Inveja entre pais e filhos

Li esses dias um interessante artigo sobre a inveja que os pais tem dos filhos, a partir de uma certa idade [1]. A psicanálise nos acostumou com esse tema, embora, para as pessoas em geral, ele siga sendo tabu.

Costumamos negar que tais coisas aconteçam. “Eu, ter inveja dos filhos? Imagine!”. Mas na clínica, onde nos dispomos a uma honestidade rara em outros espaços, às vezes chegamos a reconhecê-lo. Sim, é possível invejar os filhos. Apesar de – ou, provavelmente, exatamente por – tê-los ajudado tanto.

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Todo analista sabe que “não recebemos presentes, por nada”. Via de regra, quando um analisando nos presenteia, ele irá “cobrar” esse presente de alguma forma. Pois nada é de graça nessa vida, também em nossa vida emocional.

E porque seria diferente com os filhos? Tudo aquilo que deixamos de fazer, por causa deles, se acumulará em nosso inconsciente, como dívida. Não é surpreendente que, mais dia, menos dia, essa dívida precise ser cobrada, e então, nosso sentimento mude.

Já não é mais possível “viver em sacrifício”; precisamos receber algum retorno.

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E esse retorno pode vir de várias maneiras: pela escolha da profissão; pelo marido / esposa que acolhemos; por ter filhos (netos) ou não; a escolha de onde morar, ser bem sucedido, etc. Tudo tem, para os pais e para os filhos, uma conotação ‘contábil’, nessa contabilidade dos afetos. Especialmente ali onde muita coisa foi “adiantada”.

Quanto mais os pais sentem que “sacrificaram” aos filhos, mais eles irão cobrar depois. Quer queiram, quer não. Não está ao seu ‘livre arbítrio’, sentir essas coisas de um outro jeito.

Eles podem, claro, esconder o que sentem. E se sacrificar de novo.

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E nossa cultura piora tudo, ao idealizar as coisas. Ao nos fazer acreditar que entre pais e filhos, é só amor, só bondade, e que isso “se paga”. Não é verdade. Essa é só a superfície das coisas. É claro que existe identificação entre pais e filhos. É claro que todo pai, toda mãe, sente-se feliz, com os primeiros passos, as primeiras vitórias, de seus pequenos. Mas aí, a criança ainda não tem individualidade. Ela pode, ela necessita, que as fronteiras entre ela e os pais sejam frouxamente fixadas.

Tão logo a criança começa a crescer, a coisa muda. Pois ela então começa a ser diferente. Começa o lento trabalho de diferenciação; de tornar-se um indivíduo, alguém singular. E a herança familiar, por melhor que tenha sido, precisará ser ultrapassada. Recusada, diminuída, transgredida.

É natural então que um pai ou uma mãe olhe para essa situação e pense, lá em seu íntimo: “todo aquele esforço… para isso?”

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Não adianta. Toda idealização produz uma “sombra”, como dizia Jung, proporcional àquilo que está sendo negado. E estamos negando a nossa realidade emocional, ao idealizar a relação entre pais e filhos.

É simplesmente injusto viver essa relação da maneira que vivemos. Melhor dizendo: ela é uma relação impossível – no mau sentido, uma relação que não se sustenta, a não ser despojando um dos lados.

Nossa realidade emocional pede uma relação mais frouxa, onde os filhos possam crescer e se experimentar com cada vez mais pessoas. Saindo de casa, ampliando suas competências com parceiros diferentes.

Os filhos precisariam errar mais, é certo, mas também aprenderiam mais. Isso daria aos pais mais liberdade, menos pressão para “prover” tudo, a toda hora.

Isso daria espaço, penso eu, para uma relação autêntica.

Sonhos, eu sei, numa cultura como a nossa. Mas sonhos que, paradoxalmente, falam de uma realidade que nossa realidade esconde –

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Notas:

[1] Trata-se de “O avesso do relacionamento mãe-filha”, de KIM CHERNIN. O artigo encontra-se no livro “Ao encontro da sombra”, de vários autores junguianos.

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