Luiza Moura, no silêncio do Self

Capa do Livro “Humanos”, de Luiza Moura. Editora Terra de Areia: Triângulo, 2022

Luiza Moura diz em algum lugar[1] que a comunicação, em Winnicott, só é ruidosa quando falha. Imediatamente me reconheço, nisso. Eu não acredito muito na palavra; menos ainda, se ela não for poética.

Pois a verdadeira comunicação é silenciosa. É quando compartilhamos uma experiência com o outro que nos entendemos. Falar… geralmente, é se afastar disso. É como querer tirar uma foto daquele momento ímpar, único: ao nos aprumarmos pra câmera, o momento se perdeu.

O espontâneo só se dá ao momento presente. Só aí, nos comunicamos; somos. Nesse tempo que é pura-passagem, nesse ser-que-não-é, do presente, é onde tudo acontece, sobretudo a vida. Viver não se conjuga, ou só se conjuga em silêncio.

***

Quanto mais estudo, mais percebo que “conhecer” pode nos afastar das coisas. Daí que exista uma certa sabedoria em se afastar dos livros, como se o sábio reencontrasse, em si, o ignorante. Winnicott fala em “crescer para baixo”, e Luiza nos convida a fazer essa passagem rumo à natureza, à nossa natureza, que tão frequentemente está perdida – nossa natureza infantil.

Novo paradoxo aí, tão ao gosto winnicottiano: se há em nós essa natureza, porque é tão difícil reencontrá-la? Mas é verdade: precisamos fazer um esforço em direção ao espontâneo. A infância que buscamos, não está atrás, mas na frente: é uma nova infância, agora, conjugada com o adulto.

Essa nova infância bem poderia ter outro nome, e penso que Winnicott a encontraria no Self, no silêncio do Self.

***

Pois o Self é essa natureza que somos, mas que nos é distante. Daí a necessidade do esforço, o caminho que precisamos descobrir, até “lá” – até nós… O Self é essa criança que, silenciosa, guarda consigo mananciais de energia e vitalidade. Lá tudo se torna “ouro”; tudo se torna “nosso”; tudo adquire sentido.

Ao mesmo tempo, o Self é frágil; pode se desfazer ao menos toque. Por isso se retrai – pois é um risco, viver! Viver, realmente… E ele tem razão. Perder o Self é como perder a esperança – algo tão sutil, imaterial, mas tão poderoso… Não raro, aquilo que separa a vida da morte.

Entrar em contato com o próprio Self é vida. Nenhum caminho ou técnica nos levam até lá. É preciso seguir o sentimento. É preciso respirar. É preciso… deixar. Deixar-se ir.

É preciso falar consigo mesmo. E ouvir.

Em silêncio.

Em silêncio…

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Notas:

[1] Acho que é em seu recente livro “Humanos”

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