Winnicott e o “objeto sexual” freudiano

Ás vezes só nos damos conta do lugar onde estamos quando o vemos de fora – um pouco à distância. De fato, tenho percebido Winnicott tão diferente de Freud, que começo a considerá-lo mais próximo de Jung! – o que, pra mim, é surpreendente.

Entre tantos pontos possíveis, a questão do “objeto”, em Freud, é exemplar dessas diferenças. Porque Freud pouco falou do “objeto”. Ele mais ou menos o supõe dado (ou enredado no princípio do prazer/desprazer). Já, em Winnicott, há toda uma teoria da constituição do objeto. E isso muda tudo.

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Muda tudo porque a constituição do objeto se entrelaça intimamente com a constituição do próprio sujeito. Não há objeto sem que o sujeito se integre numa unidade. E isso nem sempre acontece. Isso é uma conquista, que depende de uma boa maternagem.

Paradoxalmente, Winnicott propõe que para constituir o objeto enquanto externo, o bebê humano precisa primeiro vivê-lo como interno, como parte indissociada de um “si mesmo” de contornos mal definidos.

A partir desse “si mesmo” (self) que engloba a mãe e todos os acontecimentos do ambiente, o bebê vai construindo, pela própria constância de certos parâmetros – as percepções da pele, dos instintos, dos sons; a alternância do dia e da noite, etc – um continente constante. Algo que se repete, algo relacionado à sua percepção consciente.

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Trata-se do “ego”, dos contornos do ego, que vão emergindo, portanto, numa relação com o objeto (mãe ou ambiente) ainda antes desse objeto ser percebido como objeto. Trata-se de uma relação, portanto, vivida como NÃO-objetal, da parte do bebê.

Ora, para Winnicott, os fundamentos do desenvolvimento emocional humano se dão justamente nesse ínterim, nesse tempo que vai do nascimento (ou até um pouco antes) ao estabelecimento de uma unidade subjetiva, com sua correlata capacidade de perceber o objeto como externo.

Trata-se de um tempo quase ‘pré-subjetivo’, porque anterior até mesmo ao inconsciente. Como dizia Winnicott, o mais antigo não é o mais profundo. Isso porque o inconsciente que nos interessa do ponto de vista psicológico é apenas aquele que pode entrar em relação com o ego. Só há inconsciente psicológico depois do ego, e o ego, como vimos, se estrutura numa relação anterior tanto ao objeto quanto ao sujeito.

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Estamos, aqui, lidando com um modelo baseado na esquizofrenia, e não mais na neurose. Isso justifica esse horizonte ‘pré-subjetivo’ e não objetal. Nesse tempo dos fundamentos, Winnicott vê o bebê entregue à processos na fronteira entre a biologia e a psique, ali onde instintos encontram um suporte social (maternagem) mais ou menos adequado, surgindo o psicológico como resultado desse encontro (ou desencontro).

A paisagem teórica winnicottiana é, assim, muito próxima da paisagem que podemos inferir a partir de Jung, com a diferença de que neste, a psique do bebê seria o resultado do encontro entre arquétipos e experiências concretas, enquanto aquele fala em instintos e necessidades.

Ambos rejeitam o papel estruturante do objeto sexual, tal qual proposto por Freud. Principalmente no tocante à qualidade da relação com o objeto: para Freud, o essencial é a insuficiência do objeto, frente ás demandas infinitas da pulsão. Para Winnicott (e Jung?), nesse tempo inicial, o fundamental é a suficiência, aquilo que é efetivamente encontrado, e realizado, no/com o objeto.

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Isso tudo nos aponta para o estatuto mais existencial do que sexual do objeto, em Winnicott. Por isso autores como Loparic podem aproximar Winnicott de Heidegger (por exemplo, aqui e aqui). Por isso, também, para uma parte da psicanálise, Winnicott não é um ‘freudiano’, talvez nem mesmo um psicanalista.

De fato, se formos levar as coisas ao pé da letra, ao privilegiar o ‘objeto existencial’ em detrimento do ‘objeto sexual’, propondo que são dois momentos diferentes do amadurecimento, Winnicott se filia à longa lista dos ‘dissidentes’ da teoria freudiana, na qual se incluem nomes como Ferenczi, Adler e Jung. Todos apontando como o sexual, embora importante, não necessariamente era algo fundante, como insistia Freud.

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