Freud e Jung: extratos de uma tragédia anunciada

Seguem extratos das cartas trocadas por Freud e Jung, anunciando a tragédia ocorrida ao final da relação deles, em 1913.
Essas cartas foram, todas, escritas pouco tempo após o mês ou pouco mais que passaram juntos na América. Mesmo antes dessa viagem, no entanto, já havia, aqui e ali, sinais de animosidade.

A numeração das cartas segue a ordenação proposta por William Mcguire [1]

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Carta 165, de Jung, escrita a 30/11/1909:

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“Sinto cada vez mais que uma compreensão aprofundada da psique (se de todo possível) não pode prescindir da História ou de uma íntima colaboração com ela, assim como a compreensão da anatomia e da ontogênese só se torna possível com base na filogênese e na anatomia comparada. Por isso é que a Antigüidade me aparece agora sob uma luz nova e significativa. O que hoje encon­tramos na psique individual — em formas comprimidas, atrofiadas ou unilateralmente distintas — pode ser visto no passado em plena integridade. Feliz de quem puder interpretar os sinais!”

(Comentário: Quase imediatamente após o sonho da ‘casa de vários andares subterrâneos’, que Jung tivera à bordo do navio rua à América (set de 1909), junto com Freud, seu interesse pela mitologia despertou fortemente. Freud interpretar o sonho como um “desejo de morte” de alguém, isso é, ele mesmo [Freud], com o que Jung não concorda)

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Na mesma carta:

“Em um momento adequado eu gostaria de lhe extrair, por exemplo, uma definição de libido. Até agora não cheguei a nada que me satisfaça.”

(Comentário: o livro de Jung que marcará a ruptura de ambos, em 1911, será, justamente, sobre a definição da libido)

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Carta 167, de Freud, escrita a 12 de dezembro de 1909

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“Abstive-me, porém, de escrever-lhe que o trabalho dele fatalmente me deixou a impressão de alguém da boa sociedade, que se junta aos boêmios e então escreve aos próprios pares para informar que a nova turba é bem interessante, é até meio honesta, e que talvez andar com ela não seja tão perigoso assim. As palavras finais com que agradece ao Geheimrat realmente me irritaram. Terá sido porque achasse que o elogio era devido a mim, que tomei idêntico interesse pelas neuroses sem recorrer, no entanto, às frases floreadas? Em suma, dei livre curso à minha irritação e não creio que isso tenha feito mal.”

(Comantário: O autor do trabalho citado era Binswanger, o qual foi apresentado à causa psicanalítica por Jung, e era colaborador do Jornal de psicanálise que ele e Freud publicavam, o “Jahrbuch”. Essa crítica veio logo depois de um comentário de Freud sobre um trabalho que Jung prometeu fazer, mas não fez. Esse último seguiu-se a outro comentário, onde Freud reclama que “os suíços” ficaram muito em segundo plano, e esperava que colaborassem mais com o Jornal. Penso então que a crítica à Binswanger, como representante de uma elite pouco acostumada ao ‘trabalho braçal’ da vida real, podia estar encobrindo uma crítica à Jung. Freud se considerava localizado, assim, mais próximo ao homem “do povo”, que, embora pobre, é honesto e conhece o valor real das coisas. Essa imagem parece condizente com a maneira como ele se apresenta, em várias cartas, onde o tema é a luta contra o “status quo” da época).

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Carta 168, de Jung, escrita em 14 de dezembro de 1909:

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“Aqui temos também, a meu ver, a razão da ilimitada crença do neurótico obses­sivo na veracidade das conclusões a que chega; a validez universal que lhes é conferida ignora por completo a razão e a probabilidade lógica: ele está certo, sempre certo, e assim tem de continuar. Desse apego irrestrito às próprias convicções fica-se a apenas um passo da superstição, que por sua vez não é mais que um exemplo especial de auto-hipercatexia, ou melhor, de fraqueza na adaptação”

(Comentário: Jung está falando sobre o “Homem dos ratos”, de Freud, e esse parágrafo vem logo após ele [Jung] argumentar que uma crença “onipotente” em suas próprias ideias não parecia ser uma característica de toda neurose obsessiva, mas talvez apenas daquele caso. Ora, Freud já tinha se reconhecido, em carta anterior, alguém com um complexo obsessivo. Penso que esse trecho pode ser lido, então, como uma crítica – talvez ainda inconsciente – de Jung à Freud, com seu “apego irrestrito às próprias convicções”. É significativo que, disso, Jung derive a superstição, algo de que ele mesmo estava sendo acusado, indiretamente, por Freud)

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A resposta de Freud à essa última carta, de Jung, merece ser colocada quase na íntegra, pelo explícito tom belicoso:

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Carta 169, de Freud, escrita à 19 de dezembro de 1909:

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“Diverti-me muito com sua hipótese de que meus erros passem a ser venerados como relíquias, depois que eu saia de cena, mas de modo algum posso endossá-la. Creio pelo contrário que os jovens se inclinarão a demolir tudo o que não seja realmente sólido em minha herança. Muito do que ocorre na [psicanálise] é justamente o oposto do que se espera encontrar em outros domínios. Como o senhor mesmo há de desempenhar nessa liquidação um papel de realce, tentarei confiar à sua guarda algumas de minhas idéias em perigo.

Vejamos de início sua dificuldade em relação à “minha” libi­do. Nas primeiras frases da Teoria da Sexualidade há uma clara definição na qual acho que nada precisa ser alterado: o análogo de fome, para o qual a língua alemã não tem outra palavra, no contexto sexual, que não seja a ambígua Lust.

Passemos então ao proveito extraído de meu trabalho sobre a neurose obsessiva, que eu preferiria discutir com vagar, pessoalmen­te, em .meio a eventuais estalidos na parede e nos móveis: ótimo
que o senhor aceite minha fórmula para a obsessão: “substituto re­gressivo da ação.” De bom grado eu faria o mesmo no tocante à que propõe para a Dem. pr.: substituto regressivo da realidade. Sou, no entanto, impedido porque acredito que a realidade não é, como a ação, um processo psíquico; ou será que o senhor quer dizer “reconhecimento da realidade”?

Em defesa do sadismo permito-me observar que a natureza dele como componente original do instinto dificilmente pode ser questionada, pois nesse sentido é que aponta a função biológica. Os fenômenos reativos, longe de equivalerem em natureza ao sadis­mo, revelam-se sempre absolutamente passivos. Todos concordamos que o mecanismo de base na evolução neurótica é o oposto do instinto, que o fator regressor é o ego e o reprimido a libido. Tal ponto de vista foi exposto, pela primeira vez, em meu velho artigo sobre a neurose de angústia.”

Sublinhei as passagens que considerei mais agressivas. Freud realmente não “levava desaforo pra casa”!!… A menção aos “eventuais estalidos” faz referência a um dos encontros pessoais entre ambos, onde um som se repetiu, sem explicação, na sala onde estavam, o que Jung ficou propenso a entender como expressão parapsicológica, para assombro de Freud.

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Notas:

[1] “Freud/Jung: Correspondência completa”. Organizada por WILLIAM McGUIRE, na tradução brasileira editada pela Imago Editora Ltda.

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