Estilo de maternagem e vida adulta

Segundo Mario Jacoby, “Muitos estudos etnológicos sustentam a hipótese de uma ligação entre as formas de relacionamento mãe-filho inicial e o cânon cultural dominante de uma sociedade”[1]. Ele cita como exemplo o livro de Erik Erikson, “Childhood and Society”, onde esse último relata suas observações sobre duas tribos de índios americanos, os Siouxs e os Yuroks.

Os Siouxs, no relato de Erikson, eram antigos caçadores de búfalos, e certificavam-se que a educação das suas crianças reforçasse características valorizadas por eles, como um espírito pronto para a caça, um certo sadismo em relação aos inimigos e uma habilidade para suportar sofrimentos extremos. A generosidade era vista como um ideal ético, pois a divisão da caça era de vital importância para toda a tribo [2].

A criança Sioux era cuidada carinhosamente pela mãe em tempo integral; sempre que chorava, podia brincar com os seios maternos; não se deixava uma criança chorar por muito tempo, impotente, sendo costume confortar e saciar a criança rapidamente; a amamentação durava, em média, até os 03 anos de idade, e era tão importante que nem mesmo os privilégios sexuais do pai podiam interferir na concentração libidinal da mãe em seu bebê. [3]

Erikson postula uma congruência entre essa forma de relação primal e a valorização da generosidade entre os ideais sociais dos Siouxs: “A exigência cultural de generosidade recebia sua fundamentação basal no privilégio de se deleitar com a nutrição a segurança de uma amamentação ilimitada” [4]

Por outro lado, o sadismo com os inimigos e a fúria nas caçadas ou em combate pareciam ter relação com a aprendizagem que esses bebês tinham de fazer, ao começarem a mordiscar o seio materno. De fato, para as mães Siouxs, era necessário ser forte e rígida exatamente nesse ponto, algumas chegando a se divertir lembrando de como batiam na cabeça da criança quando essa começava a morder.

Se o bebê Siouxs se enfurecia com isso, era costume amarrá-lo, até o pescoço, em seu berço, fazendo com que ele não pudesse dar vazão à sua raiva pelo movimento usual dos membros [5]

***

Obviamente, essa conexão entre formas maduras de comportamento social e sua fundamentação basal era reforçada, mais tarde, na vida das crianças, pelo exemplo, por sanções e rituais, etc.

Para além da importância etnológica desse vínculo, ele nos coloca questões. Podemos perguntar, por exemplo, como esse enraizamento da cultura na maternagem está se dando numa sociedade como a nossa, que cada vez menos tem valores compartilhados e com alguma permanência. Ou seja, o que está servindo, entre nós, de referência cultural para o estilo de relação mãe-bebê?

Podemos perguntar também se esse vínculo não explica, ao menos em parte, a permanência de certas possibilidades de adoecimento mental, num contexto evolutivo. Ou seja, dado que a cultura é um sem-fim de formas de adaptação e utilização do material humano, é possível pensar que a “doença mental” de hoje tenha sido, do ponto de vista da natureza, uma resultado possível e benéfico. Vale dizer, o fato cultural embaralha, por essência, os referentes de uma seleção adaptativa, tornando impossível excluir, “a priori”, certos comportamentos.

O sofrimento humano não parece ser, afinal, um critério de seleção –

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Notas:

[1] Jacoby, Mario. “Saudades do Paraíso”, São Paulo: 2007. Ed Paulus, pg77. Link do livro na Amazon: https://amzn.to/3RxfiKF

[2] idem, pp 77/78

[3] idem, pg 78

[4] Erik Erikson, in “Childhood and Society”, pg 121, citado por Jacoby, 2007, op. cit., pg 78

[5] Erikson, citado por Jacoby, pg 78/79

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