Carta peculiar de Jung

Jung e a esposa

Sigo lendo as cartas de Freud e Jung[1], e me deparei com uma de Jung merece ser citada quase na íntegra.

O contexto é o seguinte: Jung já havia deixado escapar, aqui e ali, uma linguagem mais religiosa. Freud desaprovava isso. Porém, depois da viagem à América, em 1909, e do sonho que Jung teve no navio, o qual sempre relacionou às questões históricas/mitológicas, Jung lançou-se apaixonadamente ao estudo dos símbolos e do mito.

Isso, parece, mesclou-se em sua alma com um anseio religioso difuso, sem esquecer o problema da liberdade sexual que, para um psicanalista ainda “em formação”, consistia num problema importante. Nessa época, como ele mesmo admite, Jung não estava muito seguro de sua monogamia.

Enfim, depois de Freud ter anunciado que o impulso religioso resultava do desamparo infantil humano – provavelmente já em reação às escapadas religiosas de Jung – a carta desse último tem um arrebatado tom religioso – mitológico – sexual.

É interessante ver como temas do Jung maduro já aparecem aqui, como a necessidade de um “novo mito”. Por outro lado, Jung esperava que a psicanálise ocupasse o lugar de uma nova religião – ou preparasse o caminho pra ela. Uma religião dionisíaca, bem ao estilo de uma certa leitura de Nietzsche. Seguem trechos da carta (sublinhei os trechos que julguei mais interessantes).

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Carta 178, de Jung, escrita em 11 de fevereiro de 1910

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Caro professor Freud,

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“[…] Mantenho-me num equilíbrio tão instável entre o dioni­síaco e o apolíneo que me pergunto se não valeria a pena reviver algumas burrices culturais do passado, como os mosteiros. Quero dizer que na realidade não sei qual o menor mal. O senhor acredita que essa Fraternidade[2] possa ter uma importância prática? Não será ela uma dessas coalizões de Forel contra a burrice e o mal — mal que devemos amar para nos livrarmos da obsessão com a virtude que nos deixa doentes e proíbe as alegrias da vida? […] A religião só pode ser substituída por religião. Por acaso há um novo salvador na I.O.[a fraternidade]? Que novo mito nos é aí proposto para que vivamos por ele? Por pura desfaçatez intelectual só os sábios são éticos, a nós é indispen­sável a verdade eterna do mito.

Dessa torrente de associações há de o senhor inferir que a coisa não me deixou nada apático. O problema ético da liberdade sexual é realmente imenso e digno do suor dos nobres. Mas os 2 000 anos de cristianismo só podem ser substituídos por algo equi­valente. Uma fraternidade ética que propõe um Nada mítico, ab­solutamente isento da força impulsiva, arcaico-infantil, é um puro vácuo e jamais despertará no homem um resíduo que seja da pri­mitiva força animal que arrasta pelo mar as aves migradoras e em cuja ausência não pode vir à luz um movimento de massa irresis­tível. Concebo para a i’A [psicanálise] uma tarefa bem mais ampla e sutil que a aliança com uma fraternidade ética. Creio que precisamos dar-lhe tempo para que em diferentes centros ela se infiltre no povo, para que vivifique nos intelectuais o sentido do mítico e do sim­bólico, para que lentamente reconverta o Cristo no profético Deus da Vinha que ele foi, e desse modo absorva as forças instintuais extáticas do cristianismo com objetivo único de fazer do culto e do mito sagrado o que eles eram outrora — um ébrio festival de ale­gria onde ao homem fora dado existir no ethos e na santidade ani­mal. Tal o desígnio e a incomparável beleza da religião antiga, que por necessidades biológicas temporárias que só Deus sabe quais são foi transformada numa instituição de misérias. Mas que de­lícias infindas, que volúpia jaz ainda latente em nossa religião, à espera de um retorno ao verdadeiro destino! Um desenvolvimento ético genuíno e exato não pode abandonar o cristianismo; forçoso é que se articule dentro dele, levando à realização mais perfeita o próprio hino de amor, a agonia e o êxtase quanto ao deus morrente/ressurgente, a força mística da vinha e o tremor antropofágico da Ültima Ceia — só esse desenvolvimento ético tem con­dições de servir às forças vitais da religião. Já um sindicato de interesses morre ao fim de 10 anos.”

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A carta de Freud, respondendo essa de Jung, não consta da coleção. Mas, pela resposta de Jung à Freud, percebe-se que Freud comentou algo como: “me enganei enormemente sobre você”. Estamos ainda no início de 1910. Jung acabara de ser eleito Presidente para a recém fundada Associação Psicanalítica Internacional. O resto… bem, é história.

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Notas:

[1] “Freud/Jung: Correspondência completa”. Organizada por WILLIAM McGUIRE, na tradução brasileira editada pela Imago Editora Ltda.

[2] Freud havia proposto à Jung a vinculação dos psicanalistas à Fraternidade Internacional pela Ética e a
Cultura (carta 174F). A ideia de Freud era puramente política, como ele admitirá adiante (isto é, tornar a psicanálise menos mau vista, ou mais moral, aos olhos do público). Jung, no entanto, exalta-se com a proposta.

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