Mito versus ciência

Na imensa maioria dos povos, o mito serve como solo cultural comum; é a referência simbólica de um povo[1]. Entre nós, no entanto, quase não há mais mitos. Nossas referências foram paulatinamente sendo substituídas pela ciência. A ciência ocupou o lugar do mito.

Entretanto… a ciência pode ocupar o lugar do mito? Ou ainda: seria o mito apenas uma forma fantasiosa de ciência? Quanto mais eu estudo sobre o assunto, mais vai ficando claro que “mito” e “ciência” não são a mesma coisa.

Eles não respondem às mesmas necessidades; não ocupam o mesmo lugar em nossa economia mental. Logo, a ciência não deveria estar ocupando o lugar do mito.

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O último grande mito organizador de nossa cultura foi o cristianismo. Como deveria ser claro desde o início, o cristianismo – ou qualquer outro mito – não almeja ser compreendido como um relato literal do funcionamento do mundo.

O mito não se pretende “verdadeiro”, do mesmo modo que a ciência. Ao contrário, o lugar do mito é o mundo psicológico. Em outros termos, o que todo mito almeja, é ser uma explicação simbólica do mundo interno humano. Nesse campo, sim, o mito nos entrega verdades.

Vale dizer, o mito serve ao homem. Ao homem emocional; às necessidades emocionais do homem. Ele não se interessa pela verdade “material”, objetiva. Seu contexto é o mundo mental, emocional, simbólico.

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Erramos completamente o alvo, portanto, quando pretendemos que a ciência substitua o mito. Porque a ciência moderna é justamente uma explicação com pretensão não-subjetiva.

Como já discutimos em outro lugar, o que caracteriza o discurso científico atual é a busca por um conhecimento não subjetivo. Idealmente, esperaríamos da ciência que nos desse um panorama de como as coisas são “em si” e “por si” mesmas. E não como são “para nós”.

Para dizer tudo, não esperamos que a ciência crie um saber que responda às nossas necessidades internas. Queremos, antes, um saber que seja verdadeiro, e isso de forma independente do nos parece importante ou não.

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O mito, então, responde às nossas necessidades internas. Necessitamos de um tanto de ilusão, da esperança de que existe a possibilidade de o real nos corresponder de alguma forma… senão não damos conta do real. O real “em si”, como já argumentamos, é coisa de computadores e psicóticos! Encarar a vida sem a camada de sonho que nos é necessária, é igual à doença – não à “realismo”.

No entanto, vivemos numa época em que a cultura parece querer abdicar de todo mito, e assentar-se apenas no científico. Isso não é apenas doentio – é impossível. O mito é uma necessidade interna nossa. Assim como o inconsciente, quando negado, ele encontra outras formas de expressão. Nem que sejam sintomáticas.

Tudo que recusamos em nós reaparece como destino. E essa necessidade de adaptar o funcionamento do mundo ao nosso funcionamento interno, se não elaborada, forçará sua reentrada no mundo.

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Penso que, em parte, esse impulso é um dos motivadores do consumismo. A propaganda se encarrega de nos fazer acreditar que “comprando” XYZ, encontraremos a satisfação que o mito nos entregava.

Outra expressão sintomática de nosso funcionamento mitológico é a crença em “ismos” de toda espécie – comunismo, liberalismo, futurismo, etc. Acreditamos que o futuro nos salvará, que a tecnologia nos salvará, ou a economia, ou a igualdade…

A maneira como as pessoas em geral usam a ciência também fala de nosso funcionamento calcado no mito. Ninguém vê a ciência como processo de aperfeiçoamento contínuo, com resultados sempre provisórios. Em geral, vê-se o científico como “o verdadeiro”, a conclusão final, por isso responde à nossa necessidade interna.

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Concluindo, grandes encruzilhadas de nosso tempo se relacionam com o esvaziamento do mito. O consumismo, as ideologias, a falta de senso crítico, e tudo o que isso gera – o lixo do consumo, as brigas entre grupos fanáticos, a descrença na política, o mundo da pós-verdade.

O pior é perceber que mesmo ali, onde a ciência nos entrega a mesma informação que o mito veiculava, já não conseguimos nos relacionar com ela da mesma forma. Quem vai sentir necessidade de “amar os outros como a si mesmo”, se isso for sancionado como saudável pela ciência? Leremos isso num jornal, e seguiremos a vida. A ciência não nos dá o mesmo encaminhamento que o mito, porque esse último se entrelaça à cultura, e nos chega de diversas formas – como exemplo, como questão, como resistência, como convite, como mistério. A ciência é apenas informação. Atinge a casca de nosso ser. Mas os fundamentos permanecem intocados[2].

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Notas:

[1] Sobre a importância dos mitos enquanto organizadores da cultura, ver WALTER BOECHAT, “A Mitopoese da psique”, em especial o capítulo “Introdução geral ao estudo do mito”, pgs 17 e ss. Ed Vozes, 6ª reimpressão, 2021. Link do livro na Amazon: https://amzn.to/3RvApx2

[2] Jung trabalhou esse mesmo ponto, diferenciando duas formas de pensamento: o dirigido, análogo ao consciente de Freud, e o automático/criativo, próximo da noção de inconsciente freudiano. Ver C. G. Jung: “Símbolos da Transformação”, Parte I, cap. 2, “As duas formas de pensamento”. Ed Vozes, 3 Edição. Petrópolis, 1995. Sabemos que Jung sentiu muito fortemente a necessidade de reencontrar um mito para o homem moderno, e sua clínica comporta a necessidade de recriar, para o doente, um vínculo com o mito (ver “Memórias, sonhos e reflexões”).

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