A religião como experiência transicional. Transicionalidade e cultura

Há várias formas de encarar a religião. A primeira, e mais comum, é entender a religião como algo real. Geralmente, quem é religioso tem em vista essa maneira de entendê-la, assim como quem a critica.

Outra maneira é entender a religião de um ponto de vista simbólico. É assim com parte da obra de Jung: ele entende que o religioso é uma tradução simbólica de fatos (realidades) psicológicos.

Uma outra maneira seria entender o religioso como experiência transicional.

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O psicanalista inglês Donald Winnicott propôs uma fase normal do desenvolvimento humano aonde a criança começa a se relacionar com objetos da realidade enquanto objetos ao mesmo tempo objetivos e subjetivos.

Essa fase seria transicional, isto é, uma fase de transição entre o momento em que a realidade é apreendida de um ponto de vista majoritariamente subjetivo, para outro onde a objetividade deve predominar (pelo menos em momentos específicos).

Winnicott propôs que tudo aquilo que diz respeito à cultura humana seria um desenvolvimento desse modelo transicional. Noutras palavras, toda cultura seria uma experiência transicional; uma mistura entre dados objetivos e dados subjetivos.

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Assim, o específico da cultura seria essa mistura; ela não é um fato ‘puro’. Aliás, nenhum fato é, sendo parte da cultura.

Interessante notar como Jung entendia a religião de maneira próxima, já que misturava o simbólico e o real (psicológico) numa mesma ideia.

Como objeto transicional, como objeto de cultura, todo objeto é ao mesmo tempo objetivo e subjetivo. Ao pretender definí-lo, separando-o desse caráter misto, retiramos do objeto o seu aspecto humano. Pois o que é mais humano do que a cultura?

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O que Winnicott propõe bagunça nossa maneira tradicional de entender as relações entre realidade (mundo externo) e fantasia (mundo interno).

Isso porque ele perverte essa dicotomia ao localizar o especificamente humano justamente na mistura, na transicionalidade, entre um extremo e outro.

Ao ponto de podermos pensar que nossa maneira moderna de supervalorizar a verdade, o científico, o observável, é apenas uma maneira específica de misturar objetividade e subjetividade. Vale dizer, uma maneira problemática, que justamente esvazia o aspecto subjetivo em prol da objetividade, criando um saber talvez mais elevado, mas desprovido de sujeito.

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Em contraste com essa maneira ‘des-subjetivada’ de entender nossa relação com a realidade, poderíamos entender a religião como a maneira especificamente humana de lidar com os aspectos sombrios da vida.

Isto é, a religião seria, como tudo na cultura, uma experiência transicional, um ‘meio do caminho’ entre realidades duras (como a morte, o sofrimento, as dificuldades da vida) e o tanto de subjetividade que necessitamos para justamente nos conectar com essas realidades.

Assim, ao dar espaço para o subjetivo, a religião se aproxima da arte ( e também da psicologia). Ou seja, daqueles âmbitos da experiência onde não faz sentido perguntar de forma absoluta se algo é, ou não, real. Ninguém se questiona se a paisagem pintada num quadro “‘é real”.

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