Ferenczi e o conceito de “orpha”. Inconsciente produtivo

No final de uma vida curta, mas extremamente produtiva, o psicanalista Sandór Ferenczi dedicou-se cada vez mais aos “casos difíceis”, como eram chamados na época de Freud os casos inanalisáveis, que hoje compõe as esquizofrenias, os borderlines e os transtornos narcísicos.

Isso ampliou e intensificou sua experiência com aquilo que extrapolava os limites da psicanálise ‘normal’. Foi estudando esses casos que Ferenczi percebeu que a psique, diante de um quadro de extrema desorganização, pode preferir enlouquecer à morrer. Em suas palavras:

“A enormidade do sofrimento, do desamparo, a ausência de esperança de qualquer ajuda exterior impelem para a morte; mas após a perda ou o abandono do pensamento consciente, instintos vitais organizadores (‘orpha’) são despertados, trazendo a loucura ao invés da morte” [1]

Ferenczi postula então um funcionamento inconsciente produtivo, um “impulso vital organizador”, atuando de modo criativo e protetor, ao qual deu o nome de “Orpha”. Esse termo remete ao Deus Orpheu, que, na Grécia antiga, era ligado aos sonhos, à poesia e à imaginação.

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De acordo com a experiência desse último Ferenczi, ligada tanto aos limites da saúde psíquica quanto da psicanálise, em certos casos graves, a personalidade pode cindir-se, como consequência de seu funcionamento ‘órphico’ – e não como patologia. A ideia seria criar para si mesma um aspecto cuidador, maternal, em relação ao todo da personalidade.

Para o autor, essa parte cindida seria

“Um ser singular para o qual a conservação da vida [do sujeito doente] tem importância, ‘custe o que custar’ (orpha). Esse fragmento desempenha o papel de um anjo da guarda, suscita alucinações de realização de promessas, fantasias de consolação; anestesia a consciência e a sensibilidade contra sensações que se tornam intoleráveis” [2]

Lembramos aqui de Jung, que insiste na ideia de que o psiquismo inconsciente traz em si um arquétipo materno mais ou menos independente da mãe real. Vale dizer, para Jung como para Ferenczi, a psique é capaz de criar para si mesma, em certa medida, aquilo que necessita.

Para esses dois autores, como também para Groddeck e, mais tarde, para a esquizoanálise, o inconsciente teria um aspecto criativo, produtivo, que aparece pouco na escrita freudiana, mais voltada para os funcionamentos inconscientes repressivos.

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É digno de nota que Jung estabeleça sua noção de inconsciente criativo a partir da experiência com pacientes esquizofrênicos, justamente aqueles que levaram Ferenczi ao conceito de ‘orpha’. Há certa similaridade também entre esse conceito e a noção do “Isso”, em Groddeck.

Ferenczi parece cada vez mais se filiar ao grupo dos dissidentes / diletantes da psicanálise. Entretanto, como defende a psicanalista Luiza Moura, é possível que parte da recusa que a psicanálise sentiu por Ferenczi deva-se justamente ao fato dele não ter sido um dissidente, mas ter permanecido “parte” da psicanálise tradicional.

A vitalidade e criatividade do autor húngaro seriam, numa imagem cara à Luiza, como um “sopro de vida que vem de dentro”. Quase como se Ferenczi tivesse efetuado uma “torção” na psicanálise, tornando-a algo tão seu quanto de Freud – ao menos, para a posteridade.

Do ponto de vista da ciência, entretanto, não faz sentido falar em “ortodoxia” ou “dissidências”. O que há (ou deveria haver) é a busca constante de ressonância, potência criativa e adequação entre o que a teoria descreve / percebe e o que a clínica apresenta.

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Notas:

[1] Citado por Haydée Christinne Kahtuni e Gisela Paraná Sanches, em “Dicionário do pensamento de Sándor Ferenczi”, verbete “orpha”, pg 244. Ed FAPESP, 2009

[2] idem, pg 245

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