Um pouco além do visível

Nossa mente é uma ferramenta útil, voltada para coisas práticas; talvez por isso, ela tenda quase sempre a superestimar o visível.

Porque o visível é útil, e quase sempre suficiente, para determinar nossas ações. Mas o visível é tudo? Creio que não, e há muitas coisas que só se conquista indo um pouco além do visível.

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Podemos começar com o olhar: uma mente desavisada poderia pensar que tudo o que não pode ser visto é ruim. Mas isso deixaria de fora momentos onde o olhar é apenas sugerido… e precisa ser completado por mãos e lábios ávidos, por exemplo.

Ao “ouvir” se aplicaria a mesma tese, mas a música nos dá outro exemplo: todo músico sabe que a intensidade do som deve variar, às vezes chegando até ao silêncio, que nos bons músicos é sempre integrado como parte do movimento das notas, e não como sua negação. Música sem silêncio é sempre um pouco invasiva demais, intensa demais, “presente” demais.

O cheiro e o toque poderiam parecer experiências mais concretas, onde apenas o explícito impera, mas isso só acontece se desconsideramos o tanto de memória (ou de subjetividade) que atua aí.

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E esse é o meu ponto: ao privilegiarmos o “fato”, o explícito, o visível, estamos deixando em segundo plano o subjetivo, a memória, a singularidade que nós inserimos, sempre, no dado real.

A questão não se dá em termos absolutos; não precisamos escolher entre “só” real, ou “só” fantasia, pelo menos na saúde. Mas o ponto crítico aqui é que nossa cultura parece querer fazer essa escolha de forma absoluta – o que, como já disse em outro lugar, é característica da doença.

O que pertence ao humano é o paradoxo, é a mistura desses dois extremos. A ponto de eu preferir dizer que essa superestimação do visível não é o apagamento do lado subjetivo, mas antes uma subjetivação pobre – como se estivéssemos, sem perceber, condicionados a subjetivar o real de acordo com uma norma, com um padrão.

É possível que ganhemos em efetividade ou produtividade, ao assim proceder. Mas é preciso considerar também o preço que pagamos por isso, em moeda subjetiva.

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E é um preço alto. A perda do âmbito subjetivo praticamente resume nossa experiência “pós-moderna”. Perdemos tanto o contato com o subjetivo que chegamos a medi-lo com o ‘metro’ do visível – o que é absurdo.

Assim, por exemplo, a religião, que sempre foi uma ponte e uma expansão do aspecto invisível da existência, ligado à nossa subjetividade, hoje é julgada como “ciência ruim”, ciência primitiva – como se ela tivesse que ver com o visível.

O mesmo pode ser dito do mistério, do não-saber, condição para inventar, criar, alguma coisa – condição de nossa liberdade. Antes, parte da experiência comum do invisível; hoje, “incerteza” a ser reduzida estatisticamente; conhecimento “precário”, a ser “resolvido” num futuro avanço da ciência, que nos dirá tudo.

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O invisível, o incompleto, insaturado, indefinível mistério – não são apenas “conhecimento ruim”. São uma parte da existência por seu próprio direito. Há uma parcela do existir que precisa ocorrer nas sombras. Como as raízes de uma árvore, ela não funciona se for exposta. E é tão absurdo querer medir o invisível pelo visível quanto querer que as raízes sejam “troncos ruins” –

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