“Saber” e “fazer” em psicologia

Há uma dissimetria entre saber e fazer, em psicologia, que é fundamental compreender. Talvez, entendendo isso, estejamos melhor aparelhados pra responder porque teorias e linhas diferentes parecem ter efeitos similares, na clínica.

Isso nos levará também a pensar sobre o estatuto do “verdadeiro”.

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Se nos colocamos do ponto de vista do direito, percebemos uma curiosa coincidência entre aquilo que a lei “diz”, e aquilo que é considerado crime na “vida real”, isto é, o comportamento concreto dos agentes.

Ou seja, há uma área de sobreposição entre esses dois âmbitos, que nos melhores casos poderia se aproximar dos 100%.

Essa sobreposição é curiosa porque, em outros âmbitos de nossa vida, ela não se verifica da mesma forma.

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Estamos lidando aqui com o problema da verdade: a verdade como esse horizonte, o momento em que aquilo que falamos coincide absolutamente com aquilo que acontece.

Obviamente, sabemos que isso está longe de ser uma regra. A vida prática comporta uma série de “saberes” que não coincidem com aquilo que explicitamente “sabemos” sobre ela.

E nem falo sobre ideologias ou funcionamentos que procuram capturar o real ou o discurso e distorcê-los. Há uma distância entre o saber e o fazer que é intrínseca.

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No fundo, “pensamento” (ou teoria) e “ação” são dois âmbitos diferentes da experiência humana. Esperamos que eles se relacionem sempre, mas nem sempre é assim.

Alguns exemplos: o homem, enquanto caçador-coletor, podia ter as mais estranhas ideias sobre seu corpo. Independentemente disso, seu comportamento era benéfico à saúde corporal (link). A ideia de que os médicos lavassem as mãos para se livrar de “partículas cadavéricas” era errada, mas deu resultados concretos (link).

Nas ciências humanas, onde os objetos de estudo nem sempre são facilmente controlados ou passíveis de medição, essa diferença entre teoria e prática ganha importância central.

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Podemos tomar a religião como um exemplo: independente da crença ou do dogma oficial de cada época, a atitude das pessoas religiosas costumava ser associada ao amor, à empatia, ao cuidado com o outro. Religiosos que o eram apenas na teoria até podem ter tido seu valor, mas podemos imaginar que não convenciam muito, quando se tratava do comportamento concreto das pessoas.

Pois não somos, em geral, tão ingênuos assim: a teoria nos leva até um certo ponto. Mas o comportamento, a realidade, nos leva mais longe.

É como diz um ditado indiano: “seu exemplo falou tão alto que não escutei suas palavras”. Um religioso que não vive ‘religiosamente’ não é um bom religioso. Independente daquilo que sabe, ou diz.

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O mesmo se aplica à psicologia. Quando olhamos o mar de teorias e explicações as mais diversas, temos a impressão de que ninguém sabe nada, nesse reino confuso. Mas o que as pessoas fazem? Será que são tão diferentes assim, as posturas concretas, as atitudes concretas, dos terapeutas?

Não haveria, ao contrário, uma série de similaridades comportamentais, independentemente da teoria que as fundamenta?

Eu creio que sim, e explico dessa forma que diferentes linhas teóricas pareçam se equivaler, ao nível dos resultados, assim como as diferenças enormes que vemos entre praticantes de uma mesma abordagem.

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A psicologia (e talvez, também, a religião) só se compreende quando inserimos na equação a vida real daquele que a pratica. Somos terapeutas com nossa vida inteira de plano de fundo. Ela é o nosso contexto.

Atendemos os pacientes a partir de nossa escuta teórica, sim, mas também daquelas feridas que o tempo nos apresentou, e das quais aprendemos a nos curar. Nossa experiência de vida é, também, parte da nossa experiência clínica, e é impossível dissociá-las.

Por isso, vejo com descrença os sites que hoje oferecem serviços de psicologia como se fossem um produto padronizado, uma “commoditie”. A rigor, é impossível definir o valor de um trabalho terapêutico. É como definir o valor da vida. Não temos outro valor de referência. Trabalhamos e ofertamos aquilo que somos.

Esse é o campo paradoxal de atuação do psicólogo. No limiar entre o definível e o indefinível, no encontro que separa e aproxima o que pensamos do que vivemos.

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