“A natureza da psique”, de Jung

Posto na sequência o resumo de parte do livro “A natureza da psique”, de Jung. Para surpresa de muitos, Jung tem um lado empírico, assim como Freud. Buscou, como ele, operacionalizar aquilo que ia descobrindo na clinica, em conceitos que compartilhava visando uma crítica, um debate, cujo horizonte final era a busca pelo científico.

Ou seja, Jung não precisa ser (ou não precisa ser apenas) um místico. Boa parte dos conceitos mais científicos de Jung estão reunidos nesse livro.

Surpreendentemente, ainda, esse Jung ‘teórico’ se parece muito com o ‘Freud teórico’ – queiram os junguianos, ou não. Dialoga, também, com muitos herdeiros da intuição freudiana.

Nesse contexto, penso que Bion se destaca, justamente por sua tentativa de ‘refundar’ a teoria freudiana, em termos menos biológicos e neuróticos, e mais calcado no modelo da esquizofrenia – o modelo do qual Jung também parte.

Enfim, segue o resumo, lembrando que os trechos entre colchetes – [ exemplo ] – são interpolações minhas. Boa parte dos parágrafos contém a numeração do original, no final de cada parágrafo.

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O ics não é isto ou aquilo, mas o desconhecimento do que nos afeta imediatamente (05)

[se é desconhecimento, não é igual a uma simples abertura ao porvir??]

A questão “de que maneira podemos confrontar-nos com o ics ” é a questão de toda religião e de toda filosofia (05)

Esse desconhecimento nos aparece como de natureza psíquica, mas não conhecemos sua verdadeira natureza (05)

Há um preconceito cientificista que não permite o uso de terminologias mitológica na ciência – [como aproximações poéticas? Como conceitos abertos, insaturados, como em Bion? – (05) Esse preconceito barra o desenvolvimento psicológico do homem [inclusive do homem comum, que gostaria de algo mais “real”, mais “material”, etc]

O mito [a aproximação, a poesia] caracteriza o homem psicológico – psicologia é auto-conhecimento, logo conhecimento aproximado de si – mas isso não é considerado “científico”. No fundo, o homem tem medo de conhecer a si mesmo – daí essa resistência à psicologia (05).

A FUNÇÃO TRANSCENDENTE

Por “função transcendente” não se deve entender algo místico, mas uma função, como na matemática, que resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes (06).

Cs e ICS raramente estão de acordo. Isso não é acidental, mas decorre do comportamento compensatório ou complementar do ICS em relação à CS. (06)

A razão dessa relação é que o CS é um processo momentâneo de adaptação, que pressupõe a exclusão de muitas coisas – que então comporão o ICS (06)

A natureza dirigida dos conteúdos da CS é uma qualidade nova, ainda não bem assentada. Nos neuróticos, a parede divisória entre ICS e CS é muito mais permeável. Os psicóticos vivem sob o influxo direto do ICS (06).

Apesar de estar na base de nossos progressos sociais, a função dirigida da CS implica na inibição ou bloqueio de tudo aquilo que é incompatível com a direção assumida (06)

Essa unilateralidade cria uma contraposição no ICS, que pode ser mais ou menos pronunciada (07) [isso parece depender da unilateralidade da CS, ou do estado geral da psique do sujeito]

A análise pode ser considerada um reajustamento da atitude psicológica, para que ela corresponda melhor às condições internas E externas. Mas a vida ICS prossegue seu caminho e produz continuamente situações problemáticas (07)

Assim, a vida tem de ser conquistada sempre de novo. Atitudes coletivas podem facilitar a solução de problemas típicos, mas há problemas pessoais que requerem soluções individuais, e aí não há respostas prontas (08)

A questão fundamental da terapia é sempre respondida com a supressão da separação vigente entre CS e ICS em cada caso (08), isto é, pela função transcendente. Em geral é o médico quem se faz de F. transcendente para o paciente isto é, acrescenta ao seu CS o ICS do paciente

Encontrar o significado e a finalidade das manifestações do ICS do paciente é a base para encontrar a função transcendente (09) [unir CS + ICS] – [encontrar o significado, isto é, traduzir o ICS para uma linguagem CS que o paciente possa INTEGRAR – integrar o ICS no CS seria igual a suprimir a separação Ics / Cs?]

Esse significado deve ser encontrado pelo método construtivo de decifração do ICS, isto é, na apreciação do símbolo COMO símbolo, como expressão de um fato complexo ainda não claramente apreendido pela CS, em contraposição ao método “redutivo” (de Freud). (09)

Na prática, as coisas se parecem, no entanto: recolhe-se as associações do paciente e se questiona qual o sentido dessas associações em conexão com o conteúdo manifesto (do sonho, do comportamento, etc) (09)

Para produzir a função transcendente precisamos do material do inconsciente (10)

O sonho é um produto puro do ICS. As alterações que o sonho experimenta na tomada de CS não tem importância (10) As possíveis modificações da imagem original do sonho ainda vem do CS, assim como as associações que surgem logo que a pessoa desperta. A característica formal dos sonhos – descontinuidade lógica, fragmentação, analogias e associações superficiais, confusão, etc – decorrem da baixa tensão energética que caracteriza o sono [e não da censura, como em Freud]. Os sonhos são de difícil utilização na função transcendente, pois exigem muito trabalho interpretativo. Geralmente é mais fácil utilizar outros materiais ICS, como lapsos, associações, esquecimentos, fantasias espontâneas [sonhos diurnos?], etc (10)

Porquê forçar o ICS à vir à tona? Pq precisamos dos conteúdos ICS para complementar os da CS – erigindo a f. transcendente de forma a evitar a intromissão secreta do ICS, que está sempre agindo (11)

Porque não deixar o ICS agir como bem entender? Pq a atividade compensadora do ICS é, em geral, eliminada pela própria ação dirigida da CS. Assim, a vida psíquica tende a ser cada vez mais unilateral, o que também vai criando uma “resposta” mais intensa do ICS (11).

A simples auto-observação e auto-análise intelectual são meios inadequados para estabelecer contato com o inconsciente (12). De quais outros meios dispomos para identificar o ICS?

Quando não há fantasias (em geral em decorrência de uma depressão) precisamos apelar para ajuda artificial. Deve-se tomar o estado afetivo inicial como o objeto de atenção, o ponto de partida. O paciente deve tomar consciência dele, mergulhar nele profundamente, e registrar todas as associações e fantasias que lhe ocorrem. Deve deixar a fantasia se expandir livremente, sem perder de vista, no entanto, o estado afetivo inicial (que é sua órbita) (12)

Dessa preocupação com o estado afetivo obtemos uma expressão mais completa do estado de ânimo. A depressão é uma intromissão não desejada do ICS no CS, e com esse procedimento obtemos uma imagem dos conteúdos ICS que se congregam na depressão [como se fosse um “complexo”, um grupo de representações ligado energeticamente a um núcleo central]. Realizar esse procedimento, por sí só, exerce uma influência vitalizadora, ao aproximar os conteúdos ICS da CS. Isso representa um começo da função transcendente (13)

Pode-se expressar o distúrbio emocional através de pinturas ou desenhos também. O importante é obter-se um produto que corporifique o anseio de luz por parte do ICS e de substância por parte da CS (13)

Em casos onde há apenas um mal-estar genérico, surdo e incompreensível (e não um estado afetivo palpável) devemos criar um ponto de partida através da repressão da atenção consciente [como na associação livre]. A partir daí devem surgir imagens, palavras, vozes, etc, e tudo deve ser captado e registrado. Ás vezes o movimento das mãos vai “falar” pelo ICS, e então podem ser usados materiais plásticos, argila, etc (13)

Após conseguir o material ICS, ele deve ser confrontado pelo CS individual. Não há sentido “a priori” no material, seu sentido decorrerá do confronto daquela CS específica com o material ICS (13).

Fundamentalmente deve-se pôr os meios de expressão da CS ao dispôr do conteúdo ICS. A condução do processo deve ser deixado às associações ICS (14).

Muitas vezes impõe-se a necessidade de esclarecer conteúdos obscuros. Pode-se fazer isso desenhando, pintando, modelando… Modelar um sonho é uma forma de continuar a sonhá-lo, com mais detalhes, na vigília, e um acontecimento isolado, inicialmente ininteligível, pode ser integrado na esfera da personalidade total (15)

Uma tal condução pelo ICS só acontece qdo o CS se encontra em situação crítica (15)

Qdo se consegue formular o conteúdo ICS e entender o sentido da formulação, começa a confrontação entre EGO e ICS. O ego é o centro de continuidade da Consciência, e deve receber o mesmo valor que o ICS. Todos os lados devem ser levados em conta para se chegar à f. transcendente (15)

Nos casos de material ICS visual, em que o sentido não é palpável, devemos perguntar ao paciente “que influência o sinal exerce sobre você?”, e esperar uma reação emocional total que pode revelar o sentido do material. (16)

No processo de confrontação com o material ICS, a CS se expande na medida em que integra o material ICS (17)

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A TEORIA DOS COMPLEXOS

[ter em mente que Jung foi um dos iniciadores dos testes de associação de palavras, tendo demonstrado, experimentalmente, que certas palavras ligadas à sexualidade, por exemplo, demandavam maior tempo de associação, o que implicava que tinham “valor’ psíquico diferente. Esse tipo de teste ajudou a psicanálise a obter alguma comprovação experimental para seus postulados]

O método, na psicologia, vale mais – ou alcança mais – do que o objeto da psicologia em si. A partir de uma metodologia, estabelece-se um objeto e mede-se, depois, variações nessa definição, conforme o método. Assim, tudo depende do método, pois não se alcançou ainda uma definição unânime/consensual. (17)

Parte disso decorre que, para a psique humana, não é possível medir processos isolados; a expectativa do sujeito pesquisado interfere na medição. Isso, no entanto, não invalida a experiência ou o valor desta. (17)

[Nas experiências de associação…] Constelação é uma espécie de “contágio” pela qual uma palavra é associada à outra, e a mais outra, de forma que dizemos que algo ‘está constelado’ quando está ligado à determinado centro comum. [por exemplo, tais 50 palavras ligam-se todas à um centro comum; são então ‘constelações’ daquele centro]. Os conteúdos constelados são denominados complexos, e possuem energia específica própria [17/18]

Em experiências de associação de palavras, os complexos existentes em geral influenciam seu resultado em algo grau, ou provocam reações perturbadoras, ou ainda, reações de dissimulação. Essas reações podem ser medidas [tanto pelo tempo maior ou menor quanto pelos sinais de nervosismo, alterações nos batimentos cardíacos, sudorese, etc], abrindo caminho para a experiência. Da mesma forma, quando se dissimula algo para fugir a um complexo, é em geral difícil repetir a mesma dissimulação depois de um tempo, o que tem serventia na criminalística, por exemplo. [18]

Diz-se que ‘as pessoas têm complexos’, mas o que não é conhecido é que os complexos podem “ter-nos”. A existência dos complexos põe seriamente em dúvida o postulado da unidade da consciência e o da supremacia da vontade. Toda constelação de complexos implica um estado perturbado de consciência [deduz isso partindo do pressuposto que “ser consciente” é uma característica de ideias que ultrapassam um limite X; logo, se um complexo consegue atrapalhar esse processo, é porque tem muita energia ligada a ele, e portanto, ele seria como um ‘segundo’ centro de consciência] [18/19]

Um complexo afetivo é a imagem de uma situação psíquica de forte carga emocional, incompatível com as disposições habituais da consciência. Essa imagem é dotada de poderosa coerência [lógica?] interior, e goza de elevado grau de autonomia, podendo as vezes [quando muito intensa] agir como um corpo estranho no interior da consciência. [19]

[isso seria mais ou menos o que acontece nas crises da esquizofrenia: os complexos atuariam INDEPENDENTES do EGo (que tbém é pensado como um complexo); assim o sujeito “perderia a consciência” – o EGO perde a consciência – e os complexos “falam” sozinhos, tomam conta da motilidade, praticam atos, etc]

Citando Pierre Janet e seus trabalhos sobre a facilidade de se obter uma dissociação da consciência, com personalidades e memória próprias para cada ‘núcleo’ dissociado, nota que não existe diferença alguma entre uma personalidade fragmentária e um complexo. A questão de saber se fragmentos psíquicos tão diminutos como os complexos podem ter consciência própria não está anda resolvida. [19]

A psicologia onírica mostra-nos que os complexos aparecem em forma personificada quando são reprimidos por uma consciência inibidora [19]

Podemos considerar que os complexos são aspectos parciais da psique dissociados. Na sua origem muitas vezes há um trauma, um choque emocional ou um conflito moral, cuja razão última reside na impossibilidade aparente de aderir à totalidade da natureza humana [por exemplo, negando a própria sexualidade ou agressividade] [19/20]

[ou seja, isso sugere que o EGO É FORMADO – NÃO É UM “DADO” – ou, no mínimo, que a genética pode falhar na formação do ego, de tal maneira que ele NÃO CONSEGUE INTEGRAR os dados do corpo – o sexo, a violência, a ambivalência, etc. Talvez a forma da cultura intensifique isso]

Em regra geral, há uma inconsciência pronunciada a respeito dos complexos. Isso facilita que as vezes ocorra uma identificação com o complexo, como nas possessões da idade média. Em geral, entre um lapso de linguagem e uma possessão causadas pelo complexo, há apenas uma diferença de grau. [20]

Muitos médicos tratam os complexos dos pacientes como invenções que estariam à mercê de sua vontade, o que não é correto. No fundo disso haveria uma tentativa de dominar o complexo pela sua des-realização, o que acontece inclusive com os pacientes. [20]

É possível que um complexo se mostre tão forte que assimile a si o “eu” – [tratado aqui como um complexo também, o “complexo do Eu”]. [20]

O medo do primitivo diante da noite, ou mesmo o medo do homem moderno diante de coisas desconhecidas, expressa, no fundo, a relação do homem com os complexos. Os complexos são manifestações vitais próprias da psique; existem em todos os povos e épocas; não são necessariamente ruins. [21]

A crença nos espíritos é expressão direta da estrutura do inconsciente, determinada pelos complexos. Os complexos constituem as verdadeiras unidades vivas da psique inconsciente [21]

O temor e a resistência são aplicados ainda hoje contra os complexos; mas esses sentimentos são também a via régia em direção ao inconsciente. [22]

Os complexos fazem parte da constituição psíquica, que é elemento absolutamente pré-determinado de cada indivíduo. [23]

[Winnicot discordaria dessa parte, talvez, pensando que há um desenvolvimento emocional precoce – até os 06 meses de vida – que explica o que Jung e outros chamam de pré-determinado]

A existência dos complexos, isto é, de fragmentos psíquicos desprendidos, é um resíduo notável do estado de espírito primitivo. Este último se caracteriza por um alto grau de dissociabilidade que se expressa, por exemplo, no fato de os primitivos admitirem frequentemente várias ‘almas’ em cada sujeito. [24]

Sinto-me inclinado a admitir que os complexos autônomos se contam entre os fenômenos normais da vida e determinam a estrutura da psique inconsciente. [24]

O SIGNIFICADO DA CONSTITUIÇÃO E DA HERANÇA PARA A PSICOLOGIA

Não há dúvida de que a psique individual depende amplamente da constituição psicológica; não foi possível determinar ainda em que medida, exatamente. Um dos métodos mais promissores para determinar isso é o método tipológico, segundo o qual busca-se definir tipos, padrões de resposta uniformes, que remeteriam à constituição psicológica. [25]

A psicologia é uma ciência tão nova que ainda está tentando definir os seus próprios conceitos. Ela é comparável à ciência natural da idade média, onde havia apenas opiniões sobre fatos desconhecidos [25]

Na consideração dessa relação entre o herdado e o constituído na relação com o ambiente, há que se considerar que o processo psíquico é uma repetição de funções que estiveram permanentemente em preparação e foram herdadas com a estrutura do cérebro. Os processos psíquicos precedem, acompanham e sobrevivem à consciência. A consciência é um intervalo num processo psíquico contínuo (!) [26]

O processo psíquico que está na raiz da consciência é automático, e sabemos que se repete da mesma forma em todos os indivíduos. Por mais inumeráveis que sejam as variações da consciência individual, a base em que se assenta a psique inconsciente é uniforme. É a essa uniformidade inconsciente que devemos a possibilidade de nos entendermos. [26]

Essa uniformidade de motivos inconscientes espanta quando aparece NA consciência individual. Mesmo entre povos e raças diferentes, os mesmos motivos aparecem de quando em quando. Tentou-se de várias formas explicar a ‘migração’ de símbolos entre culturas, mas em muitos casos isso não foi possível. [27]

Repete que os arquétipos não são propriamente as ideias, mas as disposições à agir, isto é, como um tipo de instinto, de onde poderá brotar uma imagem muitas vezes semelhante entre diferentes culturas, porque estruturada a partir de uma mesma disposição herdada. Esses arquétipos pertencem ao substrato fundamental da psique inconsciente e não podem ser explicados como aquisições pessoais. Todos juntos formam o que chama de inconsciente coletivo [27]

Assim, temos que a consciência individual é condicionada tanto pelas influências que sobre ela exerce o meio ambiente, quanto por esses fatores herdados. Na medida em que o inconsciente coletivo tenta colocar os processos conscientes nos antigos trilhos, sofre da consciência uma resistência, a qual exprime o medo da consciência de perder sua liberdade para as determinações do passado [27]

A desconsideração da constituição leva à perturbações, e por isso em minha atividade terapêutica dirijo minha atenção para a relação do paciente com o inconsciente coletivo, pois aprendi que é tão importante compor-nos com o inconsciente quanto com nossas disposições individuais [27] [devemos integrar tanto o que nos é histórico/familiar/pessoal quanto isso que é trans-histórico ou geracional ou coletivo]

DETERMINANTES PSICOLÓGICAS DO COMPORTAMENTO HUMANO

A biologia é mais ampla que a psicologia, acarretando continuidades entre todos os seres vivos, por isso ela deve reconhecer uma extensa correspondência de seus fatos com os dados da biologia [28]

Os fatores psíquicos que determinam o comportamento humano são, sobretudo, os instintos enquanto forças motivadores da psique. [28]

Quanto aos instintos, OU entendemos que toda forma viva implica em processos psíquicos, e então devemos admitir a existência de funções psíquicas mesmo em organismos unicelulares [mas aí fica fácil coincidir instintos E processos psíquicos], OU devemos entender que a função psíquica acompanha um sistema nervoso centralizado [e aí nos cabe explicar como os instintos se expressam também psiquicamente] [28]

Propõe que o instinto, como fator em si (externo à psique, biológico, etc) atua como mero estímulo, sendo determinante não esse instinto em si, mas a maneira como o instinto (enquanto estímulo) é assimilado pela estrutura psíquica. Essa assimilação psíquica ele chama de psiquificação. [28]

A. FENOMENOLOGIA GERAL

Essa psiquificaçao permite entender a variabilidade do fator instintivo. [28]

A fome, como expressão do instinto de autoconservação, é sem dúvida um dos fatores mais poderosos que influenciam o comportamento humano, sendo mais forte do que a sexualidade no homem primitivo [29]

O instinto de conservação da espécie – a sexualidade – é sem dúvida importante, mas foi tornada supravalor, hoje, pelas restrições que se multiplicaram em relação à ela, à medida que a cultura se desenvolveu. [29]

Propõe, como terceiro grupo de instintos, o impulso à ação, no qual inclui o impulso à viajar, o amor à mudança, o desassossego e o instinto lúdico. [29]

Propõe também um instinto de reflexão, que causaria uma canalização do impulso ao agir, transformando-o em uma atividade endopsíquica [assim, aquele desassossego que estava ligado também ao instinto lúdico – que por isso ligaríamos às tentativas de domínio sobre o objeto – seria transformado de ação exterior em ação interior, ou tentativa de domínio interior, na forma de reflexão] 29

[perceber como até hoje prossegue essa busca de organização / percepção dos instintos básicos; exemplos apoiados na neurociência não diferem muito dessa proposta de Jung]

Os instintos não são criativos; constituem uma organização estável, automática. Mesmo assim o homem é capaz de produzir formas novas. Não sabe se “instinto” é a palavra correta para este fenômeno, mas propõe a expressão instinto criativo para explicar a faculdade de criação, entendendo que o criar, no homem, é tão compulsivo quanto os fenômenos dos demais instintos, embora não seja tão fixo quanto os demais. [29/30]

Há ainda outras modalidades de funções psíquicas influenciando o comportamento humano, como o sexo, as disposições hereditárias e a idade. Geralmente considerados determinantes fisiológicos, ele os considera também determinantes psicológicos porque podem ser psiquificados. Assim, a idade fisiológica nem sempre corresponde à idade psicológica, ou o sexo anatômico ao sexo psíquico, etc [30]

Acrescenta ainda 3 outras modalidades de influências psicológicas:

a) o fato de a psique funcionar predominantemente de maneira consciente ou inconsciente (sendo que um extremo muito consciente acarreta perda da naturalidade animal, e um extremo muito inconsciente a falta de desempenho intelectual e ético);

B) o fato de o funcionamento ser predominantemente extrovertido ou introvertido (que define a direção do processo psíquico, se predominantemente voltado para o exterior ou para o interior), e

C) o fato de o funcionamento psíquico ser mais orientado para o espiritual ou para o material. [30]

FENOMENOLOGIA ESPECIAL 

A psique é tão complexa por formar-se de muitos fatores atuantes ao mesmo tempo, além de ter uma tendência à mudança, à variabilidade, derivada do fato de não ser uma estrutura homogênea, mas consistir de unidades hereditárias frouxamente ligadas entre si, as quais revelam acentuada tendência a se desagregar [31]

Essa tendência à cisão parece ser normal, e pode ser vista claramente nos primitivos. Não é preciso que seja o caso de múltiplas personalidades ou de alterações esquizofrênicas, mas somente de complexos inteiramente normais. Os complexos derivam de traumas ou de tendências incompatíveis, e influenciam na consciência como um ‘corpo estranho’, geralmente inconsciente. [31]

[o complexo tende a ser ICS pq se fosse CS, sua energia estaria integrada ao EGO, e portanto não seria um ‘complexo’ – isto é, não estaria AO LADO do ego. Lembrar que a CS implica em direcionamento, e portanto, em exclusão de muitas coisas que não cabem nesse direcionamento específico]

Novos conteúdos ainda não assimilados pela consciência podem se constelar (agrupar?) no inconsciente e comportar-se como complexos, isto é, agirem de forma independente da consciência, como se tivessem existência própria. Isso é comum com conteúdos arquetípicos (fatores hereditários universais). [31]

Os arquétipos atuam principalmente mediante o processo de identificação (com a personalidade total), o que se explica pelo fato de os arquétipos representarem situações típicas da vida. Diferente da dissociação causada pela esquizofrenia, os arquétipos são dotados de características pessoais do sujeito e carregados de sentido. [31]

Cita como faculdades da consciência do homem: a sensação (capacidade de perceber em geral); o pensamento (a capacidade de interpretar o que foi percebido); o sentimento (capacidade de constatar o valor de um objeto, se ele implica prazer ou desprazer), e a intuição (capacidade de perceber as relações possíveis (virtuais?) com objetos fora do campo de visão atual) [32]

Via de regra, uma das 4 funções acha-se particularmente desenvolvida, o que imprime à mentalidade um cunho particular, dando origem à disposições típicas (tipos pensativos, tipos sentimentais, etc). As funções não desenvolvidas ficam em estado infantil ou arcaico, e podem se tornar influências inconscientes, atrapalhando as intenções da consciência [32/33]

As oposições principais se são entre o pensamento e o sentimento, de um lado, e entre a sensação e a intuição, de outro. [33]

Acabo de reunir todos os fatores que desempenham papel determinante no comportamento humano.

[sempre lembrando que o ICS não integrado faz pressão em direção à luz, aos meios de expressão da CS; enquanto esta ´ultima precisa de substância, precisa da solidez que o ICS e os instintos têm. Mas para que um se realize no outro, eles precisam se comunicar. O sintoma, via de regra, é uma forma de estancar as trocas CS <> ICS, mantendo ao mesmo tempo ALGUMA troca – que é o sinal do trauma inicial que causou a dissociação Ics / CS. Essa diferenciação de Jung explica também pq precisamos de um ‘outro’ na terapia: pq nosso ICS é um fruto NECESSÁRIO do direcionamento de nossa CS; ou seja, produzimos necessariamente um ICS ao justamente tentarmos ser CS; então não podemos ser “CS” de nosso “ICS”, por definição. O que pode ser CS é o símbolo, isso é, uma PONTE entre o ics e o cs]

INSTINTO E INCONSCIENTE

Entende-se geralmente por “instinto” um comportamento ocasionado por uma necessidade obscura, aonde nem os motivos nem a finalidade são conscientes. Contrasta com os processos conscientes, que se distinguem pela continuidade de suas motivações. A ação instintiva aparece como uma espécie de interrupção da continuidade da consciência. [34]

Essa definição só diferencia o instintivo do consciente, mas nada diz acerca do instinto em sí, e sua diferenciação em relação aos demais processos inconscientes, que não podem todos ser ditos “instintos”. [34]

A origem dos instintos constitui um grande problema. Se observarmos o mundo animal, veremos inúmeros casos de instintos que dificilmente derivaram de aprendizado (como o de uma mariposa que pega o pólem de uma planta que só se abre uma vez no ano, e nessa única vez ela deposita esse pólem exatamente num orifício que tem de ser aberto numa segunda flor, sendo que ela faz esse procedimento apenas uma vez na vida) [35]

Uma alternativa interessante foi proposta por Bergson, com a noção de intuição. Uma intuição seria uma percepção inconsciente, sendo, por isso, um processo análogo ao instinto. [35]

Entendo o inconsciente como tudo aquilo ao qual falta a qualidade da consciência, sendo que a característica de “ser consciente” provavelmente decorre da posse de um certo valor energético, abaixo do qual o processo torna-se novamente “inconsciente”. [36]

Existe uma atividade associativa inconsciente que dá origem aos sonhos. A soma de todos esses conteúdos constitui o inconsciente pessoal. [36]

Mas no inconsciente encontramos também as qualidades que não foram adquiridas individualmente mas são herdadas, ou seja, instintos destinados a produzir ações que resultam de uma necessidade interior [herdada], sem motivação consciente. [36]

[não fica claro se esses instintos que resultam de uma necessidade interior herdada são a intuição ou os arquétipos, ou outra coisa ainda]

Devemos incluir também as formas inatas de intuição, ou seja, os arquétipos da percepção. Da mesma maneira que os instintos impelem a uma forma de existência, os arquétipos forçam a percepção e a intuição a assumirem determinados padrões. Instintos e arquétipos formam conjuntamente o inconsciente coletivo. [36]

Acredito que a questão do instinto em psicologia não pode ser tratada sem levar em conta os arquétipos, pois uma coisa condiciona a outra [36] –

[os instintos condicionam os arquétipos? Ou ambos são condicionantes, em lugares diferentes – no fisiológico e no psicológico?]

O ser humano cultivado conseguiu transformar parcialmente os instintos em atos da vontade, mediante cuidadoso treinamento. Mas ele também tende a negar seu comportamento instintivo, imputando razões conscientes para seus atos, o que leva o pesquisador a muitos enganos [36/37]

O arquétipo (nesse momento da obra de Jung) seria correlato às categorias da razão de kant; seria um organizador à priori de nossas percepções, fazendo com que elas sejam uniformes e regulares [37] [mas isso não seria determinado pela estrutura do órgão? Por exemplo, o olho vê de tal e tal forma, e isso estrutura a percepção visual???]

Explica pelo concurso do arquétipo (imagem que organiza a percepção) mais o instinto o comportamento daquela mariposa [37]

Os arquétipos nos ajudariam a entender e explicar a intuição [que seria como a percepção inconsciente de um arquétipo??]. Os arquétipos são o correlato (psicológico?) dos instintos. [38]

A ESTRUTURA DA ALMA

A alma é um reflexo do mundo e do homem. É a única experiência direta que temos: os conteúdos da consciência. Quanto aos conteúdos: as percepções sensoriais nos dizem que ALGO existe lá fora (sem dizer O QUÊ existe. Isso já é a apercepção, a qual depende de um reconhecimento do objeto, o que supõe comparação com outras impressões e memórias, e sobretudo, pensamento). O sentimento é uma avaliação sobre o objeto (ele é bom, mau, belo, etc). Já a intuição seria a percepção das possibilidades inerentes (virtuais?) a uma dada situação. Distingue ainda os processos volitivos (impulsos dirigidos) e os processos instintivos (impulsos compulsivos, sem liberdade).

Os processos aperceptivos podem ser dirigidos e racionais (ex: atenção) ou não dirigidos e irracionais (fantasias, sonhos). Os sonhos compõe o 7° conteúdo da CS, e são a resultante mais importante e mais evidente do ICS.

O hipnotismo exemplifica claramente a existência de processos efetivos ICS; vê-se ali que embora o conteúdo X não esteja na CS em dado momento, ele mesmo assim pode exercer influência desde o ICS. O mesmo ocorre nos sonhos, o que permite concluir que o ICS tem capacidade de composição e associação de ideias.

A sintomatologia das doenças mentais (da neurose a esquizofrenia) tem suas raízes na atividade ICS e é, geralmente, uma tentativa de cura.

Haverão conteúdos próprios ao ICS? Todas as atividades que se efetuam na CS podem processar-se também no ICS (mesmo problemas intelectuais complexos). O sonho muitas vezes contém ideias e sentimentos não experimentados durante o dia – mas que parecem idênticos, tanto no sonho (que é CS) quanto na inconsciência. Haverão sonhos inconscientes? Talvez sim. Os sintomas seriam equivalentes a “sonhos ICS”, pq são conteúdos do ICS que a CS não reconheceu. O sonho pode expressar também temas simbólicos ou mitológicos. A expressão simbólica ou mitológica corresponde à mentalidade do homem primitivo, que não se expressa em termos abstratos. O sonho expressa, então, uma camada ainda mais antiga do ICS – o ICS coletivo – que produz conteúdos ainda mais estranhos à CS. O conhecimento da mitologia nos permite entender a simbologia dessa camada mais antiga.

Fórmulas religiosas ou mitos antigos podem conter símbolos que ainda hoje ascendem algo em nós. E conseguir vincular a dor pessoal que sinto à uma dor maior e “impessoal”, por pertencer a um fundo comum da humanidade, é por si só curativo. Esse fundo comum é análogo, em termos psíquicos, à continuidade que existe no corpo, que conserva em sua estrutura elementos comuns inclusive aos invertebrados. Teoricamente deveria ser possível extrair do ICS coletivo não só a psicologia do verme, mas até mesmo a da ameba.

Assim como o organismo não pode ser compreendido fora de sua relação com o ambiente, o ICS coletivo deve ser compreendido na relação da psique com condições universais e permanentes.

Os mitos são os verdadeiros expoentes do ICS coletivo. São uma espécie de projeção do ICS coletivo. Assim a astrologia: o caos das estrelas foi organizado por projeções mitológicas do ICS coletivo, e é DAÍ que vem seu poder, sua influência (não das estrelas, mas do ICS coletivo). Assim também muitos fatos físicos regulares, como o nascer do sol. A psique reagiu a essa ocorrência regular com mitos. Porquie não registrou simplesmente o fenômeno ? Porque a mente primitiva não tem o mesmo grau de separação entre sujeito e objeto que nós temos. Ela confunde ambos, e essa vivência (essa participation mystique, como diz Lévy-Brunh) expressa-se então em imagens fantásticas, em mitos de heróis, que narram AO MESMO TEMPO o fato físico em si e a experiência do homem com ele. O primitivo vê sua mente projetada no sol – assim como seu temor com a noite projeta-se na lua. A sexualidade, a mulher, ligaram-se à lua, assim como a noite, porque era assim que ele as vivia. Também os sonhos e a loucura ligaram-se à noite, o que também fez o nascer do sol ser um ‘alívio’ para o homem.

Não é o fato físico em si que se fixa como imagem na mente, mas as fantasias causadas pelo afeto. Da mesma forma, as condições fisiológicas, as pulsões glandulares, provocam fantasias carregadas de afeto. A sexualidade aparece como um Deus ou uma serpente, a fome transforma os alimentos em seres divinos. Todas essas experiências constantes e repetidas criam ARQUÉTIPOS.

Os fatos mais comuns da vida cotidiana, os que sempre se repetiram, produzem os arquétipos mais poderosos – como o marido, a mulher, o pai, a mãe, o filho. Traduzir esses arquétipos para uma imagem CS – como o Deus pai, ou o cristo filho – nos permite viver uma parte do ICS coletivo em uma realidade tangível

[eu diria: compartilhada].

O ICS é um sistema vivo de reações e aptidões, que determinam a vida individual por caminhos invisiveis. Os arquétipos são a forma com que os instintos se expressam. Deles vem também nosso impulso criador (pois é a natureza que, mesmo sendo tradicional, impulsiona a criar).

Assim como o meio ambiente assume um aspecto benigno ou hostil para o homem, também as influências do ICS lhe parecerão um poder contrário com o qual tem de conviver. As práticas mágicas servem a esse objetivo. Depois, as filosofias e religiões cumprem o mesmo papel. Sempre que tal sistema de adaptação começa a falhar surge inquietaçao, e busca-se novas formas de convivências com o ICS.

[estaríamos nesse momento, agora? E a psicanálise seria uma dessas formas?]

O ICS coletivo é a herança espiritual da humanidade, que nasce de novo na estrutura cerebral de todo ser humano. A CS, ao contrário, é fenômeno efêmero, dedicado à adaptação ao presente. O ICS é a fonte de todas as forças instintivas da psique, e carrega as categorias que a regulam (os arquétipos). Mesmo a física atual contem ideias arquetípicas, geradas pela aplicação e adaptação conscientes dessas ideias à realidade. Pois à CS cabe, também, traduzir criativamente o mundo exterior.

VIII – CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS SOBRE A NATUREZA DO PSÍQUICO

A. A QUESTÃO DO INCONSCIENTE SOB O PONTO DE VISTA HISTÓRICO

Até o séc XVII, a alma era considerada conhecida, era um dado imediato da experiência; havia uma CERTEZA subjetiva quanto à ela. Hoje pensamos que isso não basta: é preciso uma certeza objetiva. Antes creditava-se à razão a capacidade de “sair” do psíquico, de não ser determinada por ele. Tudo que pensamos é determinado pelo psíquico, e nesse sentido a psicologia seria a mãe de todas as ciências.

Quanto mais inconsciente a pessoa, mais ela se iguala às outras. A CS tem a ver com a diferença entre as pessoas, e com a liberdade. Mais CS = + liberdade e diferença. Entretanto, “verdadeiro” também tem a ver com aquilo em que a maioria acredita. Então uma CS muito diferenciada sempre parecerá ‘subjetiva ( = não verdadeira) para a massa. Daí a dificuldade da psicologia, de ser ao mesmo tempo subjetiva e objetiva.

A demora da psicologia em conquistar sua independência da filosofia e da religião parece significativo. A psicologia é como uma função mental inibida pela CS. A CS só permite que apareçam conteúdos que estejam de acordo com o ego.

NO final do sec XIX e começo do XX, a psicologia OU reconhecia um ICS sem valor psíquico, OU dizia que tudo que era psíquico era CS. Isso se prende a supervalorização das representações – como uma ‘representação’ seria ICS? – e também à noção de sujeito – como um ‘sujeito’ seria ICS. Entretanto, um sujeito ICS não é o mesmo que o ego.

IMPORTÂNCIA DO INCONSCIENTE PARA A PSICOLOGIA 

A hipótese do ICS muda completamente o cenário. A alma deixa de ser aquilo que conhecíamos, nosso único conhecimento direto, e se torna o desconhecido. Entretanto as pessoas temem o desconhecido, e tem a ilusão de que o ‘dominam’ dando-lhe um nome.

Igualou-se o sujeito CS à psique por muito tempo. Esse sujeito constitui o sujeito do conhecimento, o sujeito que enuncia um saber e ao qual todo saber é relativo. Entretanto, se há um domínio da psique estranha inclusive para esse sujeito da CS, segue-se que pode haver uma grande área da realidade também obscura para nós.

Sempre que o espírito de Deus é excluído dos cálculos humanos, seu lugar é tomado por um sucedâneo ICS: em Schopenhauer, a vontade ICS; em Hegel, a equiparação entre razão e espírito; em Carus, o ICS como tal. A filosofia de Hegel equivale a uma irrupção do ICS.

O conhecimento resulta de uma ordem (derivada do comportamento dos objetos no real) imposta às reações do sistema psíquico. Entretanto, a CS participa apenas do resultado final desse encontro da psique com a realidade. Nada sabemos do ICS, mas é provável que ele tenha todas as capacidades da CS (memória, pensamento, vontade, etc), só que de forma subliminar.

A DISSOCIABILIDADE DA PSIQUE 

O fenômeno da dissociação da personalidade nos permite pensar como seria possível a existência de uma ‘vontade’ ou uma ‘representação’ ICS, dado que essas entidades supõe um sujeito: bastaria que esse sujeito fosse ele próprio ICS, isto é, subliminar, dissociado da CS. Vemos isso comumente acontecer nos fenômenos de dupla personalidade, ou de fragmentação da CS em pedaços separados.

A ligação (integração ?) dos processos psíquicos é condicionada; entre outras coisas, os processos ICS dependem notavelmente das experiências da CS, enquanto que os processos CS são separados entre si.

[a ligação dos processos psíquicos se dá por associação lógica? Temporal? Contiguidade Da experiência? Freud procurou resolver isso a partir do DESPRAZER associado a certas experiências – que, por isso, eram excluídas de um psiquismo pensado como ordenado em função do prazer. Em Jung, é próprio da CS a dissociação; todo conteúdo CS é ‘dissociado’ – para poder ser apreendido separado dos demais. O que equivale a dizer que a CONTINUIDADE dos conteúdos é uma característica do ICS, mas que não explica tudo. De fato, a partir de Winnicott, podemos dizer que as experiências que formarão a estrutura do ICS contam muito, no início da psique; e, a partir de certo ponto, a vontade CS [o ego] tbém conta, pq é a partir da possibilidade dele integrar ou não as experiências, que elas vão se ordenar. Se pensarmos no EGO COMO uma ordenação / dissociação específica, podemos integrar as duas abordagens – o ego seria um conjunto de representações / experiências / memórias dissociada da continuidade do ICS, e continuamente reatualizadas no confronto com as percepções do dia. Vemos, na paixão, como o ego repete com o objeto uma IDENTIFICAÇÃO, que RECRIA UM NOVO EGO, uma nova representação de “si”, dissociada. Isso, como quer Freud, replicaria o processo mesmo de formação do ego inicial: a paixão por um ‘outro’ é, inicialmente, indistinguível da identificação]

Se pensarmos em termos energéticos, onde CS = acima de um certo limiar, e ICS = abaixo de um certo limiar, conhecemos casos em que mesmo tendo muita energia disponível, um conteúdo não aparece na consciência, e permanece dissociado. Isso se deve OU ao fato de seu conteúdo ser incompatível com a CS, OU ao fato de a CS não ter meios de o integrar, o compreender. O sintoma expressa justamente uma situação aonde um conteúdo ICS tem muita energia e precisa aparecer, mas como a CS não o pode integrar, ele aparece disfarçado, simbolicamente.

A CS é um sistema perceptivo, e deve ter limites, assim como só percebemos uma faixa do espectro de cores ou das frequências do som.

INSTINTO E VONTADE 

As primeiras descobertas de Freud chegaram a uma ideia de ICS como um fenômeno de repressão, com conteúdos pessoais. Há um nexo indubitável entre os conteúdos ICS e os instintos. Os instintos possuem um aspecto fisiológico, relativamente inalterável e automático (que seria a parte ‘inferior’ do impulso) e um aspecto psicológico, alterável e voluntário (sua parte ‘superior’, segundo Janet).

Todos os processos psíquicos estão de algum modo ligados a um substrato orgânico. Entretanto, a “alma”, assim como a “vida”, não pode ser explicada apenas em termos de seu substrato orgânico. Como separar o instinto de sua expressão psíquica? O instinto seria compulsivo, do tipo ‘tudo ou nada’, enquanto sua expressão psíquica pode ser submetida ao controle voluntário. Assim, o psíquico aparece como emancipação da função, i.é, quando a função se desliga de seu determinismo. Talvez sua energia se desvincule do instinto, e possa ser utilizada livremente.

Os instintos podem se chocar ou reprimir outro, e isso, ao mesmo tempo que permite que a vontade direcione a função, também aumenta a possibilidade de cisões na CS.

A vontade é uma forma de energia, como a energia que supomos derive dos instintos, que fica livre, à disposição da CS (ou do EGO)?

CONSCIÊNCIA E INCONSCIENTE 

O ICS é o psíquico desconhecido. Inclui tudo que percebemos, pensamos, sentimos, sem prestar atenção, tudo que se prepara para o futuro mais ainda não chegou à CS.

Aparentemente, o que muda no conteúdo quando ele se torna CS é apenas sua relação com o EGO.

[continuando a nota acima, então: o problema da criação do EGO se relaciona à divisão ICS / CS? Como se o Ego fosse uma instância necessária à efetiva separação entre ICS e CS? Poderíamos dizer, com Damásio, que o Ego seria uma representação nova do sujeito, ao qual convergem as percepções tanto do corpo qto do mundo; uma duplicação da representação ‘natural’ – um ego primário, ou consciência primária, como diz Damásio – que, entretanto, se liga mais ao social, ou ‘outro’. Um segundo sujeito, literalmente, ao lado do sujeito do ics, e que comporta uma diferença na organização dos conteúdos mentais. Isso coincide tbém com Bion, se entendermos que a separação ICS / CS é derivada de uma certa relação com o outro [o outro detém a função alfa que TRANSFORMA os elementos beta em el. Alfa, criando a barreira de contato – a separação – entre ics e cs]. Juntando tudo, teríamos que a relação com o outro cria (por identificação) uma nova representação de sujeito, que é o Ego, a qual instaura uma representação do social no corpo, instaurando tbém uma nova organização dos conteúdos mentais, diferente daquela existente no Ics. Os sintomas / doenças são problemas de tradução de um sujeito ao outro]

Nota que nos estados patológicos (ICS) tudo continua funcionando, como se um sujeito consciente estivesse presente (percepção, pensamento, sentimento, intenção, etc). Nos casos de ‘dupla personalidade’ as vezes surge inclusive um segundo ego.

Entretanto, há diferenças entre CS e ICS: os complexos afetivos, por exemplo, não são corrigidos por associações, e facilmente assumem caráter compulsivo – do qual se despojam quando viram CS. Por isso, tornar CS conteúdos ICS é terapêutico. Os complexos, quando ICS, podem se tornar numinosos.

[então a CS se caracteriza por uma maior PLASTICIDADE do impulso; sua energia pode ser direcionada mais livremente para longe de seu objetivo inicial, e ele é CORRIGIDO pelas associações da REALIDADE; dito de outra forma, a realidade só tem importância na CS, o que sugere ao mesmo tempo que o nascimento da função da CS tem a ver com isso. Lembrar de Winnicott e a realidade como ‘ofensa’ à onipotência; por outro lado as neurociências dividem a memória em explícita – CS – e implícita – ICS. Essa última não admite modulação pelo pensamento cs, como dizia Freud]

Complexos afetivos ICS podem se impôr ao sujeito, que a eles se entrega, arrebatado (nas dissociações esquizofrênicas, por ex).

[aqui surge outro aspecto do Ego, que é o ENERGÉTICO: uma característica do ego é poder dispor, comandar, uma certa quantidade de energia. Esse comando parece estar ligado à integração: só é comandado o que é integrado. Tudo se passa “como se” toda a existência psíquica ICS buscasse sua tradução em termos do EGO – cs. Mas o Ego só dispõe, para essa tradução, das ferramentas da cultura. Assim, como quer Freud, o ego trabalha para 2 senhores: o ics, e a cultura. Como sujeitos, somos o resutado do choque com esses 2 senhores, os quais se especificam nas nossas experiências concretas de desenvolvimento – nossa história particular. Podemos supor que o ego será maior ou menor em função de como a cultura o aparelha]

Propõe pensar num espectro como o da difração da luz, aonde a parte mais elevada seria a CS, e a parte inferir seria o ICS. Quanto mais próximo do ICS, mais o funcionamento se assemelha ao do instinto (automatismo, não-influência do pensamento, etc); qto mais próximo da CS, mais se assemelha ao pensamento (podem ser corrigidos pela realidade, transformados, não são automáticos, etc)

Se analisarmos os conteúdos CS, percebemos que há níveis de CS, e até, paradoxalmente, conteúdos conscientes que são inconscientes sobre outros aspectos (o exemplo que dá é a distância entre fazer uma coisa e SABER que faço essa coisa). Conclui que todo conteúdo CS pode ser ICS por um outro aspecto.

[continuando, do ponto de vista do EGO: logo, a CS que o ego constitui pode ser apenas um fragmento, um lado ou aspecto, do dado em si. Poderíamos até definir a CS pela quantidade de controle dada ao ego, a partir dessa leitura específica do dado. Com o quê, o ego seria o ‘outro lado’ necessário da diferenciação da Cs]

Aproxima o mental do aprendido, aquilo que se liberta do mecanismo – um recuo dos processos mecânicos em favor das modificações aprendidas

[penso nas transformações de Bion; como operar transformações? através do vínculo com emoções / relações; a relação contém a emoção; e a emoção contém o pensamento. Transformar um conteúdo do ICS para o CS é então simplesmente encontrar continência relacional para ele. O que nos permitiria concluir que A CONSCIêNCIA É UMA FUNÇÃO RELACIONAL – só existe “EU consciente” quando introjetamos uma relação do ambiente e um ‘complexo de eu’, como diz Jung. Ver que para Bion a questão é construir a SEPARAÇÃO entre ICs e CS através dessa continência – a narração; o que equivale a dizer que construir a separação é ‘construir’ a consciência – isto é, esse estado do conteúdo, essa ‘contenção’ do conteúdo – que o permite ser modulado pelo pensamento CS, em função do EGO]

A psicologia onírica tornou provável a existência de processos complexos semelhantes à CS no ICS (processos de pensamento e associação?)

Nos animais pode-se perceber fragmentos de ego e CS, mas eles não se integram num ego estruturado. Na clínica vemos algo semelhante: fragmentos de ego vão se integrando até (re)construir um ego maior, uma espécie de continente entre várias ilhas.

[a permanência de um ego psíquico – para diferenciar de um corporal, como quer Damásio – implica numa memória, numa continuidade desse Ego. Para Winnicott, essa continuidade do ego depende, também, de uma continuidade do ambiente – o ambiente como memória, a partir do qual o sujeito vai introjetar uma continuidade que, a rigor, não existe]

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