O Inconsciente como linguagem. Lacan x Jung

É conhecida a frase de Lacan segundo a qual “o inconsciente se estrutura como uma linguagem”. Encontrei essa frase nos meus tempos de estudo lacaniano. Ela sempre me pareceu querer ‘forçar’ a linguagem para dentro do inconsciente, de uma maneira não muito clara. Mas e se for o inverso?

Lendo Jung, percebo que a proposição lacaniana pode ser lida em outro sentido: e se o inconsciente for, efetivamente, um tipo de linguagem natural?

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Freud ‘roça’ essa tese várias vezes, mas não a desenvolve. O estatuto da imagem inconsciente, em Freud, fica não-resolvido. Fica, digamos, potencial. Lacan, se o compreendi bem, é que faz a tentativa de ‘dar nomes aos bois’, e definir esse estatuto, ligando-o ao estruturalismo de Levi Strauss e à linguística de Saussure.

Nada a objetar sobre isso, sobretudo porque aqui estamos discutindo num nível teórico. Mas é importante saber que há outras propostas.

De minha parte, estou mais inclinado a reconhecer uma leitura naturalista da linguagem, defendida, entre outros, por Noam Chomsky. Tenho plena consciência de que, com isso, estou na “contramão da história” – ou de parte dela. Pois vivemos uma espécie de “renascimento das potências da biologia”, nos dias de hoje (Antônio Damásio é um exemplo).

Importante dizer que um fundamento biológico para a linguagem não implica num esvaziamento de suas complexidades. Penso ler em Winnicott (e em Jung) um exemplo de uma teoria ao mesmo tempo naturalista e complexa. Aqui, um exemplo de como vejo esse encontro.

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Pensando a partir de Jung, podemos dizer que, assim como os arquétipos seriam estruturações inatas das experiências, poderíamos ter uma estruturação inata da linguagem. Daí, faria sentido dizer que “o inconsciente se estrutura como uma linguagem”, porque haveria uma estrutura implícita – cerebral ou arquetípica – organizando ambos os setores da nossa experiência.

Dizer que há uma estrutura comum não é o mesmo que falar em conteúdos comuns. As várias línguas usam sons diferentes, mas tendem a se organizar de forma semelhante (numa estrutura sujeito & objeto, por exemplo).

Os sonhos nos dariam exemplos dessa ‘língua comum’ (ou dessa estrutura comum, para ser mais exato) – o que nos permitiria interpretar sonhos ‘sonhados’ em outras línguas, o que Jung faz a toda hora (inclusive com os mitos).

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Nesse contexto, a diferença entre Lacan e Jung estaria em que Lacan vê o inconsciente efetivamente se estruturando a partir da linguagem do Outro, enquanto, para Jung, essa linguagem inconsciente já existe, e provavelmente é ela que estrutura a linguagem ‘consciente’, tal como a aprendemos na experiência.

Parece haver, em suma, uma diferença fundamental entre a valorização da insuficiência, em Lacan – insuficiência do ego para estar a altura da língua, insuficiência da linguagem para dizer o sujeito do inconsciente, etc – pois essa insuficiência seria fundante, e a valorização da suficiência, em Jung. Mas essa é uma questão enorme, a que teremos que voltar mais adiante.

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