Psicanálise & espiritualidade – aproximados

Framed eyeglasses on top open book. Original public domain image from Wikimedia Commons

Essa história de ler Jung tem sido um pouco… enlouquecedor, pra mim. Jung é outra pegada, outra maneira de pensar, em relação à Freud. Mesmo abrindo nosso pensamento para o inconsciente, Freud permanece, em geral, delimitado na experiência clínica, no visível. Isso o torna mais científico, mais estruturado. Jung se abre a todos os ventos, conecta a clínica com o mundo, o passado, os mitos…

Jung se abre à tanta coisa que fica difícil estabelecer os contornos daquilo que ele diz. Luz demais nos cega. Ás vezes preciso, então, parar um pouco, ‘esfriar’ um pensador no outro, ponderá-los desde uma perspectiva diferente. Até para poder seguir o diálogo com eles.

Neste post vou, então, ‘esfriar Jung’, lendo sua contribuição sobre religiosidade / espiritualidade a partir de um “meio caminho” entre ele e Freud.

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Jung é a esquizofrenia; Freud, a neurose. Daí a multiplicidade do primeiro, e a estruturação do segundo. No tocante à espiritualidade, Jung defende, por um lado, a experiência concreta do religioso como uma experiência psicológica , mas usando para isso conceitos e ideias que tradicionalmente nos falam da experiência religiosa como algo ligado ao ‘lado de lá’, a um ‘além’ deste mundo, uma transcendência. Algo ‘não psicológico’.

Diante dessa multiplicidade, Freud nos puxa pra baixo. Nos convida a pensar o homem, o que sabemos sobre o humano. Nos convida a traduzir, em linguagem psicológica, o que é dito em outras linguagens. Daí a ideia de tomarmos a experiência religiosa como uma linguagem não-psicológica para falar de coisas psicológicas.

O que pode resultar disso?

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Uma surpreendente proximidade entre psicanálise e religião. Hoje sabemos, por exemplo, que certas atitudes nossas não mudam, a não ser que nos entreguemos à algo externo à nós, o que em psicanálise recebe o nome de transferência, Eros, amor… Estou pensando numa relação de confiança com um ‘outro’ significativo, claro, mas percebo que dentro da linguagem religiosa, poderíamos inserir aqui outros nomes (confiança, ‘Deus está no comando’, anjos, a relação com o grupo religioso, com padres, etc).

Ou seja, a pessoa religiosa pode ter encontrado desde sempre o apoio à transformação que somente agora, na psicanálise, nomeamos como ‘transferência’. O fato concreto, a experiência de se entregar ao cuidado do outro, já estava lá, apenas com outros nomes.

Por mais que a religião utilize outros contextos, remetendo nossa culpa à Deus, por exemplo, ainda assim estamos dentro de um universo nitidamente humano, onde valores, sentimentos, pensamentos, têm centralidade. É a vida do sujeito que importa na religião; seu comportamento, seu destino. Muito diferente de dizer que ‘me sinto culpado porque baixou tal hormônio’, e não vincular isso à nada.

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Se seguirmos por esse caminho, perceberemos que há coisas que somente a religião expressava, antigamente – coisas que, hoje, percebemos, a partir da psicanálise, como fundamentais. A centralidade do amor, por exemplo, é um tema tradicionalmente religioso. Qual outra corrente da cultura sustentou a importância do amor, do relacionamento com os outros, da mesma forma que a religião o fez?

Freud é geralmente lido como um crítico da religião, mas o que ele fez, em termos concretos, foi fundar uma clínica em cima da importância do amor. Ele mesmo chega a dizer isso. Mais uma vez, a linguagem é outra, a fundamentação é outra, mas a experiência concreta é muito próxima.

Outro tema tradicional na religião, ligado aos dois que já falamos, é a ideia de que “não somos os senhores absolutos de nossa própria vida”. Ou seja, de que há forças maiores do que nós, que nos influenciam, que talvez tenham objetivos para nós que desconhecemos… Ora, se substituirmos o divino pelo “inconsciente”, como essa autoridade que ‘sabe mais sobre nós do que nós mesmos’, estamos novamente falando da mesma experiência.

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Tudo somado, é possível que Freud, como Nietzsche, deva ser entendido como um desses seres que ‘trabalham nas coisas inferiores em favor das superiores’. Ou seja, como alguém que veio refundar valores e experiências centrais para o humano, em bases diferentes. Em outros termos, é possível que a religião, como a conhecemos, tenha sido apenas um veículo, uma forma de veicular, de transmitir, vivências que, hoje, podemos reencontrar na clínica, na relação transferencial, etc

Se abstraímos sua linguagem e fundamentação, psicanálise e espiritualidade tem muitas coisas em comum. Olhadas à distância, parecem um reduto, o local de resistência de algo que, no grosso de nossa cultura, já não existe mais. Ou seja, o sentido humano para a existência do homem; experiências e valores adaptadas ao humano – e não à ciência, ao mercado ou à tecnologia.

Caberia questionar porque, se são experiências tão próximas, essas duas práticas são vistas – e se vêem – como antagônicas. Penso que a análise dessas diferenças e similaridades nos daria uma boa crítica de ambas – um tema para próximos posts.

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