Uma religião material?

Há uma questão em Nietzsche, que Jung retoma, que é mais ou menos o seguinte: “qual o sentido do homem?”. Ou ainda: para que, a vida humana? Qual o sentido disso tudo?

Essa questão se insere nitidamente num contexto religioso. Ao constatar que “Deus está morto”, Nietzsche se depara com a necessidade de entender também como a vida ganhará sentido, sem Ele. Grande parte da obra nietzscheana é essa tentativa de resposta.

Mas a questão permanece em aberto.

***

Jung retoma essa questão. Porém, mais do que apenas constatar que o Deus cristão morreu, ele tenta responder do quê ele morreu. Que acontecimentos foram necessários para matar um deus?

Uma das respostas vem da própria unilateralidade da visão cristã sobre o humano. O cristianismo, nascido num contexto de grande permissividade moral, teria sentido necessidade de se diferenciar justamente pela austeridade moral que pregava. Vale dizer, uma crítica, uma suspeita, e até uma negação direcionada ao corpo, ao prazer, ao sexo, aos desejos, ao feminino, fez parte do cerne do cristianismo.

Com o tempo, isso criou uma visão de homem excessivamente ideal, angelical demais. Ao ponto dessa visão ter se tornado insustentável, insuflando a reação que hoje vivemos, baseada grandemente numa redescoberta do corpo e dos prazeres.

***

Baseada também numa redescoberta da matéria. Pois parte daquela desconfiança cristã neste mundo incluía uma desvalorização do mundo material. O mundo concreto, a própria natureza, foram questionados, na busca de ressaltar o ‘lado de lá’.

Intensificou-se então uma dicotomia entre o que seria espiritual e o que seria material. Em consequência, o corpo, o prazer, o mundo e a matéria, tudo, toda a vida, dirá Nietzsche, foi questionada em favor de uma ideia de “além” baseada na negação disso tudo. Daí que o paraíso não seja material; que lá, não exista corpo, nem brigas, nem desentendimento ou morte.

No dizer de Jung, o cristianismo tomou apenas o lado luminoso da vida, e expurgou o resto para a sombra. Com isso, recusou parte da vida mesma, doravante identificada com a matéria, com algo a ser desprezado. E então, essa visão de mundo ruiu.

***

Ou começa a ruir. Historicamente, ainda nos encontramos sob o efeito dessa divisão. A psicologia é um exemplo, com o infindável questionamento sobre o seu lugar nas ciências (é uma ciências humanas? (do esṕírito) ou biológica? (da matéria)). A tendência a identificar o espiritual com algo não-material, não-corporal, também permanece.

Mas os questionamentos surgem por toda parte. Em Espinosa, por exemplo, já no séc XVII, matéria e pensamento são atributos da mesma substância. A alquimia, como mostra Jung, desde o séc I, se caracterizou justamente por buscar o espírito no material, e não alhures. Finalmente, Nietzsche, Freud e também Jung se encarregaram de resgatar a ‘boa consciência’ para boa parte de nossos ‘pecados’; para aquilo que, até então, só podia viver na sombra.

Talvez o próprio materialismo que vivemos hoje seja um efeito “rebote” dessa longa recusa do cristianismo em conceder espaço para o material junto às coisas de valor.

***

Caberia levar esse questionamento adiante, e perguntar porquê, afinal, a matéria precisa ser vista como oposta ao processo vivo? Quando tudo o que conhecemos, cientificamente, aponta para o surgimento espontâneo da vida a partir da matéria – dadas certas condições, é claro -, não seria legítimo aproximar esses dois extremos, e passar a pensar a vida como uma das expressões da matéria?

Isso não implicaria, necessariamente, num materialismo brutal, onde todo o “espírito” é abandonado em favor de um vale tudo grosseiro. Afinal, nessa nova visão, a espiritualidade não é algo que se acrescenta à matéria, mas algo intrínseco ao processo vivo, cujas raízes remontam ao material.

Vale dizer, ao abdicar da dualidade excludente entre matéria e espírito, estamos em condições de ver a espiritualidade na matéria mesma, e reencontrar, assim, algo de nossa conexão com o mundo – algo que foi perdido, com o arrefecimento da crença cristã.

Com isso, é todo um mundo novo que surge, recheado de mistérios… um mundo onde nossa conexão com a vida não precisa se basear na fé, mas é apreendida cada vez mais de perto pela ciência. Um mundo onde toda aquela ‘sombra’ recusada pela história encontra lugar novamente, como parte dos mecanismos vitais de evolução. Um mundo onde o próprio lado luminoso da vida ressurge como o maior dos mistérios, se pensado como parte do potencial da matéria

Mas estamos prontos para abandonar essa dualidade?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s