A religião e a falta

Para Freud, a vida humana se estrutura em torno da “falta”. De forma esquemática, isso quer dizer que nunca encontramos a saciedade que almejamos. Sempre algo “falta”, e parte da maturidade psicológica teria a ver com a capacidade de “tolerar” essa falta. Vale dizer, conviver com ela, sem negá-la, mas também sem ser determinado por ela.

Dessa perspectiva, a religião pode parecer um desvio, um contorno sobre a questão da falta. Porque ela nos propõe respostas. Ela nos dá meios de acreditar que a falta será resolvida mais adiante – seja nessa vida, seja em outra. Haveria então uma diferença importante, aí.

Sempre esquematicamente, essa seria uma das grandes questões a separar Freud de Jung. Mas penso que isso não precisa ser assim.

***

E isso por dois motivos. Inicialmente, convém notar que a concepção de “falta” em Freud pode se tornar, em si mesma, uma religião. Vale dizer, uma crença que “preenche”, paradoxalmente, nossas insuficiências na vida, ao nomeá-las enquanto “necessárias”, enquanto parte do amadurecimento, algo inevitável, etc.

Essa nomeação, em si mesma, já produz um “preenchimento”, na medida em que dá sentido para uma experiência sem sentido. Quando se soma a isso a convicção do grupo, vale dizer, quando uma série de pessoas importantes para mim afirmam que é possível conviver com a falta, eu passo a acreditar. E então eu efetivamente realizo isso.

Eu “convivo” com a experiência da falta, que no entanto está “preenchida” no nível simbólico. Em outros termos, a “falta” seria sempre, basicamente, uma falta simbólica.

***

Podemos chegar na mesma conclusão, abordando o tema de outro ângulo forma. Pois o que acontece com o conceito de falta é mais ou menos o que acontece na obra de arte: ela se dá num plano de existência intermediário entre a realidade objetiva e a subjetiva.

Todos sabemos que a paisagem em um quadro não é “real”, por exemplo, embora também não seja correto dizer que ela é “falsa”. Ela existe em um plano intermediário, transicional, como diz Winnicott. Nem por isso ela deixa de nos afetar. Podemos sair do cinema extremamente chocados por um filme, ou ser tocados profundamente por um poema.

Todo objeto cultural, embora não seja “real” objetivamente, tem sua efetividade. Ele produz mudança, produz transformações – mas no âmbito subjetivo. A verdadeira causalidade da arte está no mundo interno; é ali que ela age. E, ainda seguindo Winnicott, toda a cultura se encontra nesse plano intermediário.

***

Ora, a “falta” e a “religião” só se opõe quando as entendemos enquanto realidades. Isto é, enquanto esquecemos o seu papel transicional, o seu papel simbólico – como diria Jung. A religião pode ser entendida enquanto experiência cultural, exatamente como a concepção da vida como “falta”. Não temos um ponto de referência fora da cultura para decidirmos, absolutamente, o que é cultural ou não. Toda a vida humana (consciente) é simbólica.

A proposta freudiana apenas parece condizer mais com o nosso zeitgeist – o espírito de nosso tempo. Mas ela cumpre exatamente o mesmo papel que a religião cumpre, quando acreditamos nela: ela nos preenche de sentido. Daí porque, paradoxalmente, ela preenche a nossa “falta”.

O sentido é, por definição, transicional. Encontra-se sempre na borda, no ponto de encontro (e desencontro) entre nosso mundo interno e o mundo externo. Tal como a arte, o sentido não é “real”, e nem “irreal”. Ele apenas existe na sua ordem de realidade, e nela tem sua efetividade.

***

O segundo ponto que aproxima mais do que afasta Freud e Jung tem a ver com a maneira própria como Jung entende o religioso. Pois, para Jung, a religião é uma maneira de nos relacionarmos com nosso inconsciente. Vale dizer, ela nos daria conceitos, exemplos, experiências, que, do ponto de vista da psicologia, seriam psicológicas. Mas, do ponto de vista da religião, são entendidas como “religiosas”.

Ou seja, para Jung, a religião cumpre o mesmo papel que o conceito de “falta”, em Freud. Vale dizer, ela nos aproxima do funcionamento humano. Ela ajuda a dar sentido ao que não o tem. Apenas o faz em outra linguagem.

Numa palavra, Jung entende a religião do ponto de vista metafórico. A alquimia é um exemplo ainda mais claro: a questão não é, para Jung, encontrar “na realidade” a pedra filosofal. A questão é mostrar como, para o alquimista, a busca dessa pedra implicava e permitia uma série de experiências que expandiam a relação do sujeito com ele mesmo. A ponto de, como diz uma comentadora[1], a “pedra filosofal” ser também uma condição subjetiva. Algo análogo à sabedoria antiga, se quisermos.

***

Entendidas enquanto recortes culturais, a “falta” e a religião se equivalem. Têm funcionamento análogo. Respondem à necessidade humana de simbolização, nomeando algo que não está, objetivamente, na realidade (nem faz sentido dizer que “a falta está no real”; a falta é sempre simbólica), mas no coração do homem.

Qual o nome disso que está no nosso centro? “Falta”, ou “Deus”? Ora, o divino já foi definido como “nada” por diversas correntes religiosas (por exemplo no budismo, mas também em Nicolau de Cusa, no cristianismo). Não há novidade aí, nem necessária contradição. Poderíamos dizer que é apenas a razão dando-se conta de seus próprios limites. Mas então…

**************

Notas:

[1] Marie-Louise Von Franz, “A Alquimia e a Imaginação Ativa”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s