Relação Freud – Jung: conclusão

Tendo terminado a leitura das cartas trocadas entre Freud e Jung[1], creio que cheguei à uma “conclusão” sobre o assunto da relação entre eles. E, realmente, como muitos entendidos opinam, parece que eles estavam fadados ao rompimento.

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Antes da leitura das cartas, parecia-me que Freud tinha sido dogmático com Jung, e isso o teria afastado do discípulo / herdeiro.

Após a leitura, essa posição já não se sustenta: Freud permaneceu gentil e aberto à ideias novas, a maior parte do tempo. Ele defendia suas posições com firmeza, é verdade. Mas em várias passagens, reconhece a diferença de posicionamento dos dois como algo natural, saudando tudo que os aproximava, e convivendo com as diferenças.

Então, retifico meu julgamento anterior, e reconheço que Freud fez o que pode, para manter Jung com ele.

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O que os separou, então? Creio que a ambição de Jung foi o grande fator aí. Não penso em “ambição” em termos negativos. Até onde acompanhei, Jung serviu, e muito, à causa psicanalítica, pondo sua grande capacidade de serviço à disposição de Freud, o que deu muito certo.

Mas Jung queria ter suas próprias ideias reconhecidas. E para isso necessitava, de certo modo, diferenciar-se de Freud.

Isso deu às diferenças entre eles uma dimensão desmesurada.

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A carta 243, de Jung, escrita em 19 de março de 1911, é um exemplo. Nela vemos esse autor nitidamente incomodado com a profusão de boas ideias de Freud. Jung era o revisor do primeiro Jornal internacional de Psicanálise (Jahrbush), e por isso precisava confrontar-se regularmente com o gênio do colega.

Nessa carta, ao mesmo tempo que reconhece esse gênio – lia as provas do “caso Schreber”, à época, e também algo sobre os “Dois princípios de funcionamento mental” – coloca-se a si mesmo como alguém que tem inveja de Freud, por não ter sido ele, Jung, a descobrir tais coisas.

Vemos também nessa mesma carta Jung defender uma noção de “Símbolo” bastante diferente da proposta por Freud, em carta anterior. Na carta 254, de Jung, ele prefere “esconder” de Freud um trabalho que haviam conversado de apresentar juntos. Jung escreveu “prefiro que o senhor não o veja, pois é muito idiota”. Uma autodepreciação que, provavelmente, compensava ambições exageradas.

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Essas discordâncias não eram novas. Na verdade, elas existiam desde as primeiras cartas. Jung e Freud foram muito claros nesse ponto. Nunca houve uma concordância absoluta entre eles. Essa concordância permanecia como um ideal a ser buscado.

“No meio do caminho”, no entanto, “tinha uma pedra”. Vários pequenos erros, dos dois lados, levaram ao rompimento. Mas esses erros, somados, não justificam a separação (se pudéssemos olhar isso “objetivamente”).

Acho mais condizente com o todo das cartas pensar que essa separação já estava latente havia muito. Pelo menos, desde a viagem às Américas, em 2009, mas, a rigor, poderia ser um fato emocional desde o início das trocas entre eles.

Vale dizer, a separação não foi algo “novo”, que irrompeu, por motivos “necessários”, mas algo que sempre esteve ali, e sucumbiu à falta de ligação, de entrosamento entre eles, no nível emocional.

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Em suma parece-me, olhando de fora, que ambos poderiam ter se entendido, se conseguissem se reaproximar, afetivamente. Nesse caso, nem a ambição de Jung, nem a rigidez teórica de Freud, teriam contado tanto.

Mas, uma vez minado o campo emocional, já não foi possível sustentar isso. E o rompimento se impôs.

Ambos souberam se refazer do golpe, é verdade. Mas as duas psicologias, que pareciam unidas a princípio, separaram-se desde então, como “psicanálise” e “psicologia analítica” Poderiam, talvez, voltar a se unir? Tarefa para a posteridade que, ao que eu saiba, ainda não se concretizou.

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Notas:

[1] “Freud/Jung: Correspondência completa”. Organizada por WILLIAM McGUIRE, na tradução brasileira editada pela Imago Editora Ltda.

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