O fim do amor romântico

No final de um aforismo dedicado à diferenciação entre uma “moral de senhores” e uma “moral de escravos”, Nietzsche faz uma vinculação um tanto surpreendente, dizendo que

“o amor-paixão – nossa especialidade européia – deve absolutamente ter uma procedência nobre: é notório que ele foi invenção dos cavaleiros-poetas provençais, aqueles magníficos, inventivos homens do “gai saber” [gaia ciência], aos quais a Europa deve tanto, se não deve ela mesma.”

O problema dessa diferenciação entre morais não cabe aqui; mas a vinculação entre a Europa e o amor-paixão sempre me chamou a atenção.

Fica sugerido – como tanta coisa, em Nietzsche – que o “gaio saber”, isto é, o saber alegre, artístico, poético, e talvez também cavaleiresco ( ou seja, de homens “de ação”, e não apenas “de salão”) foi parte fundamental daquilo que pôs fim à hegemonia da visão cristã, na Europa.

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Lembrei desse trecho quando li, dia desses, o ensaio “We”, de Robert Johnson, um junguiano que se utiliza do poema “Tristão e Isolda” para fazer um paralelo entre esse mito e a maneira como nos relacionamos, romanticamente, na modernidade.

Para minha surpresa, novamente, Johnson faz mais ou menos a mesma vinculação que Nietzsche, entre os poetas provençais do séc XII na europa e a nossa atual postura em relação ao amor.

À diferença de Nietzsche, no entanto, para Robert Johnson, o que o mito ajudou a estruturar foi uma nova maneira de viver a religiosidade: justamente, confundindo-a, misturando-a, com o amor ‘terreno’.

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Para o autor, portanto, nós viveríamos, hoje, o amor romântico, como uma mistura entre o amor “terreno” e “humano”, que sempre houve, e um amor que poderíamos chamar de “divino”. Mais propriamente, a busca por esse amor divino, entendido enquanto espiritualidade, sentido, experiência de completude, etc.

Como, históricamente, nós perdemos essa espiritualidade na religião, o amor-paixão ou romântico seria uma tentativa histórica de reencontrar nossa “alma”, agora dentro de uma relação humana (que, já se imagina, tornou-se sobrecarregada).

Duas leituras interessantes, que não precisam ser contrastadas. Da minha perspectiva, na verdade, elas convergem num ponto essencial: uma crítica da maneira como vivemos nossos ideais.

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Tanto o ideal religioso quanto o amoroso têm aspectos bons; não deveriam (a meu ver) ser excluídos totalmente de nossas possibilidades de existência. Mas é inegável que eles podem levar também à um empobrecimento de nossa experiência.

É o que acontece quando substituímos uma experiência real por outra idealizada – como se vê tão amiúde, no amor.

Assim, ao invés de elevarmos o amor – concreto, real – à um patamar mais alto, acabamos por descartá-lo, por não senti-lo “compatível” com nosso ideal. Desnecessário dizer que fixar as medidas entre ‘real’ e ‘ideal’, em termos de amor, não é tarefa simples.

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No ponto histórico em que nos encontramos, talvez caiba perguntar se ainda queremos esse ideal “romântico / divino” – no amor. Parece inegável que ele continua por aí; basta olhar e ver. Mas ele nos custa caro, especialmente no caso da mulher, que recebeu a demanda de encarnar esse ideal através dos séculos.

Hoje, ela pode finalmente mostrar-se tal qual é, como um ser humano; nem mais, nem menos. Cai, assim, um ideal – ou dois. Será isso o fim do amor? Não necessariamente. Seria, digamos, o amor “tornado laico”. O que parece mais justo, embora imponha algum trabalho a nós, homens.

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Livro citado (esgotado): WE, de Robert Johnson. Link na Amazon: https://amzn.to/3RAx28c

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