir suporte. Ampliamos, sem dúvida, os nossos vôos, mas sempre chega o momento de descansar.

E pra isso é preciso algo firme. Algo em que possamos nos apoiar.

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Essa imagem é uma metáfora para a autonomia do indivíduo. Somente temos autonomias mediadas. Bem pode ser que nossas mediações não apareçam: estão inconscientes. Foram tão bem introjetadas, que agora parecem parte de nosso próprio “Eu”.

Mas, como a doença mental faz ver, esses apoios introjetados não são parte do indivíduo. São parte da sua história. Precisam ser construídos, ou renovados, a partir de vivências concretas de apoio.

Quando essas introjeções não são alimentadas em vivências de sustentação no presente, elas se esgotam. Então não conseguimos mais ser “indivíduos”. Perdemos nossa autonomia. Temos dificuldade de alçar vôo. Nos agarramos ao solo, a sustentação. Somos pássaros adultos, que não conseguem mais sair do ninho.

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Penso que isso descreve muitos indivíduos do nosso tempo. Assustados, eles se retraem em torno das certezas que conseguiram angariar. Buscam, no fundo, o apoio necessário para seguir voando. Mas nem sempre conseguem o suficiente. Sobretudo porque nossa cultura desaprendeu o ‘sustentar’.

E esse apoio na cultura é fundamental. É o contraponto do indivíduo; aquilo que permite que ele seja “si mesmo”, seja individual, na medida em que dá suporte para sua diferença. É a mediação, o ponto de reforço da autonomia.

Não há individualidade sem grupo. Porque a experiência de suporte no grupo é o fundamento do individual.

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O que seriam esses apoios na cultura? Seriam os mitos, as tradições relativas ao indivíduo; seriam ideias e valores compartilhados. Seriam a própria cultura: regras do jogo que todos seguem mais ou menos, e que nos permitem nos situar ao respeitar a temporalidade própria de nossas mudanças internas.

Mas não temos nada disso. Nossa cultura da pós-verdade prega uma radical extinção dos pontos de apoio da subjetividade – pois a verdade é um ponto de apoio, mesmo quando errada.

A cada dia saímos de casa para afrontar uma realidade que muda. Mas, ao contrário de Heráclito, essa mudança não é algo positivo. É algo traumático. Impossível entrar no mesmo rio duas vezes, porque ele já não está mais ali, literalmente. Novo paradoxo, a mudança é tão radical que não permite que aprendamos com ela. A mudança pura, sem um fundo de continuidade, é caos. E nada se constrói aí.

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Por isso não temos mais indivíduos. Reclama-se da falta de “líderes” na política, mas o buraco é muito mais embaixo. Faltam indivíduos: pessoas amadurecidas por relações de suporte funcionantes, capazes, por isso, de “sobrevoar” longas áreas da cultura e de tomar responsabilidades para sí.

Só o indivíduo maduro pode ser responsável, sem que isso seja uma submissão ou uma farsa. Mas como pensar numa sociedade sem responsabilidade? Essa é, no entanto, a nossa atualidade. No fundo, a cultura que temos atua como uma expropriação espiritual: ela nos tira todo e qualquer suporte, e não nos dá nada em troca (ou muito pouco: os ideais do ‘homem vencedor’; o mito do sucesso que tudo resolve; a ideia de que a competição precisa existir num nível psicopático, etc. Mitos que apenas mantém nosso cativeiro).

No fundo, nossa busca unilateral pelo dinheiro mostra o que nos tornamos: mendigos do espírito. Esfomeados, vagamos, entre redes sociais e fake-news, a procura de descanso, de solo firme, de estabilidade. Aquilo que nos parece firme, defendemos com unhas e dentes. Mas é cada um por si; falta o consenso do grupo.

O complemento natural da pós-verdade é o dogmatismo. Por mais falso que seja, ele nos dá algum apoio. E precisamos de apoio.

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