Jung, a psicologia e o problema do cristianismo

Do ponto de vista laico, o cristianismo se apresenta como questão. As ideias religiosas não fazem mais eco na vida interior. Para muitos, parece simplesmente absurdo crer nelas. Mas então porque esse absurdo vingou? Porque permaneceu vivo, por tanto tempo?

Jung [1] entende que o cristianismo histórico não pode ser compreendido fora do contexto de seu surgimento, junto a um mundo grego e romano permeado de excessos de toda ordem. Sexo, bebida, competição, assassinatos, roubo: tudo era permitido e acessível. O inconsciente estava “à solta”.

Então, em função da tendência complementar da psique humana[2], um movimento na outra direção foi se fazendo ouvir. Um movimento em direção à consciência, ao controle, à razão, justamente contra um pano de fundo descontrolado, inconsciente e irracional. O cristianismo se impôs, com sua ênfase no afastamento do mundo dos sentidos, do sexo, da agressividade, da própria natureza, e mesmo do mundo.

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Essa leitura encontra eco na perspectiva de Foucault, que mostra[3] como já entre os gregos esse movimento “complementar” aparecia, fundando escolas de pensamento ascéticas como o epicurismo.

Mas o que é específico de Jung nessa história é o entendimento de que o cristianismo, como movimento complementar, não faz sentido fora de seu contexto total, de sua “outra metade”. Vale dizer: o cristianismo, como movimento em direção à consciência e à luz, só pode existir onde encontra, também, o movimento oposto, em direção ao irracional e obscuro na experiência.

Ora, para Jung, a hegemonia do dogma cristão teve como efeito indesejado algo que podemos chamar de idealização do humano. Reconhecer seus pecados encontrava suporte (psicológico) na absolvição do grupo. Com o tempo, o suporte do grupo encontrou-se cada vez mais do lado daqueles que “não pecavam“. Assim, reconhecer-se pecador perdeu seu incentivo. Com isso, o próprio fundamento da religiosidade se perdeu – ou seja, suas raízes no lado escuro do ser. Em consequência, a religiosidade não faz mais sentido. Se ninguém reconhece doenças na alma, para quê buscarmos remédios pra ela?

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Este seria o contexto histórico a explicar parte do lugar singular que a psicologia das profundezas ocupa, segundo Jung[4]. Porque é ela quem se encarregou de mostrar, de novo, para o ser humano, o seu lado animal e obscuro. É ela, também, que deve enfrentar a resistência que sempre se opôs a esse reconhecimento.

Hoje, no entanto, reconhecer “nossos pecados” não se insere mais numa experiência de suporte e identificação grupal, que justifique e legitime esse (sofrido) processo. Isso foi perdido tanto para nós quanto para o cristianismo. E talvez algo disso venha novamente à tona, quando vemos correntes “profundas” e correntes “pragmáticas” em psicologia se oporem. Se não há um objetivo maior culturalmente compartilhado (para além de uma certa ‘felicidade estatística’, cientificamente determinada), pra quê mexer nos nossos alicerces animais, relembrar nossos pecados?

Ou seja, enquanto psicologia das profundezas, herdamos do cristianismo uma problemática difícil, que põe em questão o próprio sentido de nossa prática. A resposta de Freud – a de que a cientificidade do processo seja suficiente – me parece simplista, quando não ingênua[5]. Jung parece ter uma resposta que, ao menos, dá conta da complexidade do tema.

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E qual é a resposta de Jung? Não sou especialista no tema, mas arrisco dizer[6] que ela envolve a criação de uma “mitologia” – uma visão de mundo – na qual os dois extremos da experiência humana encontrem lugar na cultura.

Falo, por um lado, de nossa animalidade, nossos instintos, nossos “pecados”, e, por outro, nossa consciência, nossa responsabilidade moral, nossa capacidade de transcender – de forma humana – essa animalidade.

A ciência nos dará uma visão de mundo assim? A psicologia das profundezas nos apresenta algo assim? Questões enormes, com dois mil anos de idade, nos revisitam. Parece claro que, hoje, a cultura se esforça por recuperar aquela animalidade instintiva que o cristianismo negou, no mesmo passo em que vê com desconfiança qualquer tentativa de construção de sentido que aponte para além do estritamente observável. Bastaria, então, criar uma síntese dessa dialética histórica num novo movimento que contemplasse ambos os extremos. Se o entendi bem, esse é o ponto de mira de Jung –

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Notas:

[1] Estou me baseando principalmente em Jung, “Símbolos da transformação”, pp 52/68

[2] Para Jung, todo movimento excessivo da consciência numa direção gera no inconsciente um movimento oposto. O inconsciente seria complementar em relação à atitude tomada pela consciência.

[3] Estou pensando aqui na “Hermenêutica do sujeito”. Foucault acentua a importância de autonomia que era buscada através da ascese, em contraposição à escravidão ao inconsciente que caracterizaria (para os próprios antigos) a desmedida do mundo greco-romano.

[4] A questão é bastante mais ampla do que isso. Trata-se, aqui, apenas de um recorte.

[5] Escrevi mais sobre isso no post https://wordpress.com/post/euemtorno.wordpress.com/13932

[6] Aqui estou pensando na biografia de Jung, “Memórias, Sonhos e Reflexões”

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