Winnicott & Nietzche: onipotência e vontade de poder

Há muitos pontos de contato entre Winnicott e Nietzsche. Penso, por exemplo, que há uma sobreposição parcial entre os conceitos de ‘onipotência’, em Winnicott, e de “vontade de poder”, em Nietzsche. Há, também, diferenças.

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Por exemplo, de ponto de partida. Nietzsche foi um filósofo muito preocupado com a questão moral, isto é, com a definição e o questionamento de conceitos como “bem” e “mal”. Ele sentia que a vida não se orientava necessariamente pelos valores morais; vale dizer, haveria alguma coisa mais, um princípio ‘para além do bem e do mal’ – título de um de seus livros -, que se ajustaria melhor ao nosso comportamento.

Esse princípio acabou sendo reconhecido numa “vontade de poder” ou de “potência”, que podemos assimilar à ideia espinosiana de “conatus” – um impulso vital direcionado à ampliação da nossa capacidade de afetar e ser afetados pelas coisas.

Esse seria um princípio amoral; ele não se guiaria pela moralidade das coisas, mas antes pela expansão da potência de viver de cada um. Esse princípio também não se reduz à uma busca do poder como instituído – por exemplo, não se trata de uma busca do poder político -, mas tem mais a ver com uma busca pré-subjetiva e mesmo pré-social. Em termos psicológicos: não é o “ego” quem “busca” ou se “engrandece” com esse poder, mas o próprio solo subjetivo aonde o “ego” nasce. Cresce o território da alma, mais do que o ego em si mesmo.

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Winnicott era médico; esse foi o seu campo de atuação. Não obstante, algumas de suas proposições casam muito bem com o que foi dito pelo filósofo alemão. Winnicott dizia preferir chegar às suas próprias conclusões e depois – talvez? -, ver “o que roubou de quem”. Seria esse o caso aqui?

Não sabemos. Para Winnicott, a cria humana nasce com uma defasagem de “processamento” em relação à realidade, digamos assim. É como se ela nascesse precoce, do ponto de vista mental / emocional, sem condições de lidar com as demandas da realidade por conta própria. Por isso a mãe ou alguém próximo deve atuar como ambiente facilitador, completando essa ‘insuficiência’ da criança.

Esse ‘complemento’ do ambiente acontece em vários níveis, mas no ponto que nos interessa aqui, ele ajudaria a criança a viver os contatos iniciais com a realidade como se ela fosse um objeto subjetivo – vale dizer, como se a criança tivesse criado a realidade.

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Daí porque Winnicott fala em “onipotência”, chamando a atenção para o sentimento que a criança teria (se já fosse um adulto) em relação à esse casamento, esse entendimento, entre suas demandas e as parcelas de realidade que a mãe (bem adaptada ao bebê) apresenta.

Essa experiência de onipotência seria necessária como uma expressão da criatividade primária da criança. Vale dizer, o bebê precisa criar o mundo, para senti-lo como “seu”, como integrado à sua experiência, nesse momento muito inicial do desenvolvimento.

Detalhe é que o mundo ainda não é integrado de fato, para a criança, mas vê-lo “se criando” na medida e no ritmo das necessidades do bebê teria o mesmo efeito de uma integração – ou seja, não afetaria a precária capacidade de processamento infantil.

A atitude facilitadora da mãe / ambiente seria necessária porque, como diz Winnicott, “a realidade é um insulto”. Ela “quebra” nossa onipotência, insiste em existir sem levar em consideração nossas necessidades… e a criança ainda não teria capacidade de lidar com isso. Boa parte do futuro desenvolvimento emocional dessa criança envolveria justamente criar recursos para lidar com os ‘insultos’ do real (emulando, internamente, o comportamento do ambiente).

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A criatividade primária que se expressa nessa necessidade de ‘onipotência’ seria, na minha leitura, algo que podemos aproximar do conceito de “vontade de potência”, em Nietzsche.

Eis aqui alguns pontos de contato:

  • são conceitos a-morais, como queria Nietzsche, (em Winnicott, a criatividade é anterior à capacidade de relacionamento compadecido, anterior à moralidade);
  • Nesse sentido, por vezes ambos os conceitos têm nas formas rígidas de moralidade um empecilho, o que implica que,
  • para os dois conceitos, a relação sadia com a moralidade deve integrar os impulsos do sujeito, e não ser (apenas) uma imposição externa;
  • Ambos integram, em si mesmos, tanto a ilusão quanto a verdade (a realidade), como modos e meios de funcionamento.
  • Nesse contexto, ambos os conceitos vêem na arte uma forma de expressão privilegiada de si;
  • Ambos são processos anteriores ao “Eu”, estando mais para o lado das causas do “Eu” do que das consequências ou determinações dele.
  • Não se confundem com qualquer determinação social, nem com as formas de poder socialmente instituídos (como a política, as estruturas sociais, etc)
  • São impulsos que devem ser atendidos, sob pena de doença, impotência, empobrecimento de vida, sentimento de futilidade.

Para falar sobre as diferenças entre os conceitos, Nietzsche trabalha com uma ideia muito mais ampla, que poderia ser aplicada aos animais, e, até, hipoteticamente, ao mundo material (ver, por ex. ABM §36). Winnicott, por outro lado, circunscreve claramente sua ideia ao âmbito psicológico.

Não deixa de ser interessante notar, entretanto, os pontos de contato dos conceitos. Sobretudo porque Winnicott não costuma ser lido como um autor de ressonâncias filosóficas (como Lacan, por exemplo), mas creio que, com um pouco de flexibilidade na leitura dos conceitos, haveria muitos pontos de contato, não apenas com Nietzsche.

A proposta de Winnicott nos permite pensar, por exemplo, em como todos somos, do ponto de vista da subjetividade, “deuses decaídos” – e como isso é parte do “inferno pessoal” de cada um. Ter sido, por necessidade, um “Deus onipotente”, e crescer tornando-se cada vez mais apto a falhar e a errar, como ser humano. Esse é um desenvolvimento totalmente winnicottiano, que agradaria até Nietzsche, penso eu.

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