O mito: visão racionalista x visão analítica

Na página 23 de “A mitopoese da psique”[1], Walter Boechat dá o exemplo de como, já no séc V a.c., Heródoto interpretava os mitos gregos a partir de um enfoque racionalista ou histórico. Diz Boechat:

“No século V a.C. Heródoto inaugura a interpretação histórica dos mitos. Os deuses e eventos nada mais seriam do que situações histórias ocorridas em tempos remotos. As abordagens de Heródoto tiravam dos deuses e heróis o manto da sacralidade. Por exemplo, a tradição rezava que o rei hitita Ciro fora criado por uma cadela. Para Heródoto, a crença deriva do fato de Ciro ter sido criado por um pastor cuja esposa tinha o nome de Spako, em grego Kino, que quer dizer, exatamente, cadela”

Como nota o autor, ao fazer a assim chamada “interpretação histórica” ou racional dos mitos, Heródoto deixa de lado o fato importante de que “O nascimento mágico é um importante mitologema, isto é, um núcleo essencial do mito, que se repete […] nas mais diversas culturas” [2].

Mais do que isso, a interpretação racionalista deixa de lado o fato psicológico de que toda criança enfrenta, no caminho de seu amadurecimento, um período onde precisa encontrar apoio justamente fora dos padrões estabelecidos pelos pais. Ou seja, ser ‘criada por animais’ é, também, uma verdade psicológica, descrita em termos poéticos, simbólicos.

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No caminho de sua “individuação”, como dizem os junguianos, todo herói (símbolo do indivíduo) passa por um abandono, uma exposição (o mitologema da exposição da criança, presente no mito de Moiśes, Édipo e vários outros), onde não pode contar com os seus, sua família, seus pares e amigos.

É necessário um contato com aquilo que está além dessa ‘humanidade’, tão familiar. É preciso estabelecer uma boa relação com o que é “animal” em nós. E o animal, tipicamente, é um representante simbólico tanto do divino – o sobre-humano – quanto da natureza – o infra-humano, por assim dizer.

Segundo Jung, essa é uma situação típica, que, por ser psicologicamente verdadeira, encontra expressão e acolhida no mito. A psicologia analítica coleciona essas situações, chamando-as de ‘arquetípicas’ (há vários exemplos; aqui, algumas aproximações entre mitos dos índios brasileiros e os mitos gregos).

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Daí a proposta junguiana de esclarecer o psíquico através daquilo que está agenciado pelos mitos. Não se trata de uma defesa do irracional, tampouco de um abandono do propriamente clínico, mas, antes, de uma ponte entre o saber atual, que brota da relação com o paciente, e o saber supra-individual veiculado pelo mito.

Nisso, um certo racionalismo científico precisa ser deixado de lado. Pois o mito, como a poesia, é uma narrativa pluri-dimensional. Não se esgota em apenas uma direção de sentido. Isso faz com que possa ser apreendida pelo sujeito a partir de seu viés, de sua idiossincrasia. Ao mesmo tempo, isso cria problemas para uma leitura mais racionalista, que busca, via de regra, o sentido “único” e “verdadeiro”.

Para falar com Guatarri, há uma função “micro-política” nessa pluralidade semântica que permite a adequação individual ao mito. Pois o mito é menos uma “verdade” a ser descoberta e guardada na estante (junto aos “troféus da ciência”…), do que uma narrativa que transforma o indivíduo.

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O mito, como a religião, tem então uma função prática, que extrapola sua literalidade e se potencializa na diferença (na abertura de sentidos). Os símbolos veiculam verdades que precisam ressoar com as vivências do leitor. Vale dizer, o mito apresenta uma verdade “sob medida” para aquele momento da psique que o aborda. Ele espelha a problemática vivida pelo sujeito, e lhe apresenta uma resposta, uma direção, por onde passou a humanidade.

Essa problemática precisa ser vivida por cada um. Em contraste, a visão racionalista se assemelha a um saber esvaziado de sujeito, uma pura vontade de conhecimento ‘abstrato’, de encontrar a verdade ‘em si’, sem a vivência necessária. Foucault inclusive caracteriza nossa relação com a verdade a partir dessa ‘des-subjetivação’.

Ora, é a vivência que estrutura a “gestalt” do sentido, no mito. Precisamos abordar o mito com nossa subjetividade inteira – nossa fome, nossa sede, nossas dores – para só então sermos ‘saciados’. Quem vai ao mito de mãos vazias, volta sem nada. Não porque o mito “seja” nada, mas porque, em sua polissemia, ele é espelhamento

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Notas

[1] Walter Bochat. “A mitopoese da psique: mito e individuação”. Ed Vozes, 2009 / 6ª reimpressão, 2021. Link do livro na Amazon: https://amzn.to/3eGBpjJ

[2] idem, pg 24

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