“O oráculo da noite”, de Sidarta Ribeiro

“Ler é sonhar pela mão de outrem”
(Fernando Pessoa, citado na abertura do livro)

Concluída a leitura, é hora de tentar reunir as ideias, fazer o resumo. Mas, como sempre acontecerá com os livros bons, isso só se faz com injustiça. Há uma miríades de tons e semitons que não podem ser resumidos; precisam ser provados, degustados, ao longo do tempo da nossa experiência. Leitura dinâmica seria algo um tanto sem sal, também. (aliás, como é possível que se queira ler assim?)

Ler é uma experiência, para além da pura informação. E, nesse sentido, Sidarta nos dá de presente um livro que é muito “dele”, acredito eu: uma mistura de histórias pessoais com pesquisa científica, mitos & sonhos colhidos de povos indígenas do Brasil e do mundo, cotejados com a psicanálise, com os psicotrópicos…

A pergunta fundamental que ecoa em toda pesquisa sobre os sonhos também está aqui: quanto de nossa ‘realidade’ é sonho? O que diferencia a lucidez do homem acordado da entrega ao onírico – se é que algo diferencia?

E a resposta, lastreada pelo último das pesquisas sobre o sonho, ajuda a consolidar o que já sabíamos, ou seja: que essa separação tão nítida entre ‘realidade’ e ‘sonho’ até pode servir, mas não descreve a nossa experiência total.

Realidade e sonho estão imbricados de diversas maneiras.

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O que mostram as pesquisas? Há algumas aproximações interessantes entre o sonhar e a memória, a homeostase mental e a criatividade. Parece que sonhar está ligado ao processo tanto de consolidação do que aprendemos, quanto do expurgo daquilo que não parece interessante guardar.

Sonhar também teria a ver com a aprendizagem em si: sujeitos testados se saíam melhor após “dormir” sobre um problema, na comparação com os que não dormiram. Sonhar estaria ligado ainda com a solução de problemas: sujeitos que sonhavam com algo relacionado ao teste se saíam melhor nele, e haveria uma relação de conteúdo aí – não qualquer sonho, não apenas dormir, mas dormir e sonhar com aquele tema específico.

Finalmente, sonhar seria a própria expressão da criatividade da mente, liberta, à noite, de sua cooptação pelas necessidades e urgências do dia.

A imagem final que emerge das pesquisas é o sonho como “máquina probabilística”: sonhando, tanto encontraríamos respostas criativas para nossos problemas, como encenaríamos as prováveis consequências do que fazemos, nos ajudando a decidir e a estar mais preparados para pôr em prática o que planejamos (ia dizer: sonhamos…).

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Tudo isso é um pouco conhecido, mas quê dizer da ligação entre sonhos e expressão gênica? O que as pesquisas estão sugerindo, nos conta Sidarta, é que através daquilo que sonhamos modulamos a expressão de nossos genes. Ou seja, todo o processo de memorização e descarte de memórias não seria algo ligado apenas à “informação”, mas à própria estrutura física do cérebro. “Construímos” nossa estrutura cerebral através, entre outras coisas, de nossos sonhos.

O que permite uma inusitada aproximação entre a neurociência e a psicanálise. Freud e Jung são lembrados no livro, assim como a pesada ‘censura” que se abateu sobre ambos, do lado das neurociências. Censura que só agora começa a ser abandonada, com a confirmação de alguns de seus insights – a vinculação entre sonho e desejo (Freud), por exemplo, ou entre sonho e preparação para o dia seguinte (Jung).

Mas talvez a maior redenção da visão desses exploradores venha da confirmação de que os sonhos não são “ruídos”, nem algo sem sentido ou vinculação com os acontecimentos da vida. Ao contrário, a pesquisa vêm mostrando que os sonhos têm sentido; que a narrativa onírica, embora muito solta e nem sempre compreensível, está ligada sim àquilo que está sendo vivido pelo sonhador. Tanto que muitos problemas (inclusive científicos) são resolvidos nos sonhos. Também se percebeu que o sonho permite uma melhor avaliação da condição emocional dos sujeitos, exibindo uma espécie de sensibilidade aumentada para o próprio estado emocional (o que, convenhamos, sempre foi sustentado por Freud e Jung).

***

Mas tudo isso é “informação”; e é um tanto sem graça apresentar assim um livro que tem potencial para ser tanto mais do que isso. Fica o convite, ao leitor, para que se dê essa experiência.

Concluo elogiando o fato de o “Oráculo da noite” ser, em si mesmo, condizente com a experiência múltipla do sonhar; um livro aberto, com pontas soltas, mas por integridade – como tudo o que é científico, aliás -, pessoal, informativo, lírico, cheio de personagens inusitados, como os índios brasileiros e sua sabedoria ancestral… Quase como se estivéssemos lendo um sonho de Sidarta –

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