Ego, Self e inconsciente em Jung

O inconsciente quer luz;
a consciência quer realização
(Jung)

V0027599 Sigmund Freud, Stanley Hall, Carl Gustav Jung, Abraham Arden Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images images@wellcome.ac.uk http://wellcomeimages.org Sigmund Freud, Stanley Hall, Carl Gustav Jung, Abraham Arden Brill, Ernest Jones and Sándor Ferenczi. Photograph, 1909. Published: – Copyrighted work available under Creative Commons Attribution only licence CC BY 4.0 http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

Bion propôs, para a psicanálise, a ideia de “conceitos vazios”, ou melhor, de conceitos ‘semi’ definidos, argumentando que o uso desses conceitos deveria ‘preenchê-los’ de significação no decorrer do tempo. É assim que conceitos como “função alfa” e “função beta” funcionam como disparadores, propostas abertas, cujo uso, no encontro da clínica com a teoria, deveria se encarregar de definir.

A mesma ideia é utilizada por Jung, o qual explicitamente cita o ‘pragmatismo’ de W. James como origem dessa perspectiva. Para James, um conceito não pode ser avaliado apenas em termos de ‘verdade’, mas deve antes servir como um ‘programa’: uma vez ‘lançado’, a fecundidade de seu uso é que passa a ser o critério real para sua permanência ou não.

É o mesmo que dizer que não temos referentes na ‘realidade’ – referentes puros, absolutamente corretos – para comparar nossos conceitos uns com os outros. Eles são sempre, intrinsecamente, provisórios. O que não deixa de ter ressonâncias com Nietzsche.

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No campo da psicologia, também Freud foi pragmático, defendendo a manutenção de vários conceitos problemáticos em função de seu valor heurístico (isto é, explicativo). Isso faz sentido, sobretudo levando-se em conta o caráter precário de nosso conhecimento psicológico.

Essas considerações são necessárias, quando pretendemos abordar o conceito de inconsciente de Jung. Isso porque, mesmo num contexto acostumado a conceito voláteis, de pouca materialidade, como a psicologia, Jung é um caso à parte, e consegue ir além – para o bem e para o mal.

Em poucas palavras, o inconsciente em Jung é tudo aquilo que regula nossa vida anímica de forma automática, não psicológica, não subjetiva. É o desconhecido psíquico, que nos acomete (Jung, “A Natureza da psique’). Ou seja, para Jung, o inconsciente poderia – ou deveria – ser encarado como um fato objetivo.

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A consciência, em contraste, seria uma função de adaptação do sujeito ao momento presente. Logo, algo intrinsecamente restrito e subjetivo. Daí que o inconsciente tenha um sentido compensatório, em relação à consciência. A consciência define, separa, diferencia; tudo o que é excluído nesse processo (que constitui a base do foco, afinal) vai para o inconsciente. E volta, quando parece necessário, como sonho, como lapso, como intuição.

O inconsciente quer luz, quer meios de expressão – algo que a consciência tem; quer trazer à tona todos esses conteúdos excluídos. A consciência, por seu turno, quer realização. Ou seja, quer dar corpo à suas ideias, materialidade, consistência – o que o inconsciente tem (Jung, idem)

Assim, numa apreensão tipicamente oriental, que lembra os princípios do Yng e Yang, Jung entende que consciente e inconsciente são como dois princípios opostos de funcionamento mental que, entretanto, se buscam. E, na saúde, dialogam, cada qual com sua legitimidade.

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A consciência é onde vai se desenvolver o Ego, o “Eu”; é a parte que conhecemos de nossa subjetividade. É a parte que controlamos, onde nossa vontade atua, onde nos identificamos como “causa” dos acontecimentos. O Ego é um complexo, um agrupamento de ideias e emoções, e, como tal, pode se relacionar com outros complexos, seja dominando-os, seja submetendo-se a eles. Jung postula que na raíz de todo complexo há um arquétipo, uma estrutura que direciona e organiza a experiência. Nesses vários níveis estruturais, a energia (libido) flui, e isso acarreta consequências as mais diversas (Ver Jung, “A Energia Psiquica”).

O inconsciente é maior e mais amplo do que isso, e também faz parte de nossa subjetividade – mas de sua parte desconhecida. O que ali se produz também somos nós – mas uma parte de nós mesmos que costuma estar ‘na sombra’, recusada, mal percebida. Não necessariamente por recalque: o inconsciente não ‘cabe’ na consciência por sua amplitude mesma, e também por sua ‘objetividade’. Ele é genérico, ele fala ao gênero humano, mais do que ao indivíduo. Mas justamente por sua diferença em relação à consciência, ele tem muito a dizer à nós, ao nosso Ego.

Idealmente, o desenvolvimento psicológico implicaria numa integração cada vez maior dos conteúdos dessas duas partes da psique. O Self seria um conceito heurístico, não apreensível à consciência (ver Jung, “Seminários sobre Zaratustra”), representando a união desses dois princípios num todo maior.

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Freud deixa-se guiar pelo acontecimento clínico, e restringe sua teorização ao mínimo. Essa postura, que se deve, penso eu, às pretensões de cientificidade do pai da psicanálise, acaba levando-o à uma noção de inconsciente como o recalcado, inconsciente enquanto recusa, já que isso é o que aparece em primeiro plano, na clínica.

Ao assumir uma abordagem finalista, Jung está livre para extrapolar o dado, para o bem e para o mal. Assim é que, nele, o inconsciente tem também um funcionamento positivo, enquanto complemento à consciência, e sede da criatividade.

Isso vale para tudo: Jung parte de outro lugar, quando comparado à Freud. Nele, a filosofia, a história das religiões, o estudo dos mitos, das artes, a etnologia, são protagonistas. Daí que sua noção de ‘inconsciente’, embora coincida em parte com a noção puramente clínica de Freud, é muito mais ampla. Já nasce atrelada à história monumental da cultura humana.

Mas é, na mesma medida, menos ‘científica’. Porque menos delimitada.

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Winnicott, em um texto já no fim da vida e, a meu ver, muito significativo, sugere que todo psicanalista deveria ter o “seu” Jung, assim como tem o “seu” Freud. Os psicanalistas não parecem ter ouvido a sugestão do pediatra inglês, mas, de minha parte, acho que ela faz todo o sentido.

Apesar de sua exuberância, sua falta de limites e de ponderação científica – ou melhor, justamente por isso – Jung é uma espécie de constante provocação à psicanálise estrito senso. Ele nos obriga a sair de nosso “cantinho” e encarar, seriamente, os milênios da produção terapêutica humana.

Nesse contexto, parece-me limitado demais comparar Jung com Freud, simplesmente porque eles não quiseram a mesma coisa. Freud se esforçou para erigir um edifício teórico à altura das demandas tanto da clínica quanto da lógica e do método científico. Jung parece levar tudo isso em conta, mas seu foco está alhures.

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Talvez seja mais justo entender Jung como um artista, um poeta que escreveu também sobre ciência e psicologia, mas cuja contribuição deve ser lida numa chave múltipla. Isso implicaria em tomar suas ideias pelo que elas são – propostas, hipóteses, intuições, algo que deve ser pesado e pensado com cuidado, em cada caso particular.

Mas, surpresa das surpresas, mesmo em psicanálise, parece que tendemos à uma filiação à pessoa, e não às suas ideias. A história da instituição psicanalítica é uma amostra viva desse eterno ‘mal-entendido’.

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