“O mistério da Consciência”, de Antônio Damásio

Posto na sequência um resumo dos seis primeiros capítulos do livro do neuropesquisador português Antônio Damásio sobre a consciência – um dos mais importantes livros do século, eu diria, ao menos no campo da psicologia.

Primeiro porque aborda um tema fundamental: o que é a consciência humana? Como ela surge? Como a definimos?

Segundo, porque ele apresenta respostas para todas essas perguntas antiquíssimas; respostas muito consistentes, amparadas por material empírico.

Terceiro, porque essas respostas salientam a importância do corpo e das emoções para a produção da consciência – ao contrário de séculos de preconceitos que opunham consciência & corpo & emoção.

Finalmente, porque, assim entendidas, emoção e consciência são recolocadas ao nível das ferramentas de homeostase do corpo na relação com o ambiente. Ou seja, não são luxos, não são conquistas “contra” a natureza, mas sim expressões dessa.

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Por tudo isso, Damásio rompe com uma tradição ‘milenar’, aquela que pretendia ver na consciência o especificamente divino do homem, aquilo que o separava dos animais. Não só os animais provavelmente compartilham conosco um certo grau de consciência, como grande parte de nossa consciência deriva do estado de nossa ‘animalidade’: emoções de fundo, estados de humor, teriam grande relação com o funcionamento das vísceras, por exemplo, assim como da saúde em geral.

Por outro lado, ao retirar a consciência de sua ‘etérea contemplação’ (ia dizer ‘dissociação’…), o livro contribui para fundamentar algo amplamente utilizado nas terapêuticas atuais, inclusive a psicanalítica, a saber: evocar ideias, reviver lembranças, tecer narrativas, não são atos inócuos. O texto é muito claro ao aproximar percepção e rememoração, a ponto de podermos dizer que, do ponto de vista do corpo – e, para Damásio, isso quer dizer também, ‘da consciência‘ – quase não há distinção.

Ou seja, aquilo que é vivido nas clínicas é uma experiência real. Mesmo quando ‘apenas’ falada.

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Outro ponto que me interessa neste texto é o lugar secundário que nele ocupa a linguagem. Nunca entendi bem, ou nunca concordei, com o frisson que certos autores fazem em torno da linguagem. Já Nietzsche desconfiava que nossa ‘crença na gramática’ iria servir para sustentar as metafísicas divinas modernas (ver, por exemplo, ‘Crepúsculo dos Ídolos’, cap. “A ‘razão’ na filosofia”).

Damásio argumenta que a linguagem apenas traduz parte dos mapas neurais que o corpo cria no processo de auto-regulação homeostático. Ou seja, haveria, primeiro, uma ‘narrativa sem palavras’ indicando aos centros nervosos o estado do corpo em cada situação. Essa narrativa é que daria sentido – ou ‘corpo’ – para palavras como “Eu”, cujo conteúdo idiossincrático nem teria como ser pensado apenas do ponto de vista linguístico.

Num momento posterior, a linguagem teria, sim, mais importância, assim como a extensa rede de memórias e experiências vividas. Mas em momento algum a linguagem é o fundamento de algo, para além do propriamente linguístico. Damásio ensaia, até, uma separação entre consciência e linguagem, inferida em alguns casos drásticos de doença cerebral.

O que não parece possível separar do estado consciente é justamente a emoção – a ponte entre o psíquico e o corporal.

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Enfim, haveria muito mais o que dizer, razão suficiente para parar por aqui. Como sempre, o resumo que segue não está aí para substituir a leitura do livro… não conseguiria fazê-lo, mesmo que eu quisesse! É, antes, uma degustação, um tira-gosto… talvez suficiente para convencer o leitor a buscar mais.

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O MISTÉRIO DA CONSCIÊNCIA: DO CORPO E DAS EMOÇÕES AO CONHECIMENTO DE SI

Antônio Damásio
tradução Laura Teixeira Motta;
revisão técnica Luiz Henrique Martins Castro –
2ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2015

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OBS:

  • as frases entre aspas são cópias literais do texto;
  • as frases sem aspas são minhas. Geralmente as deixei em itálico.
  • O número no final dos parágrafos corresponde à página do livro.
  • Coloquei todos os títulos em letras maiúsculas, mesmo que nada seja aproveitado da sessão específica que esse título delimita.
  • quando eu encontrar uma definição explícita, vou destacar ela abaixo do parágrafo, em negrito

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PARTE 1: INTRODUÇÃO

SAIR À LUZ

“Meu objetivo específico é examinar as circunstâncias biológicas que permitem a transição do ‘escuro’ da inconsciência à luz da consciência” (15)

“Embora eu NÃO veja a consciência como o ápice da evolução biológica, penso que é um momento decisivo na longa história da vida (16)”

Conta uma história sobre como a consciência nos permite SABER que estamos sofrendo ou sendo humilhados, mas tbém nos permite nos identificarmos com os outros – e ajudá-los (16)

AUSENTE SEM TER PARTIDO

Conta a história de um paciente que tinha episódios de “ausência”; simplesmente parava o que estava fazendo e ficava absorto em si, isolado, não respondia a nada; no entanto, mantinha reflexos, era capaz de caminhar e até de beber uma xícara de café. (17)

“por um breve período […] aquele homem sofreu um comprometimento da consciência […] ele teve uma crise de ausência seguida por automatismos associados à crise de ausência, duas dentre as diversas manifestações da epilepsia” (17)

“o que eu acabara de ver […] era muito espantoso. O homem não desabara no chão em estado de coma nem adormecera. Ele ao mesmo tempo estava ali e não estava, sem dúvida desperto, parcialmente atento, agindo, fisicamente presente mas pessoalmente desaparecido” (18)

“penso agora ter presenciado uma transição muito abrupta entre uma mente plenamente consciente e uma mente privada do sentido do self[…] Durante o período do comprometimento […] sua capacidade básica de atentar para os objetos e de orientar-se no espaço esteve preservada […] mas seu sentido do self e do conhecimento foi suspenso” (18)

[SUGERE ENTÃO QUE SÃO COISAS SEPARADAS]

O interesse dele pela consciência veio de dificuldades em seu trabalho sobre as emoções (19)

“Eu compreendia razoavelmente bem como diferentes emoções eram induzidas no cérebro […/. Também podia imaginar como a indução de emoções e as consequentes alterações físicas que em grande medida constituem um estado emocional eram sinalizadas em várias estruturas cerebrais – (o que dá a base do sentimento) […]. Mas não conseguia entender como o organismo portador da emoção podia tornar-se ciente daquele substrato cerebral” (19)

Definições:

emoção: são o resultado de alterações físicas

sentimento: a sinalização, no cérebro, das emoções (ou das alterações físicas que constituem as emoções)

“Defrontara-me com o obstáculo da consciência. Especificamente, com o obstáculo do self, pois algo como um sentido do self era necessário para produzir os sinais que levam um organismo a ter o conhecimento de que está sentindo uma emoção” (19)

O PROBLEMA DA CONSCIÊNCIA

“Considero o problema da consciência uma combinação de dois problemas […]. O primeiro é entender como o cérebro […] engendra os padrões mentais que denominamos […] as imagens de um objeto […]. Imagem designa um padrão mental em qualquer modalidade sensorial […] Esse primeiro problema da consciência é o problema de como obtemos um “filme no cérebro”” (19/20)

“Vejamos agora o segundo problema da consciência: Como, paralelamente ao engendramento de padrões mentais para um objeto, o cérebro também engendra um sentido do self no ato de conhecer?” (20)

Dá o exemplo da leitura: enquanto leio essas páginas, minha mente exibe, ao mesmo tempo, algo mais, suficiente para indicar que SOU EU quem estou lendo (20)

“Além dessas imagens existe também essa outra presença que significa você, como observador das coisas […] Existe a presença de você em uma relação específica com algum objeto[…] Procurarei mostrar que a forma mais simples dessa presença é também uma imagem, uma imagem do tipo que constitui um sentimento. Dessa perspectiva, a presença de você é o sentimento do que acontece quando seu ser é modificado pelas ações de apreender alguma coisa” (20/21) [ESPINOSA!!!!!]

“A consciência […] é o padrão mental unificado que reúne o objeto e o self” (21) (DEFINIÇÃO)

Definição:

Consciência: padrão mental unificado que reúne o objeto e o self (em relação)

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ABORDAGEM DA CONSCIÊNCIA

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MENTE, COMPORTAMENTO E CÉREBRO

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“A consciência é um fenômeno inteiramente privado, de primeira pessoa […]. A consciência e a mente, porém, vinculam-se estreitamente a comportamentos externos que podem ser observados por terceiras pessoas […] A ciência da mente baseia-se nessa incontestável correlação entre o privado e o público. Felizmente, […] mente e comportamento também se correlacionam estreitamente com as funções dos organismos vivos […] O poder dessa triangulação de mente, comportamento e cérebro é evidente” (22/23)

comenta que O desenvolvimento de novas técnicas permite hoje correlacionar determinado comportamento não só a um correlato mental, mas também a marcadores específicos de estrutura ou atividade cerebral (23)

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REFLEXÕES SOBRE DADOS NEUROLÓGICOS E NEUROPSICOLÓGICOS

“Observações neurológicas e experimentos neuropsicológicos revelam muitos fatos que foram ponto de partida para as ideias aqui apresentadas. O primeiro fato é que alguns aspectos dos processos da consciência podem ser relacionados à operação de regiões e sistemas cerebrais específicos” (24)

“O segundo fato é que a consciência e o estado de vigília, assim como a consciência e a atenção básica, podem ser distinguidos” (25) –

[CONTRARIA BERGSON (a consciência como resultado da contração da tensão), MAS ENCONTRA A PSICANÁLISE (vigília (=percepção) não é igual à consciência)]

“O terceiro fato […] É QUE CONSCIÊNCIA E EMOÇÃO NÃO SÃO SEPARÁVEIS” (25)

“O quarto fato é que a consciência não é um monólito[…]: ela pode ser separada em tipos complexos e simples […]. O tipo mais simples, que denomino CONSCIÊNCIA CENTRAL, fornece ao organismo um sentido de self concernente a um momento – agora – e a um lugar – aqui […]. Por outro lado, o tipo de consciência complexo, que denomino CONSCIÊNCIA AMPLIADA […] fornece ao organismo um complexo sentido do self – uma identidade e uma pessoa – e situa essa pessoa em um ponto do tempo histórico individual” (25)

“A consciência central é um fenômeno biológico simples […], é estável no decorrer da vida do organismo, não é exclusivamente humana e não depende da memória convencional, do raciocínio ou da linguagem […] A consciência complexa […] evolui no decorrer da vida do organismo […] depende da memória convencional e […] também é intensificada pela linguagem” (25)

“A consciência ampliada não é uma variedade independente […]; ela se constrói sobre o alicerce da consciência central. Uma análise cuidadosa de doenças neurológicas revela que a consciência central pode permanecer ilesa mesmo havendo comprometimento da consciência ampliada. Ao contrário, o comprometimento da consciência central destrói todo o edifício da consciência” (26)

“Os dois tipos de consciência correspondem a dois tipos de self. O sentido do self que emerge na consciência central é o SELF CENTRAL, uma entidade transitória, incessantemente recriada para cada objeto com o qual o cérebro interage. Nossa noção tradicional de self, porém, está ligada à ideia de identidade, e corresponde […] ao SELF AUTOBIOGRÁFICO. […] Os dois tipos de self são interrelacionados” (26)

“Um quinto fato: a consciência é muitas vezes explicada simplesmente em termos de outras funções cognitivas, como linguagem, memória, razão […]. Embora essas funções realmente sejam necessárias para que os níveis superiores da consciência operem, […], elas não são necessárias para a consciência central” (26)

“A atenção não é suficiente para a consciência” (27) (v. BERGSON)

“Uma teoria da consciência NÃO deve ser apenas uma teoria sobre como o cérebro cria cenas mentais integradas e unificadas […] Essas cenas não existem no vácuo. Acredito que são integradas e unificadas EM FUNÇÃO da singularidade do organismo” (27)

[LIGAÇÃO ENTRE INTEGRAÇÃO E SELF. WINNICOTT]

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A BUSCA DO SELF

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“só vislumbrei uma solução para o problema do self] depois que comecei a ver o problema da consciência em função de dois atores principais: o organismo e o objeto […] As relações entre organismo e objeto são os conteúdos do conhecimento que denominamos consciência. Vista dessa perspectiva, a consciência consiste em construir um conhecimento sobre dois fatos: um organismo está empenhado em relacionar-se com algum objeto, e o objeto nessa relação causa uma mudança no organismo” (28) [CONSCIÊNCIA COMO CONHECIMENTO, NÃO COMO COMUNICAÇÃO]

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DEFINIÇÃO:

CONSCIÊNCIA: as relações entre organismo e objeto

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“Nessa estrutura, entender a biologia da consciência torna necessário descobrir como o cérebro é capaz de mapear tanto os dois atores como as relações que eles mantêm entre si” (28)

“O problema geral da representação do objeto não é especialmente enigmático” (28)

“Do lado do organismo, porém, a situação é bem diferente” (28)

Dá um exemplo: se tiro os olhos do texto e olho o que tenho à minha frente, numerosas regiões DIFERENTES do cérebro serão ativadas, em virtude das diferentes disposições motoras assumidas pelo organismo; por outro lado, “várias regiões de seu cérebro cuja tarefa é regular o processo da vida […] NÃO MUDARAM NADA. […] O corpo continuou sendo “objeto” todo o tempo […] Porém […] o grau de mudança ocorrida foi ínfimo. Por quê? Porque apenas um reduzido conjunto de estados do corpo é compatível com a vida, e o organismo é geneticamente projetado para manter esse conjunto reduzido” (29)

“Algumas partes do cérebro são livres para perambular pelo mundo […] em contrapartida, outras partes do cérebro, as que representam o próprio estado do organismo, não são livres para perambular” (29)

“Hà várias razões por trás dessa ASSIMETRIA. Primeiro, a composição e as funções gerais do corpo vivo permanecem as mesmas, qualitativamente, durante toda a vida. Segundo […] o estado interno do corpo tem de ser relativamente estável. ][…] Terceiro, esse estado de equilíbrio é governado a partir do cérebro” (29)

ASSIM, É COMO DIZER QUE “o cérebro contém dentro de si uma espécie de MODELO DO TODO” (30)

“CHEGUEI À CONCLUSÃO DE QUE O ORGANISMO, conforme representado no interior do cérebro, é um provável precursor biológico daquilo que finalmente se torna o elusivo sentido do self. As raízes profundas do self […] encontram-se no conjunto de mecanismo cerebrais que de modo contínuo e inconsciente mantém o estado corporal dentro dos limites estreitos […] Denomino PROTO-SELF o estado de atividade no conjunto desses mecanismos”. (30)

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DEFINIÇÃO:

SELF: [a ‘imagem’] resultante do constante mapeamento que o organismo faz de si mesmo visando manter a homeostase

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“ESSA É A QUESTÃO CRUCIAL […] NA ATIVIDADE DE ‘RELACIONAR’ DA CONSCIÊNCIA – o objeto e o organismo – O ORGANISMO É REPRESENTADO NO CÉREBRO […] E ESSA REPRESENTAÇÃO ESTÁ VINCULADA À MANUTENÇÃO DO PROCESSO DA VIDA” (30)

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POR QUE PRECISAMOS DA CONSCIÊNCIA

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“a sobrevivência depende de encontrar e incorporar fontes de energia e de prevenir todos os tipos de situações que ameaçam a integridade dos tecidos vivos […] Sem ações, organismos como o nosso não sobreviveriam […] Sem a orientação das imagens, as ações não nos levariam muito longe […] As imagens permitem-nos escolher entre repertórios de padrões de ação” (31)

“As imagens nos permitem inventar novas ações a serem aplicadas a situações inéditas e fazer planos para ações futuras […] então um mecanismo capaz de maximizar a manipulação eficaz de imagens […] conferiria uma enorme vantagem […] A consciência é precisamente esse mecanismo” (31)

“A inovação pioneira permitida pela consciência foi a possibilidade de ligar o santuário íntimo da regulagem da vida ao processamento de imagens […] foi a possibilidade de fazer com que o sistema regulador da vida […] influenciasse o processamento das imagens que representam as coisas” (31)

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O INÍCIO DA CONSCIÊNCIA

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“Comecei a pensar sobre os mecanismos que o cérebro poderia usar para representar a relação entre objeto e organismo […] Minha teoria é que nos tornamos conscientes quando os mecanismos de representação do organismo exibem um tipo específico de conhecimento – o conhecimento de que o próprio estado do organismo foi alterado por um objeto – quando esse conhecimento ocorre juntamente com a representação realçada de um objeto” (32)

Desde seus mais humildes princípios, consciência é conhecimento, conhecimento é consciência. (33)

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ÀS VOLTAS COM O MISTÉRIO (nada)

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ESCONDE-ESCONDE (34)

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“As vezes usamos nossa mente não para descobrir fatos, mas para encobri-los. Usamos parte da mente como uma tela para impedir outra parte de perceber o que se passa em outro lugar.[…] Uma das coisas que a tela oculta com mais eficácia é o corpo, nosso próprio corpo, e com isso me refiro a seu íntimo, seu interior […], os estados interiores do corpo, aqueles que constituem o fluxo da vida enquanto ela segue” (34) –

[OU SEJA, OS ESTADOS NOS QUAIS SE BASEIA O SELF-CENTRAL]

o caráter vago e intangível das emoções “provavelmente é um sintoma desse fato […] . De outro modo, saberíamos com facilidade que emoções e sentimentos relacionam-se tangivelmente ao corpo” (35)

discute que talvez seja mais vantajoso concentrar nossos recursos nas imagens relacionadas ao “fora”, do que ao estado de nosso próprio corpo, mas que talvez, antigamente, a vida interior tenha sido mais facilmente percebida. Cita como exemplo a sabedoria dos antigos que denominaram o que chamamos de “mente” pela palavra psique, que significava respiração e sangue (35)

“Penso que o fluxo e refluxo de estados internos do organismo […] constitui o pano de fundo para a mente […], o alicerce para o self. Julgo ainda que esses estados internos […] tornam-se SIGNIFICANTES NÃO-VERBAIS da boa ou má qualidade das situações” (35)

“A consciência começa quando os cérebros adquirem o poder […] de contar uma história sem palavras […]. A consciência emerge quando essa história primordial – a história de um objeto alterando de forma causal o estado do corpo – pode ser contada usando o vocabulário não verbal universal dos sinais corporais.” (36)

EM RESUMO: O MAPEAMENTO DO ESTADO CORPORAL CRIA CONSTANTEMENTE UMA ‘NARRATIVA’ (relativa a esse estado), MAS TAMBÉM RELATIVA AOS ENCONTROS COM OS OBJETOS (que alteram o estado do corpo). A CONSCIÊNCIA SERIA, na base, O RELATO TRANSFORMADO (sentido) DESSAS ALTERAÇÕES.

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PARTE 2: SENTIR E CONHECER

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EMOÇÃO E SENTIMENTO

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NOVAMENTE SOBRE A EMOÇÃO

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“À primeira vista, não existe nada caracteristicamente humano nas emoções, pois é claro que numerosas criaturas não humana têm emoções […] Entretanto, […] as emoções vincularam-se a ideias, valores, princípios e juízos complexos que só os seres humanos podem ter, e é nessa vinculação que se baseia nossa sensata percepção de que a emoção humana é especial” (39)

Cita emoções humanas como satisfação de ver justiça sendo feita, horror ao testemunhar sofrimento alheio, o encanto com as palavras de Shakespeare, etc (39)

“É por intermédio” dos sentimentos (que são privados), que “emoções, que são públicas, voltadas para foram, iniciam seu impacto sobre a mente” (39) (é que os sentimentos não tem expressão pública; acontecem na mente, enquanto as emoções tem expressão genérica e automática [em grande parte], por isso é ‘pública’)

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Definição:

emoções: são públicas

sentimentos: são privados

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“Somente em conjunção com o advento de um sentido do self os sentimentos tornam-se CONHECIDOS pelo indivíduo que os tem” (39)

“Estou supondo que um organismo pode representar em padrões neurais e mentais o estado que nós, criaturas conscientes, denominamos sentimento, sem jamais saber que existe sentimento. […] Não há evidência alguma de que temos ciência de todos os nossos sentimento, mas há muitos indícios de que não” (40)

Separa esses fenômenos em três estágios “que fazem parte de um contínuum: um estado de emoção que pode ser desencadeado e executado inconscientemente; um estado de sentimento, que pode ser representado inconscientemente, e um estado de sentimento tornado consciente” (40)

[muito interessante imaginar que a psicanálise pode ter descoberto uma maneira de traduzir os sentimentos que estavam produzindo efeitos, mesmo sendo inconscientes… FREUD, com a teoria da pulsão, se enrolou nesse ponto]

Imagina que muitos animais chegam a formar sentimentos, mas sem SABER que fazem isso (40) (sentimento = sinalização de uma emoção no cérebro; entendo as emoções como análogas aos hormônios)

“A consciência tem de estar presente para que os sentimentos influenciem o indivíduo que os tem, além do aqui e agora imediato” que é relativo apenas ao self-central

“Os sentimentos produzem seus efeitos supremos e duradouros no teatro da mente consciente” (40)

“Chamo a atenção para um fato neurológico curioso: quando a consciência está ausente […] em geral a emoção também está ausente, indicando que, embora emoção e consciência sejam fenômenos diferentes, seus alicerces podem estar ligados” (41)

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EXCURSO HISTÓRICO

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Comenta o pouco espaço que as emoções e os sentimentos receberam na filosofia e nas ciências da mente. Cita Hume, Darwin, William James e Freud como exceções. (41)

“Durante a maior parte do século XX, a emoção não teve espaço nos laboratórios. Dizia-se que era subjetiva demais […] e presumia-se que a razão era totalmente independente da emoção” (42)

“Existem paralelos curiosos à negligência da emoção pela ciência no século XX. Um desses paralelos é a ausência de uma perspectiva evolucionista no estudo do cérebro e da mente. […] Aspectos do cérebro e da mente começaram a ser discutidos como se tivessem sido projetados recentemente, por necessidade […] , sem nenhuma consideração pelos possíveis antecedentes dos mecanismos mentais. […] Outro paralelo está no descaso pela noção de homeostasia” (42)

“As emoções são parte integrante da regulação que denominamos homeostasia” (42)

“Um terceiro paralelo é a ausência notável de uma noção de organismo na ciência cognitiva […] O cérebro foi consistentemente separado do corpo” (42)

Hoje, diz, a coisa mudou. “Estudos em meu laboratório mostraram que a emoção integra os processos de raciocínio e decisão” (43)

(essas descobertas vêm de estudos onde indivíduos até então racionais, perdem partes específicas do cérebro e ficam incapacitados de tomar decisões – e de sentir emoções – também específicas) (43)

“Supus que neles o delicado mecanismo de raciocínio não é mais influenciado […] por sinais provenientes do mecanismo neural subjacente à emoção. Essa suposição é conhecida como hipótese do marcador somático” (43)

“Não sugeri que as emoções são um substituto para a razão, ou que emoções decidem por nós. É óbvio que comoções emocionais podem levar a decisões irracionais” (44)

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O CÉREBRO CONHECE MAIS DO QUE A MENTE CONSCIENTE REVELA

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Relembra que emoções são públicas, sentimentos são privados. “Os mecanismos básicos subjacentes à emoção não requerem a consciência” (44). Entretanto, “a trama de nossa mente e de nosso comportamento é tecida ao redor de ciclos sucessivos de emoções seguidas por sentimentos que se tornam conhecidos e geram novas emoções, numa polifonia contínua que sublinha e pontua pensamentos […] e ações” (45)

Apresenta alguns dados que corroboram a independência das emoções em relação à consciência. Cita o caso de DAVID, que tem um grave distúrbio de memória, e não pode aprender nenhum fato novo; entretanto, quando testado (pesquisadores estressantes x pesquisadores bonzinhos) foi capaz de determinar que preferia consistentemente os bonzinhos, mesmo sem saber (conscientemente) o porque. Para Damásio, quem “escolhe”, nesse caso, são as emoções (45 a 48)

“Não precisamos ter consciência do indutor de uma emoção” (pode ser uma imagem, um acontecimento, a dieta, alterações na composição química, etc). “A alteração teria sido suficientemente substancial para engendrar algumas reações e alterar seu estado físico, mas não teria sido representável por imagem” (48)

“Representações do exterior ou do interior podem ocorrer independentemente de um exame consciência e ainda assim induzir reações emocionais” (48)

(me lembra Freud, que sempre dizia para acreditar nas emoções, que elas não vinham sem razão, etc)

“Podemos controlar, em parte, a expressão de algumas emoções […] O acionamento inconsciente de emoções também explica porque não é fácil imitá-las voluntariamente[…]. Somos tão capazes de impedir uma emoção quanto de impedir um espirro” (49)

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EXCURSO: CONTROLAR O INCONTROLÁVEL (nada; exemplo da pianista que controlava o emocional)

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O QUE SÃO EMOÇÕES? (50)

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“A menção da palavra emoção em geral traz à mente uma das assim chamadas emoções primárias ou universais: alegria, tristeza, medo, raiva, surpresa ou repugnância.” (50)

Existem outras emoções, como as “emoções secundárias ou sociais, como embaraço, ciúme, culpa ou orgulho, e também o que denomino emoções de fundo, como bem-estar ou mal-estar, calma ou tensão” (51)

Um núcleo biológico comum fundamenta todos esses fenômenos, e pode ser descrito como:

“Emoções são conjuntos complexos de reações químicas e neurais, formando um padrão; todas as emoções têm algum tipo de papel regulador a desempenhar […] as emoções estão ligadas à vida de um organismo, a seu corpo” (51)

“Mesmo sendo verdade que o aprendizado e a cultura alteram a expressão das emoções [….elas são] processos determinados biologicamente” (51)

“Os mecanismos produtores de emoções […] são parte de um conjunto de estruturas que regulam e representam estados corporais” (51)

“Todos os mecanismos podem ser acionados automaticamente, sem uma reflexão consciente” (51)

“Todas as emoções usam o corpo como teatro […] mas as emoções também afetam o modo de operação de inúmeros circuitos cerebrais […] O conjunto dessas mudanças constitui o substrato para os padrões neurais que, em última instância, se tornam sentimentos de emoção” (51)

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DEFINIÇÃO:

EMOÇÃO: conjuntos complexos de reações químicas e neurais [reações à alterações no panorama do corpo, cf definiçao anterior], formando um padrão, que desempenha um papel regulador

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“Os indutores de emoções de fundo são geralmente internos. Os próprios processos de regulação da vida podem causar emoções de fundo, mas estas também podem ter como causa processos contínuos de conflito mental […]na medida em que esses processos acarretam a satisfação ou a inibição constantes de impulsos e motivações” (51/2)

“Nas emoções de fundo, as reações constitutivas estão mais próximas do núcleo íntimo da vida, e seu alvo é mais interno do que externo. Nelas, o principal papel é desempenhado pelos perfis do meio interno e das vísceras. […] em geral as emoções de fundo são comprometidas quando o nível básico de consciência também é comprometido” (52)

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A FUNÇÃO BIOLÓGICA DAS EMOÇÕES

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“Há indícios de que a maioria das reações emocionais, se não todas, resulta de uma longa história de minuciosos ajustes evolutivos” (52)

“A função biológica das emoções é dupla. A primeira é a produção de uma reação específica à situação indutora. Em um animal, por exemplo, a reação pode ser correr, imobilizar-se, lutar […]. A segunda função biológica da emoção é a regulação do estado interno do organismo de modo que ele possa estar preparado para a reação específica” (53)

“O ‘propósito’ biológico das emoções é claro, e as emoções não são um luxo dispensável. […]” As emoções situam-se entre o kit de sobrevivência básico e os mecanismos do raciocínio superior. (53)

“Em seu nível mais básico, as emoções são parte da regulação homeostática, sendo mobilizadas para conservar a integridade […] Além disso, como consequência de poderosos mecanismos de aprendizado, como o condicionamento, emoções de todas as gradações acabam por ajudar a ligar a regulação homeostática e os ‘valores’ de sobrevivência a muitos eventos e objetos de nossa experiência” (53)

“Em organismos equipados com consciência […] a consciência permite que os sentimentos sejam conhecidos e, assim […] permeie o processo de pensamento” (54)

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INDUÇÃO DE EMOÇÕES

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As emoções podem ser induzidas pela percepção de determinados objetos ou pela lembrança de objetos e situações (55)

“Estou admitindo uma variação considerável […] nos tipos de estímulo que podem induzir uma emoção […] Com toda a probabilidade, o desenvolvimento e a cultura […] moldam o que constitui um indutor adequado de uma dada emoção […]; moldam alguns aspectos da expressão da emoção; terceiro, moldam a cognição e o comportamento decorrentes da mobilização de uma emoção” (55)

“A possibilidade de atribuir um valor emocional a objetos não definidos biologicamente para tanto faz com que a série de estímulos que potencialmente podem induz emoções seja infinita. De um modo ou de outro, a maioria dos objetos e situações conduz a alguma reação emocional” (56)

“A emoção […é] o acompanhamento obrigatório do COMPORTAMENTO, consciente ou não” (56)

“A onipresença da emoção […] vincula quase todos os objetos […] aos valores fundamentais da regulação homeostática” (56)

A indução de emoção pode ser “negativa”, qdo, por exemplo, um animal encontra comida mas é impedido de comer – o corte abrupto da alegria antevista CAUSA tristeza, raiva, frustração. (56/7)

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A MECÂNICA DA EMOÇÃO

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As reações que compõem as emoções são variadas. Vão desde configurações dos músculos da face até mudanças nos vasos sanguíneos, pele, coração, secreção de hormônios, liberação de neurotransmissores… (57)

“Emoções diferentes são produzidas por sistemas cerebrais diferentes. […] O cérebro induz emoções a partir de um número notavelmente reduzido de sítios corticais […] esses sítios participam de graus variados do processamento de diferentes emoções […] alguns desses sítios também tomam parte no RECONHECIMENTO de estímulos significativos de certas emoções “ (58)

Conta o exemplo de “S”, uma paciente que perdeu a capacidade de sentir medo, a partir de uma calcificação de ambas as amígdalas. A perda dessa emoção interferia em sua atitude social – era um pouco “dada demais”, segundo observadores, e não sabia proteger-se em situações sociais difíceis. Conclui que a emoção tem uma importância fundamental no governo dos seres humanos. (58/63)

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COMO TUDO FUNCIONA (63)

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“Em uma emoção típica, certas regiões do cérebro […] enviam comandos a outras regiões do cérebro e a quase todas as partes do corpo. Os comandos seguem duas rotas. Uma delas é a corrente sanguínea, para onde os comandos são enviados na forma de moléculas químicas […] A outra consiste em vias de neurônios” (63)

“O resultado desses comandos químicos e neurais coordenados É UMA MUDANÇA GLOBAL NO ESTADO DO ORGANISMO” (64)

Para que essa emoção seja conhecida, é preciso ainda que essas mudanças corporais sejam transformadas em imagens no cérebro (isso é o SENTIMENTO) e que todas essas mudanças sejam percebidas pela consciência central. (64)

Cita o exemplo de um filhote de passarinho no ninho, que reage ao estímulo de perceber ‘alguma coisa’ voando sobre ele se abaixando e ficando imóvel; esse comportamento, induzido por uma emoção (medo) pode lhe salvar de um gavião, que não o vê (65)

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UMA DEFINIÇÃO MAIS PRECISA DE EMOÇÃO: UM EXCURSO

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A dor não pode ser considerada uma emoção. “Ela é consequência de um estado de disfunção local em um tecido vivo […] que pode por si mesmo induzir emoções. Em outras palavras, emoções podem ser causadas pelo mesmo estímulo que origina a dor, porém ambas são resultados diferentes de uma mesma causa” (66/67)

Ter conhecimento de que sofremos uma lesão ocorre DEPOIS que os padrões neurais da lesão são exibidos, através do entrelaçamento desses padrões com os padrões neurais que representam “você” (67/68)

[ou seja, é possível ter uma lesão – sentir dor – MAS NÃO TER CONSCIÊNCIA DISSO, ou sofrer menos com a dor, o que parece ser o caso em muitos animais]

Cita o exemplo de um paciente com uma nevralgia no trigêmeo, que sofria muito com o menor estímulo (estava sempre tenso, na defensiva, etc). Foi feita uma cirurgia que lhe tirava as emoções associadas à dor; então ele percebia que elas continuavam, mas isso não lhe incomodava mais. Era outra pessoa, mais calmo, tranquilo (68/69)

“O prazer é uma emoção? Novamente, eu preferiria dizer que não, embora o prazer esteja […] intimamente relacionado à emoção. […] comumente o prazer é iniciado pela detecção de um desequilíbrio, como, por exemplo, baixa concentração de açúcar no sangue […] O desequilíbrio acarreta o estado de fome […] que, por sua vez, ocasiona certos comportamentos relacionados […] que leva aos atos finais de comer ou beber. […] O estado prazeroso pode ter início durante o processo de busca, com uma antevisão do objetivo efetivo da busca” (70/71)

“O que se deve frisar aqui é […] que um não é a imagem invertida do outro. São estados fisiológico diferentes e assimétricos […] No caso da dor, o problema consiste em lidar com a perda de integridade de um tecido vivo […] No caso do prazer, o problema é nortear um organismo por atitudes e comportamentos que levem à manutenção de sua homeostase. […] A dor não previne um novo dano […] ela protege o tecido lesado, facilitando seu reparo” (71)

“Dor e prazer são parte de duas genealogias diferentes da regulação da vida. […] A punição leva os organismos a retrair-se […] A recompensa leva os organismos a descontrair-se, tornar-se receptivos” (71/72)

[Comparar com a noção de prazer que MEZAN apresenta em “A ilha dos segredos” – O Tronco e os ramos]

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O SUBSTRATO PARA A REPRESENTAÇÃO DE EMOÇÕES E SENTIMENTOS

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“O substrato para a representação de emoções é um conjunto de disposições neurais em várias regiões do cérebro localizadas principalmente nos núcleos subcorticais do tronco cerebral […] A LOCALIZAÇÃO desses agrupamentos condiz com o fato de essas representações serem implícitas, dormentes, não estarem disponíveis à consciência” (72)

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A CONSCIÊNCIA CENTRAL

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O ESTUDO DA CONSCIÊNCIA

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“Embora em certa medida estejamos condenados a estudar a consciência por vias indiretas, essa limitação não se restringe à consciência. Aplica-se a todos os demais fenômenos cognitivos” (74)

“A consciência ocorre no interior de um organismo e não em público, mas se associa a várias manifestações públicas” (74)

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A MÚSICA DO COMPORTAMENTO E AS MANIFESTAÇÕES EXTERNAS DA CONSCIÊNCIA

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“Sabemos que em um estado de consciência normal os organismos estão despertos, atentos aos estímulos de seu ambiente, comportando-se de modo adequado ao contexto” (77)

“Pode ser útil conceber o comportamento de um organismo como a execução de uma peça musical para orquestra cuja partitura está sendo inventada à medida que a música se desenvolve […] O comportamento de um organismo é resultado de vários sistemas biológicos atuando simultaneamente” (78)

“O estado de vigília, a emoção de fundo e a atenção básica estarão presentes continuamente” (78)

“Imagine agora a aplicação dessa metáfora à mente da pessoa cuja atuação estamos observando. SUponho que também existe uma partitura orquestral na mente privada, só que nesse caso os agrupamentos […] correspondem a fluxos mentais de imagens. Esses fluxos são, em grande medida, a contrapartida interna e cognitiva dos comportamentos” (78)

“Contudo, há um trecho da partitura orquestral interna para o qual não existe uma contrapartida externa precisa: é o sentido do self” (79)

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ESTADO DE VIGÍLIA

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“O estado de vigília e a consciência tendem a andar juntos […] Uma exceção ocorre quando estamos no estado de sono com sonhos [… nesse estado] temos alguma consciência dos eventos que estão ocorrendo na mente” (79/80)

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ATENÇÃO E COMPORTAMENTO INTENCIONAL

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“A atenção voltada para um objeto externo indica em geral presença de consciência […] A atenção só acusa a presença de consciência normal quando pode ser MANTIDA durante um longo período. […] A ausência de atenção manifesta […] pode indicar que a atenção está voltada para um objeto interno. […] A falha de atenção está associada à dissolução da consciência. […] A meu ver, consciência e atenção ocorrem em níveis e gradações, não são monólitos e se influenciam mutuamente em uma espécie de espiral ascendente” (80/81)

“As emoções de fundo […] fundamentam continuamente as ações do indivíduo […] Mesmo quando o sujeito observado fala, os aspectos emocionais da comunicação são separados do conteúdo das palavras” (81/82) (Dá um exemplo: posso dizer com indiferença: “que bom ver você!”)

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O ESTUDO DA CONSCIÊNCIA POR SUA AUSÊNCIA

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“A CONTINUIDADE da consciência normal requer uma breve lembrança” (83)

“As variedades mais extremas de comprometimento da consciência – coma, estado vegetativo […] proporcionam poucas oportunidades para análises do comportamento […] Presume-se também que quase todas as manifestações internas na ‘partitura cognitiva’ são igualmente abolidas” (84)

Dá exemplos e descrições de crises de ausência (sintoma de crise epiléptica), seguidas de automatismos (84/86) Ressalta que nesses automatismos permanece a capacidade para se relacionar com objetos (formar padrões neurais deles e agir de acordo), embora sem consciência ou senso de self

“ouso supor que a ausÊncia de emoção é um correlato confiável do comprometimento da consciência central, assim como, talvez, a presença de algum grau de emoção contínua é praticamente sempre associada ao estado consciente […] No sono com sonhos […] é fácil detectar expressões emocionais em animais e seres humanos” (87)

Comenta o exemplo de “L”, que teve derrame e comprometimento de algumas áreas cerebrais, causando mutismo acinético, durante o qual não se movia, não aparentava ter emoções (nem consciência) nem, tampouco, atividade cerebral consciente. Nesse caso, ele diz que a paciente poderia tranquilamente ter movido uma perna, por exemplo, se tivesse uma mente consciente para formular um plano e comandar um movimento. E era isso que faltava (88/90)

“Em estágios avançados da doença de Alzheimer, a consciência de alguns pacientes também é comprometida […] O declínio afeta primeiro a consciência ampliada, restringindo progressivamente seu campo de ação, até o ponto em que praticamente desaparecem todas as manifestações do self autobiográfico” (90)

Uma conclusão do estudo desses casos é que quase todos os sítios cerebrais vinculados à consciência-central “ocupam uma posição curiosamente “central”. Essas estruturas são evolutivamente muito antigas, existem em inúmeras espécies não humanas e amadurecem logo no início do desenvolvimento humano individual” (92)

[ou seja, talvez o feto já tenha algum tipo de sentimento de si -]

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O VAGO SINAL

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LINGUAGEM E CONSCIÊNCIA

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“Quando ainda era estudante […] lembro de ter perguntado […] como se produzia em nós a mente consciência. Curiosamente, sempre ouvia a mesma resposta: ela é produzida pela LINGUAGEM. […] A consciência era uma interpretação verbal de processos mentais correntes” (93) Diz nunca ter acreditado nessa resposta.

“Se a linguagem trabalha para o self e para a consciência […] simbolizando em palavras e sentenças o que existe primeiro em uma forma não verbal, então devem existir um self não verbal e um conhecimento não verbal” (93)

Reconhece que a linguagem contribui para a consciência ampliada, mas não é necessária para a central (94)

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SE VOCÊ TIVESSE TODO AQUELE DINHEIRO: COMENTÁRIOS SOBRE LINGUAGEM E CONSCIÊNCIA

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Estudando pacientes com distúrbios de linguagem, percebeu os processos de pensamento e a consciência continuavam intactos. “E, fato igualmente importante, a emoção está presente” (94)

Cita casos de afasia global, onde há comprometimento de todas as faculdades da linguagem (94) e também pacientes que tiveram retirado TODO O HEMISFÉRIO ESQUERDO DO CÉREBRO – junto com as áreas de Broca e de Wernicke (as áreas responsáveis pela linguagem). Os pacientes continuaram com consciência e processos de pensamento aparentemente normais, embora com as dificuldades de não poder reconhecer / utilizar a linguagem (95/97)

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MEMÓRIA E CONSCIÊNCIA

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“A memória convencional também pode ser isentada de qualquer papel na CRIAÇÃO da consciência central […] embora vastos repositórios autobiográficos contribuam para os níveis avançados de consciência.” (97)

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NADA VEM À MENTE

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Cita o caso de DAVID, já mencionado na introdução. Impressionante como, embora tendo consciência de self e processos de pensamento, ele ficou prejudicado por não ter memória de longo prazo (consegue reter apenas cerca de 45 segundos de memória de curto prazo – e não registra nada disso; assim, pode conversar com você normalmente mas, dali a 3 minutos, não sabe quem você é. Além disso não tinha mais memória para informações específicas, só genéricas, como se Houvesse uma memória para ‘categorias’ na mente (97 / 100)

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A CONSCIÊNCIA DE DAVID

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“David apresenta todos os requisitos para a consciência central. Em primeiro lugar, o estado de vigília […] ele dorme regularmente e seu sono contém a parcela esperada de sono REM” – onde ocorrem os sonhos E a consciência – […] A atenção de David pode ser focalizada e mantida no decorrer de períodos substanciais […] por exemplo, ele pode jogar uma partida inteira de damas – e ganhar! […] As emoções de fundo fluem continuamente […] Finalmente, seu comportamento espontâneo é intencional” (100/101)

“Nos limites do intervalo temporal de sua memória de curto prazo – aproximadamente 45 segundos – há tempo suficiente para gerar consciência central sobre muitas coisas [… mas] a mente de David difere da nossa na especificidade de seus conteúdos […] A ausência absoluta de conteúdo específico compromete sua capacidade de relacionar a apreensão de um determinado objeto a um panorama abrangente de sua pessoa histórica” (102)

“Tudo indica que ele tem um sentido do self normal, no aqui e agora, mas que sua memória autobiográfica foi reduzida a um esqueleto, e assim o self autobiográfico […] é severamente depauperado. E, decorrência dessa escassez de coisas específicas, a consciência ampliada de David está comprometida” (102)

David “também não pode acessar os aspectos da consciência ampliada relacionados à cognição e ao comportamento social. A assimilação complexa das situações sociais é construída com base em um vasto conhecimento sobre situações sociais específicas” (103)

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JUNTANDO ALGUNS FATOS

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Retorna aqueles pontos que já apresentou no início. A consciência pode ser separada em tipo simples e complexo (central e ampliada), é possível separar a consciência de memória, linguagem, atenção, etc; emoção e consciência central estão claramente associadas. Conclui que a consciência central “é o próprio fundamento, o sentido puro e simples de nosso organismo individual no ato de conhecer” (104/106)

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O VAGO SINAL

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“A concepção de consciência que adoto aqui vincula-se historicamente às de pensadores tão diversos quanto Locke, Brentano, Kant, Freud e William James […] Para a visão que adoto aqui, a consciência também se coaduna com as propriedades fundamentais delineadas para ela por William James: ela é seletiva, contínua, diz respeito a outros objetos, não a si própria, e é pessoal” (107)

“A consciência central é gerada de modo pulsante, para cada conteúdo do qual devemos estar conscientes […] Chega-se a esse conhecimento […] instantaneamente: não existe um processo perceptível de inferência […] e nenhuma palavra” (107)

leva um certo tempo para gerar consciência. POr isso, “Sempre estamos irremediavelmente atrasados ao gerar a consciência, mas, como todos sofremos da mesma morosidade, ninguém a nota” (108)

“As imagens que constituem o conhecimento e o sentido do self […] não dominam o centro do palco em sua mente. Elas influenciam a mente de modo soberano, mas apesar disso permanecem geralmente em segundo plano; são discretas” (109)

Argumenta que, em qualquer momento, existe provavelmente um grande número de imagens das quais não temos consciência, mas que são processadas pelo cérebro. Acrescenta que é vantajoso para a pessoa não se notar no ato de conhecer, liberando assim capacidade de ‘processamento’ para o mundo externo. Nâo podemos não ter self-central (109/110)

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PARTE 3: BIOLOGIA DO CONHECIMENTO

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O ORGANISMO E O OBJETO

O CORPO COMO SUSTENTÁCULO DO SELF

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“Embora muito se tenha descoberto sobre como o organismo é representado no cérebro, a ideia de que essas representações poderiam estar ligadas à mente e à noção do self tem recebido pouca atenção” (113)

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A NECESSIDADE DE ESTABILIDADE

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Argumenta que a estabilidade é fundamental para o self. nao que ele seja uma entidade imutável, “e sim que ele deve possuir um grau notável de invariância estrutural para que consiga oferecer uma CONTINUIDADE DE REFERÊNCIA no decorrer de longos períodos” (114)

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O MEIO INTERNO COMO PRECURSOR DO SELF

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“A consciência foi bem-sucedida na evolução precisamente por sustentar a vida de um modo admirável” (115)

“Uma chave para compreendermos os organismos vivos […] é a definição de sua FRONTEIRA, a separação entre o que está dentro deles e o que está fora. A estrutura do organismo está dentro da fronteira, e a vida do organismo é definida pela manutenção dos estados internos à fronteira […] É fascinante pensar que a constância do meio interno é essencial para manter a vida E que ela pode ser uma diretriz e uma âncora para o que, na mente, finalmente virá a ser um self” (115)

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ALGO MAIS SOBRE O MEIO INTERNO

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“O ímpeto de manter-se vivo não é um avanço recente. Não é uma propriedade exclusiva dos seres humanos” (115)

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AO MICROSCÓPIO

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Descreve o esforço que existe a nível celular para MANTER O MEIO INTERNO. Cita Claude Bernard, que concluiu que “para que a vida independente tenha continuidade, o meio interno tem de ser estável” (117)

“O impulso involuntário e inconsciente para continuar vivo revela-se no interior de uma simples célula em uma operação complexa que requer que se ‘sinta’ o estado da composição química no meio interno e que exige um ‘conhecimento inconsciente’, involuntário, do que fazer, quimicamente falando […] Se esses requisitos lhe parecem uma descrição de funções importantes do cérebro, você está correto […] A vida e o ímpeto de viver nos limites da fronteira que circunscreve um organismo precedem o surgimento de sistemas nervosos, ou de cérebros. Mas, quando entram em cena, os cérebros ainda se dedicam à vida, e efetivamente preservam e expandem a capacidade de perceber o estado interno. (117)

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A GESTÃO DA VIDA (117)

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“Organismos simples e meios propícios podem requerer pouco conhecimento e nenhum planejamento para que reajam adequadamente […] Em contrapartida, organismos complexos situados em meios complexos requerem vastos repertórios de conhecimentos” (117/118)

“O mecanismo necessário para executar tarefa tão exigentes é complexo e demanda um sistema nervoso […] O controle das emoções […] é parte desse conjunto de disposições. Vários tipos de sensores também são necessários”; eles devem ser capazes de detectar sinais do mundo externo e do mundo interno (corpo) (118)

“O problema não é apenas quantitativo. É preciso uma nova estratégia, e a natureza tornou-a possível ao desenvolver dois esquemas anatômicos e funcionais. O primeiro consiste em CONECTAR as estruturas cerebrais necessárias ao gerenciamento da vida […] O Segundo esquema consiste em suprir essas regiões gerenciadoras com sinais continuados, originários de todas as partes do organismo” (118)

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PORQUE AS REPRESENTAÇÕES DO CORPO SÃO BONS INDICADORES DA ESTABILIDADE?

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“As representações do corpo são bons indicadores da estabilidade” por sua notável constância em termos de estrutura e operações. Ao longo de toda a vida “a organização do corpo permanece alterada”. (119)

Os estados do meio interno do organismo variam pouco, para permanecerem compatíveis com a vida. Respeitar os limites de variação é tão imprescindível que o organismo nasce equipado com um sistema de regulação automática. Conclui que, em meio às mudanças nas quais está inserido, o organismo sempre pode encontrar constância NOS DISPOSITIVOS REGULADORES da vida (119)

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UM CORPO, UMA PESSOA: AS RAÍZES DA SINGULARIDADE DO SELF

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“Podemos nunca ter dado importância a essa relação simples, mas é assim que é: uma pessoa, um corpo; uma mente, um corpo. […] Porque não poderíamos encontrar duas ou três pessoas em um corpo? Seria uma bela economia de tecido biológico […] a razão sensata disso é que uma mente, aquilo que define uma pessoa, requer um corpo. […] A mente é tão estritamente moldada pelo corpo e destinada a servi-lo que somente uma mente poderia surgir nesse corpo” (120)

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A INVARIÂNCIA DO ORGANISMO E A IMPERMANÊNCIA DA PERMANÊNCIA

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“É espantoso descobrir que a estabilidade aparentemente inabalável que subjaz à uma mente única e a um self único é, em si mesma, efêmera, sendo continuamente reconstruída no âmbito das células […] Os ciclos de morte e nascimento repetem-se muitas vezes ao longo de nossa existência – algumas células de nosso corpo sobrevivem apenas uma semana, a maioria não mais de um ano” (121)

Assim como o organismo é reconstruído continuamente, “a cada momento o cérebro reconstrói o sentido do self […] Nosso sentido do self é um ESTADO do organismo” (122)

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AS RAÍZES DA PERSPECTIVA INDIVIDUAL, DA PROPRIEDADE E DA CONDIÇÃO DE AGENTE

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“Tudo o que ocorre em sua mente se dá em um tempo e em um espaço relativos ao instante no tempo em que seu corpo se encontra e à região do espaço ocupada por ele […] Seu corpo é sempre a referência” (122)

Dá o exemplo de uma pessoa atravessando a rua; vem um carro em alta velocidade; a cena é processada no cérebro muito antes de a pessoa ter CONSCIÊNCIA da situação – pelo proto-self -, mas já há uma adaptação do corpo para melhor perceber o que se passa, emoções podem surgir, preparando uma reação (como o medo); uma terceira pessoa observará a cena desde SUA perspectiva, mas sentirá coisas parecidas. Tudo para dizer que a adaptação do corpo ao instante presente dá a perspectiva à mente. “Eu diria que a perspectiva é construída de maneira contínua e irrevogável pelo processamento de sinais provenientes de várias fontes” (123)

Ainda no exemplo do carro – “A presença de todos esses sinais […] descreve tanto o objeto à medida que este ganha vulto ao aproximar-se do organismo como uma parte da reação do organismo EM DIREÇÃO ao objeto […] Não existe percepção pura de um objeto em um canal sensorial, por exemplo, a visão. As mudanças simultâneas que acabei de descrever NÃO são um acompanhamento opcional. Para PERCEBER um objeto […] o organismo requer TANTO os sinais sensoriais especializados COMO os sinais provenientes do ajustamento do corpo” (124)

[ou seja, a adaptação do corpo ‘em direção’ ao objeto JÁ É parte fundamental da percepção dele – Bérgson]

“A afirmação também continua válida quando você está simplesmente pensando em um objeto, não o percebendo de fato no mundo exterior ao seu organismo. Eis por quê: os registros que mantemos dos objetos e eventos percebidos em determinada ocasião incluem os ajustamentos motores que fizemos para obter a percepção da primeira vez, assim como as reações emocionais que tivemos então” (124)

Conclui: “A perspectiva assumida […] é a de seu organismo, pois ela é traçada com base nas modificações sofridas por seu organismo […] Quanto ao senso de que essas imagens são propriedade sua e ao senso de que você pode agir relativamente a essas imagens, elas também são consequência direta das maquinações que criam a perspectiva” (124)

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O MAPEAMENTO DOS SINAIS DO CORPO

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“Descobriu-se […] que o sistema somatossensitivo […] é uma combinação de vários subsistemas, e cada um destes transmite ao cérebro sinais sobre o estado de aspectos muito diferentes do corpo” (125)

Propõe a separação dessas sinalizações em 03 grandes divisões: a divisão do meio interno e visceral, a divisão vestibular e musculoesquelética e a divisão do tato discriminativo. […] A primeira divisão […] permanece sempre ativa, está sempre sinalizando para o cérebro o estado dos aspectos internos do corpo [… ela] está incumbida de perceber as mudanças no meio químico das células […] Esses sinais criam, a cada momento, muitos mapas do meio interno, em número equivalente às dimensões de nosso interior que podem ser medidas […] e existem muitas dimensões” (126)

Essa primeira divisão também sinaliza o estado dos músculos lisos (involuntários), como o dos vasos sanguíneos (incluídos os vasos da pele, que controlam nossa temperatura, etc) (127)

A segunda divisão comunica ao cérebro o estado dos músculos voluntários, formando numerosos mapas dos aspectos do corpo que eles descrevem; a terceira comunica as sensações do tato discriminativo (128/129)

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O SELF NEURAL

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“Minha suposição é que o sentido do self tem um precedente biológico pré-consciente, o proto-self […] O proto-self é um conjunto coerente de padrões neurais que mapeiam, a cada momento, o estado da estrutura física do organismo […] Nâo somos conscientes do proto-self. A linguagem não é parte da estrutura do proto-self. O proto-self não tem capacidade de percepção e não tem conhecimento […] O proto-self não ocorre em um só lugar; emerge dinâmica e continuamente de vários sinais em interação […] É importante resistir a todo custo à visão frenológica” (129)

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ESTRUTURAS CEREBRAIS NECESSÁRIAS PARA IMPLEMENTAR O PROTO-SELF

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Vários núcleos do tronco cerebral; o hipotálamo; o prosencáfalo basal; o córtex insular; os córtices S2 e os córtices parietais mediais

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ESTRUTURAS CEREBRAIS QUE NÃO SÃO NECESSÁRIAS PARA IMPLEMENTAR O PROTO-SELF

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Cita várias partes, incluíndo hipocampo e cerebelo

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ALGO A SER CONHECIDO

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O proto-self é a representação ‘de primeira ordem’, como ele fala, do estado do corpo; fornece, assim, as raízes do self. Agora vai falar do objeto. (133)

“aspectos variados de um objeto – por exemplo, sua forma ou sua cor, o movimento ou os sons que ele produz – são trabalhados de um modo relativamente segregado por regiões corticais […] É possível que algum tipo de processo neural integrativo ajude a gerar […] a imagem integrada que experimentamos […] Sabemos que a mesma região global alicerça a produção de imagens na percepção […] e na evocação” (133)

Dado um objeto real a ser percebido, ele provoca “um conjunto de ajustes motores necessários para que se continue a reunir sinais sobre o objeto, bem como reações emocionais […] Em outras palavras, a implementação do algo a ser conhecido [do objeto] é inevitavelmente acompanhada por um efeito complexo sobre o proto-self” (134)

No caso de um objeto evocado, e não percebido, sabe-se que “essas memórias […] incluem registros não apenas dos aspectos sensoriais do objeto […] mas também dos ajustamentos motores que necessariamente acompanharam a reunião dos sinais sensoriais […] Em consequência […] quando evocamos um objeto, evocamos não apenas características sensoriais de um objeto real, mas as reações a esse objeto que tivemos no passado […] Essa distinção permite que os objetos memorizados engendrem consciência central da mesma maneira que os objetos realmente percebidos” (134)

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NOTAS SOBRE OS DISTÚRBIOS DO ALGO A SER CONHECIDO

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Em distúrbios perceptivos (cegueira, surdez, etc) o objeto não pode mais ser representado, “e não modifica o proto-self. Em consequência, não há consciência central decorrente” (135)

Em distúrbios do tipo AGNOSIA, a pessoa perde a capacidade de conjurar na memória o tipo de conhecimento pertinente a um determinado objeto. A agnosia ocorre em associação com modalidades sensoriais: pode ser agnosia visual (e a pessoa não pode usar as memórias), auditiva, etc (135)

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DEVE SER EU, POIS ESTOU AQUI

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Conta o caso de Emily, que tinha agnosia visual, e vendo seu reflexo no espelho, ‘deduzia’ que era ela, mas não reconhecia – assim como não reconhecia pessoas próximas. Reconhecia com facilidade, entretanto, sua voz. “Quando um paciente com agnosia facial deixa de reconhecer o rosto familiar que está diante dele e afirma nunca ter visto aquela pessoa […], o conhecimento pertinente não está sendo mobilizado […], mas a consciência central permanece intacta. […] Seu problema não é de consciência, mas de memória”, tanto que a pessoa percebe que é um rosto, e que inclusive deveria reconhecê-lo – mas não tem a memória disponível. (135/137)

Cita um experimento aonde mostraram a um paciente em coma rostos conhecidos; uma específica ‘área da face’ acendeu-se em um exame de tomografia – como ocorre com pessoas em estado normal- , mesmo que não houvesse propriamente consciência do objeto. (138)

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A PRODUÇÃO DA CONSCIÊNCIA CENTRAL

O NASCIMENTO DA CONSCIÊNCIA

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Repete o mote central: “Tornamo-nos conscientes quando internamente nosso organismo constrói e exibe um tipo específico de conhecimento sem palavras – o conhecimento de que nosso organismo foi mudado por um objeto – e quando esse conhecimento ocorre junto com a exibição interna destacada de um objeto” (140)

Apresenta a noção de que há mapas de ‘segunda ordem’: os de primeira ordem representam a mudança causada NO ORGANISMO pelo objeto, e os de segunda ordem representam A RELAÇÃO entre organismo e objeto (através das mudanças que a própria percepção de primeira ordem fez no organismo) (141)

“O organismo é representado pelo proto-self […] O relato descreve a relação entre o proto-self em mudança e os mapas sensório-motores do objeto que causam essas mudanças […] O mapeamento das consequências relacionadas ao objeto ocorre em mapas neurais de primeira ordem […]o relato da relação causal entre objeto e organismo somente pode ser captado em mapas neurais de segunda ordem” (141)

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VOCÊ É A MÚSICA ENQUANTO ELA DURA: O SELF CENTRAL TRANSITÓRIO

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“A primeira base para o VOCÊ consciente é um sentimento que surge na ‘re-representação’ do proto-self NO PROCESSO DE SER MODIFICADO […] você mal nota a narração da história porque as imagens que dominam a exibição mental são as das coisas das quais você está consciente […] e não aquelas que rapidamente constituem o sentimento de si” (143)

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ALÉM DO SELF CENTRAL TRANSITÓRIO: O SELF AUTOBIOGRÁFICO

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O self-central emerge rápido e transitório para CADA OBJETO com que o corpo se relaciona. Mas “algum resíduo permanece após muitos surgimentos efêmeros do self central. Em organismos complexos como o nosso, equipados com vastas capacidades de memória, os momentos fugazes de conhecimento em que descobrimos nossa existência […] podem ser registrados na memória […] A consequência dessa complexa operação de aprendizado é o desenvolvimento da memória autobiográfica […] Podemos remodelar essa memória no decorrer da vida. Quando certos registros pessoais se explicitam em imagens reconstituidas, […] eles se tornam o self autobiográfico.” (143)

“A estabilidade do proto-self […] e o self central, são enriquecidos pela exibição associada de fatos memorizados e invariáveis” (144)

[aqui entendo que ele ABRE MARGEM PARA QUE A EXPERIÊNCIA MODIFIQUE – em alguma medida – MESMO AS CAMADAS MAIS ORGÂNICAS DA CONSCIÊNCIA, através da memória]

Essas memórias autobiográficas, que ele chama de memórias dispositivas implícitas, pq não estão lá, mas podem ser chamadas (tornando-se explícitas) “Constitui um pano de fundo para cada momento de uma vida mental sadia, geralmente despercebido” (144)

“suponho que nas fases iniciais de nossa vida existe pouco mais do que estados reiterados do self central. Porém, à medida que a experiência se acumula, a memória autobiográfica cresce e o self autobiográfico pode ser mobilizado” (145)

[como pensava Winnicott]

“Os conteúdos do self autobiográfico somente podem ser conhecidos quando ocorre uma nova construção do self central” – ou seja, quando há uma relação com um objeto que modifica o organismo – “ Um paciente em pleno paroxismo de um automatismo epiléptico não destruiu sua memória autobiográfica, mas não é capaz de acessar seu conteúdo” (145)

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MONTAGEM DA CONSCIÊNCIA CENTRAL

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“Concebo a consciência central como criada em pulsos, cada pulso sendo individualmente desencadeado pelos objetos com que interagimos […] A continuidade da consciência baseia-se na geração constante de pulsos de consciência” (146)

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A NECESSIDADE DE UM PADRÃO NEURAL DE SEGUNDA ORDEM

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A percepção das mudanças causadas no organismo por um objeto – que constitui o relato do proto-self – “requer seu próprio processo e sua própria base neural […] Desconfio porém que existam várias estruturas no cérebro humano com capacidade de gerar um padrão neural de segunda ordem” (146/7)

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ONDE ESTÁ O PADRÃO NEURAL DE SEGUNDA ORDEM?

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“Minha melhor hipótese é que o padrão neural de segunda ordem surge transitoriamente de INTERAÇÕES entre algumas regiões específicas” (148)

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AS IMAGENS DO CONHECIMENTO

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“O primeiro uso do relato imagético da relação entre organismo e objeto é informar o organismo sobre o que ele está fazendo […] um uso secundário imediato é gerar MAIS estado de vigília […] e atenção MAIS focalizada no objeto […] A consciência resulta no realce do o estado de vigília e na focalização da atenção” (151)

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CONSCIÊNCIA DE OBJETOS PERCEBIDOS E DE PERCEPÇÕES PASSADAS EVOCADAS

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“quando você pensa em um objeto […] isso basta para alterar o proto-self de um modo muito semelhante ao que descrevi para o caso do objeto externo” (152)

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A NATUREZA NÃO VERBAL DA CONSCIÊNCIA CENTRAL

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Explicita que a ‘narrativa’ que ocorre na mente é NÃO VERBAL. “Refiro-me a uma história ou narrativa que cria um mapa não linguístico de eventos […] No caso dos seres humanas e da consciência, a narrativa não verbal de segunda ordem pode ser convertida em linguagem […] Não tenho como impedir essa tradução verbal […] Quando a mente diz “eu” ou “mim”, ela está traduzindo, com facilidade e sem esforço, o conceito não linguístico do organismo que é meu. Se um constructo perpetuamente ativado do self central não estivesse a postos, a mente não poderia traduzi-lo como ‘eu’ “ (152/3)

“Minhas concepções poderiam ser questionadas com uma argumentação do seguinte teor: e se o enredo sem palavras da consciência central, a narrativa não verbal do conhecimento, ocorre abaixo do nível da consciência, de modo que somente a tradução verbal fornece um indicador de que ele ocorre? A consciência central surgiria apenas no momento da tradução verbal e não antes” (154)

Argumenta que 1) a mente linguística é muito criativa e tende a criar relatos com uma ‘considerável licença literária; tende a entregar-se à ficção. Se ela desse origem à consciência, haveriam muitas diferenças entre as consciências, o que não parece ser o caso. Teríamos também lapsos de consciência, porque nem sempre realizamos a tradução linguística de algo – mas a consciência permanece, mesmo que o nível de atenção varia. Entende que Daniel Dennett, Humberto Maturana e Francisco Varela, quando falam de consciência, falam da consciência ampliada – por isso valorizam a linguagem. (154/155)

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A NATURALIDADE DA NARRATIVA SEM PALAVRAS

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“Contar histórias, no sentido de registrar o que acontece na forma de mapas cerebrais, é provavelmente uma obsessão do cérebro […] Contar histórias precede a linguagem, pois é, na verdade, uma condição para a linguagem” (156)

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UMA ÚLTIMA PALAVRA SOBRE O HOMÚNCULO (nada)

UM INVENTÁRIO (resume o percurso até aqui)

  1. A CONSCIÊNCIA AMPLIADA

A CONSCIÊNCIA AMPLIADA (161)

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