O Mito e o indivíduo: as grandes questões da existência

Walter Boechat, em “A mitopoese da psique”, cita J. Campbell quando propõe quatro abordagens possíveis da importância dos mitos para o ser humano[1]. Cada abordagem inclui questões fundamentais:

a questão cosmológica – porque estou aqui? qual o sentido da minha existência? qual o sentido da morte?

a questão metafísica – qual a realidade última das coisas? O que é a verdade? é possível alcançá-la?

– a questão sociológica – como entender o nascimento, o casamento, a caça, a guerra, o comércio, a adolescência… enfim, todas as trocas e passagens que nos concernem;

– a questão psicológica – quem sou eu? qual o meu caminho profissional? como posso me realizar enquanto pessoa?

Como enfatiza Boechat, tais questões não podem ser respondidas satisfatoriamente apenas pelo Logos, pelo discurso racional – que se dirige às coisas “em si” (no seu aspecto mais amplo e abstrato, portanto). E isso basicamente porque são questões que remetem, todas, ao sentido da existência humana, singular.

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Em outras palavras, são questões relativas às nossas necessidades internas de sentido – e não ao sentido “real” ou científico das coisas.

Donde podemos entender que, onde há mito, há também espaço para a psique. Pois o mito nada mais é do que uma narrativa relativa à alma, à psique.

Por aí entendemos também o lugar ímpar – e confuso – que as psicologias ocupam, para o sujeito contemporâneo.

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Pois as terapias ocupam hoje o lugar que os mitos ocupavam. Afinal, as grandes questões da existência continuam conosco. Elas não se foram, com o fim dos mitos. Apenas perderam sua linguagem; foram obrigadas a se expressar de outras maneiras – talvez somatizando, para usar uma imagem psicológica.

Que faz o homem atual, entretanto, quando se defronta com uma dessas grandes questões? Ou não as escuta – porque elas mobilizam, elas nos põe inteiramente em questão – ou fica paralisado – porque, justamente, a única resposta possível para todas elas envolve aquilo que SE É.

Ou seja, não há respostas lógicas para as grandes questões da existência. Só há respostas existenciais… precisamos responder à elas com aquilo que SOMOS. Em consequência, elas nos põe em questão, quando não estamos muito firmes…

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O mito era uma grande resposta cultural ao problema de saber “quem somos”. Quando um sujeito se defrontava com uma dessas questões, ele podia responder com o mito, que lhe ajudava a encontrar um sentido tanto pessoal, quanto social, para aquilo que o interrogava.

Numa palavra, o mito nos interligava, nos aproximava de nossos iguais. Dava consistência aos elos que nos uniam.

Hoje, as terapias nos ajudam a encontrar respostas aos grandes questionamentos da existência (embora não sejam apenas isso). E também nos facilitam a realização dos pequenos mitos que ainda nos sustentam, como o mito da família burguesa (feliz), ou o mito da prosperidade (que tudo resolve).

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Há, ainda, o mito do indivíduo (que tudo consegue). Se compreendi bem, Freud contribuiu para a manutenção desse mito – talvez à sua revelia. Foi só na linhagem que liga Winnicott, Ferenczi e também Jung que a psicanálise encontrou os meios de re-situar o sujeito no grupo, para além desses três mitos burgueses (família, prosperidade e indivíduo).

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Notas:

BOECHAT, W. “A Mitopoese da psique”, pgs 17 / 21. Ed Vozes, 6ª reimpressão, 2021 . Link do livro na Amazon: https://amzn.to/3RvApx2

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