Projeção inconsciente

Há uma ideia fundamental em psicanálise, e também em psicologia analítica, que diz mais ou menos o seguinte: aquilo que não for vivido conscientemente, retornará, projetado, no inconsciente.

É uma ideia tremenda, cheia de consequências, tanto à nível individual, quanto coletivo.

É também uma sinalização para o tipo de mudança que precisaríamos, enquanto sociedade.

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Robert Johnson, um Junguiano muito interessante, nos propõe a seguinte chave, em “We” (cap. 15): o ocidente não quis mais saber, conscientemente, da busca pelo divino, então essa busca se travestiu em amor romântico.

Ou seja, de forma inconsciente, o que todos buscaríamos, no amor romântico, seria aquela participação no divino, a experiência de que a vida como um todo foi elevada, ganhou um sentido mais alto, se “justificou” – no amor… (os antigos diriam: “em Deus”).

É muito interessante pensar o nosso presente como uma série de “recusas” conscientes, que aparecem, então, inconscientemente projetadas.

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As disputas pelo poder político se parecem muito, por exemplo, com algo que poderia ser religioso, mais uma vez.

Como não ver o fanatismo, a paixão com que os partidários de uma ideia política defendem “a causa”, sempre supondo que ela, no fundo, é o melhor para toda a sociedade? Quantas vezes não vemos o paradoxo de alguém chegar a agredir a sociedade para defender sua noção de “melhora” para o social?

Por mais que Marx entendesse que a religião é o ópio do povo, o que vemos, hoje, é que a disputa política teórica, essa interminável ladainha sobre liberalismo, comunismo, tamanho do estado, assistencialismo, etc, tornou-se ela mesmo um ópio. (Não que a discussão não se justifique; mas a discussão apaixonada já se dá em outro terreno, que não o das ideias).

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De forma análoga, o discurso científico é utilizado, hoje, exatamente da mesma maneira que o mito foi utilizado, outrora.

A maioria das pessoas não tem a mínima noção do que significa realmente o conhecimento científico, enquanto aproximação, sempre provisória e indefinida, de algo “talvez” verdadeiro. As pessoas usam “o” científico como referência de verdade alcançada, eterna e imutável. Como conclusão, e nunca processo.

A ciência tornou-se nitidamente um mito moderno. Nós apenas a utilizamos para “legitimar” nossas crenças. Mas não porque compreendamos todos os meandros do científico; nós simplesmente compartilhamos da crença nesse mito particular; honramos sua autoridade. Numa palavra, projetamos nossa necessidade de “crer” naquilo que, paradoxalmente, deveria nos afastar de toda crença.

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Para concluir, um ponto interessante dessa forma de pensar é que ela nos apresenta o atuado inconsciente como uma consequência da falta de consciência sobre uma necessidade nossa, humana.

Bastaria, em tese, recuperar essa consciência, criar novamente espaço para isso, na cultura, para que não precisássemos mais “atuar”, projetivamente, nossas necessidades. Ou seja, há espaço para uma transformação psicológica aí, cultural.

De que adianta criticar a religião instituída, se continuamos, internamente, a necessitar de uma relação de sentido mais ampla com o mundo (= religião)? De que adianta estabelecer o conhecimento científico como padrão de conhecimento, se, internamente, eu sinto necessidade de uma verdade simples, constante, inquestionável (= não científica)?

Numa palavra, precisamos transformar a relação entre nosso mundo interno e nossa cultura. Não faz sentido mantermos uma cultura que não atende, não abre espaço, para as necessidades humanas. É o humano que está fazendo falta na cultura –

Uma resposta para “Projeção inconsciente

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